NA CORDA BAMBA
Representando a rebeldia e a loucura libertária dos anos 1970, Philippe Petit sobe no arame, ganha o Oscar de melhor documentário e conta a história de uma manhã inesquecível nas Torres Gêmeas
Por Fernando de Albuquerque

O EQUILIBRISTA
James Marsh
[Man on Wire, EUA, 2008]

Muito fácil julgar imprudente os que tem insights pouco convencionais. Afinal, tem louco pra tudo no mundo e nosso julgo vai mais além – recaindo sobre a necessidade de impelir a deserção – quando bem no momento de concepção da ideia o plano parece convergir ao impossível e impensável. Esse é o tema central de O Equilibrista (Man On Wire), documentário que recebeu o Oscar de sua categoria este ano. O filme retrata as peripécias de Philippe Petit que, com a ajuda de alguns amigos e muito destemor, atravessou em 1974 o vão livre que separava as torres do World Trade Center, em Nova Iorque. Muito além da história, o doc adota um estilo narrativo em que o tom da mensagem ganha as verdadeiras cores da odisséia, mesmo quando a parte “ficcional” entra em ação. Respeitando, na íntegra, todo o trabalho desenvolvido pelo homem que andou na corda bamba.

A façanha ganhou tons reais em 7 de agosto de 1974 a mais de 400 metros de altura e Petit andou por cerca de uma hora sobre o fio de aço. Ele acenou para policiais que tentavam persuadi-lo, sentou, deitou no amare e ganhou milhares de cidadãos novaiorquinos que, incrédulos sorriam para o que seria considerado o maior crime artístico do século 20.

O clima narrativo criado pelo documentário de James Marsh, mostra os fatos 34 anos depois das “loucuras” orquestradas por Petit junto com o depoimento do próprio e dos persoagens envolvidos com a tramóia. Ele reconstituiu minuciosamente como eles conseguiram burlar a forte vigilância no WTC e todo parangolé em torno do que simbolizou o ato. O personagem desse doc já colecionava outros feitos como atravessar as duas torres da catedral de Notre-Dame e a famosa ponte Harbour, em Sydney, na Austrália. Tudo isso seguindo a linha das produções que não se furtam a recorrer a reconstituições fictícias para completar a história enriquecendo a produção, capitaneada pela BBC e Discovery, e reconstituindo momentos como o que Petit e um colega se colocam imóveis sobre uma lona no último andar do WTC para fugir da vigilância de um guarda fortuito.

A bem sucedida tragetória de Marsh nesse doc, contudo, emerge, também, de sua abstenção em julgar Petit. Ele não o apresenta enquanto um visionário, nem como um marqueteiro, nem como um louco, ou um típico maluco-beleza dos anos 70. Petit era tudo isso (!), mas simbolizou o princípio fundamental do prazer dos veradeiros artistas nunca estarem diretamente ligados às questões materiais, mas sim às experiências estéticas.

Aqui o diretor lança mão de todos os recursos narrativos característicos de um thriller cheio de suspense (aqui esses elementos são atenuados para se encaixar ao tema, mas continuam lá, intactos). Todos sabem como a história de O Equilibrista termina, mas Marsh sabe que a tensão não precisa estar diretamente ligada ao final da história, mas sim à divergência no grupo que forneceu suporte logístico para aventura do francês. Não raro há justaposição de depoimentos e parênteses narrativos que fazem a platéia, no momento em que Petit suge na tela em seu momento mais glorioso, entre em plena catarse e satisfação.

Do início ao fim, o documentário trata de temas caros e inerentes à condição humana pós-contemporânea: a importância da amizade, os efeitos da fama e o clichê em torno da obstinação do senso comum de um artista em viver uma vida fora de regras e que busca poesia no espaço do banal. E entre os depoimentos, destaque para Petit que exibe sua índole ao se enxergar enquanto estrela internacional há 34 anos e diante das câmeras vende seu peixe com todas as forças. Com entusiamo apaixonante. Outro ponto alto são as falas de Jean-Louis Blondeau, o braço-direito de Pethit. Em suas palavras ele mostra o quanto sente falta do amigo zombeteiro e de como se sentiu traído por ele. E a sinceridade estarra no rosto de todos os participantes já que quem precisa admitir que fuma maconha, admite. Quem se cagou de medo do projeto e saiu correndo, diz. E isso dá aos depoimentos um tom essencialmente tragicômico e bem-humorado.

No último Oscar, O Equilibrista concorreu com outros quatro filmes e dois deles abordaram temas caros aos EUA como As Águas de Katrina e The Betrayal, sobre a guerra do Vietnã. E se a pergunta for: porque ganhou? A resposta passa além da qualidade técnica e narrativa inegáveis, recaindo sobre o comparativo que numa manhã igualmente ensolarada ao 11 de setembro, foi cometido um crime artístico no local que foi alvo do mais brutal atentado contra a vida humana nos últimos anos.

NOTA: 8,0

Sem mais artigos