COMO O DIABO GOSTA
O Diabo Veste Prada é nota dez, mas se configura como filme para aquela tarde ociosa, com pipoca plenamente justificada
por Fernando de Albuquerque

O Diabo Veste Prada nasceu para ser exatamente o que é: um filminho bem sessão da tarde, uma sátira não muito cáustica e amena sobre indústria da moda, um subproduto mais acessível do fashionismo ”Prêt-à-Porter”. Criação do diretor David Frankel Altman, responsável pela série “Sex and the City”. E depois de clássicos do cinema, como “Blow Up – Depois Daquele Beijo”, de Michelangelo Antonioni, e “Quem É Você, Polly Magoo”, de William Klein (ambos falavam de formas diversas do mundo da moda) ficou muito difícil abordar o tema e parecer inovador.

O argumento é baseado no livro de Laura Weisberger (ex-assistente da poderosa Anna Wintour, editora da revista Vogue), e por isso é de se supor que contenha, muitas meias verdades sobre este império mundial de glamour comandado por criadores e infestado de criaturas sempre magras, com manequim abaixo do 40 e vestidas com a última blusinha da Dior. A protagonista Andy Sachs (Anne Hathaway) é a jovem otimista que procura emprego como jornalista em Nova York. Ela desconhece por completo as engrenagens desta feira das vaidades. É ingênua, lerda e mal vestida para os padrões da hight culture. Mesmo assim é contratada como sub-assistente de Miranda Priestly (a diva Mery Streep), fria, megera, ambiciosa, implacável editora da revista Runway.

É da atribulada convivência entre ambas que o roteiro se nutre. É o conflito entre tolerância zero e a determinação de aprender. Este embate já rendeu coisa melhor, em outros contextos, mas essa não é a proposta do filme. Ele quer ser raso e arrasar no fashionismo. Cumpre com maestria o seu papel.

Meryl Streep aparece mais uma vez oscarizável e de tão fiel chega, em alguns momentos, a desequilibrar a balança que conta com atores do quilate de Stanley Tucci fazendo um dos editores de moda. Ela é particularmente notável vivendo uma mulher competente, solitária e que sobrevive (quase que eternamente) rodeada por pessoas à beira de um ataque de nervos e do abismo do descarte imediato. Miranda, de mulher-diabo, transforma-se no decorrer da trama, em um modelo de perseverança e de resistência. E a moda, para o filme, resulta menos num alvo de ataques e mais num ambiente narrativo propício para ensinar às garotas lições de maquiavelismo. Frankel é um diretor mediano. Além de um pouco previsível do ponto de vista moral e cinematográfico. E isso fica muito claro a partir da pobre seqüência de Paris. Seria preciso um realizador mais perverso e irônico para extrair do livro a carga de rebeldia que ele possui.

O Diabo Veste Prada é de uma produção tão charmosa que consegue esconder um roteiro cheio de previsibilidade. Em alguns momentos o espectador percebe que não há as mãos do diretor, mas o próprio filme toma um rumo. Chegando a evitar a ”cinderelização” da garota assistente e a conversão da editora em bom caráter.

O DIABO VESTE PRADA
de David Frankel Altman
[EUA, 2006]

NOTA:: 8,0

Sem mais artigos