ENCURRALADAS COTIDIANAS
por Fernando de Albuquerque

O CORTE
Konstantin Costa-Gravas
[França/Espanha,2005]

O que fazer quando se perde o emprego? Em tempos que a taxa de desemprego chega às alturas essa é uma pergunta, no mínimo, pertinente e que o cineasta Konstantin Costa-Gravas satiriza, com muita maestria, em seu novo filme “Le Couperet”, que chega ao Brasil como O corte. Nele, ele lida com a questão do capitalismo, ganância corporativa e tudo utilizando a melhor forma de crítica: a comédia. Mais precisamente um excelente humor-negro, ao mesmo tempo meio tenso, meio desleixado. Nada que se pareça ao estilinho “ideologicamente-chato” de Michael Moore.

O filme narra a história de Bruno Davert, um típico executivo da indústria de papéis, que está a dois anos sem conseguir emprego e ao ver suas economias chegarem ao fim sente que seu estilo de vida começa a ruir. Isso acaba fazendo com que Bruno “enlouqueça” e comece a traçar um mirabolante plano para recuperar seu emprego: assassinar o homem que ficou no seu lugar e todos os possíveis concorrentes, qualquer semelhança com a recente situação brasileira no qual uma estagiária mandou matar suas concorrente ao emprego é mera coincidência, mas acaba por trazer a história, por mais absurda que seja, mais próxima de nós. O filme alterna as incursões criminosas de nosso anti-herói com uma outra empreitada igualmente complicada: a de manter sua família na completa ignorância e plenamente unida apesar da crise. Quase uma façanha já que várias vezes o próprio Bruno é visitado por agentes da polícia francesa em cenas carregadas de uma tensão histérica.

As investidas do desajeitado,porém bem sucedido serial killer rendem risadas e é notável como Gavras sustenta o humor e o suspense após tantos anos de filmes densos e sérios; como em Desaparecido (“Missing” de 1982, que recebeu indicações ao Oscar incluindo melhor filme e levou o de roteiro adaptado) e o recente Amém, que lida com a omissão da igreja no período do Holocausto. Em O Corte ele se diverte, inclusive brincando com clichês de filmes americanos como o noticiário de televisão que sempre fala sobre o assunto do filme (assassinatos de executivos da indústria do papel) na hora que os personagens principais estão vendo; ou mesmo no exagerado product placement que pontua o filme inteirinho, mas você nunca sabe exatamente de que produto se trata. Chega a ser pilhérico a quantidade de propaganda de calcinhas e lingeries em outdoors e nunca se sabe a marca, ou se realmente são propagandas de calcinha ou de um motel com shows eróticos.

Dividindo boa parte dos méritos está a ótima atuação de José Garcia, que com sua aparência medíocre e ótimo timing consegue convencer a platéia. Ele atua como cidadão comum levando às últimas conseqüências o infortúnio do desemprego. Mesmo que a verossimilhança de alguns acontecimentos seja duvidosa. Acho que todo mundo que já esteve desempregado por um algum período sem emprego, sem sombra de dúvida, vai se identificar com o drama e rir com a tensão meio desleixada do protagonista Bruno.

O Corte só peca pela extensão. Chega um momento em que o filme começa a incomodar e se estender mais que o necessário. Talvez se ele tivesse cerca de uns bons 20 ou até 30 minutos menos seria bem mais leve e teria o circuito narrativo mais bem amarrado. Mesmo deixando o espectador impaciente ele consegue prender a atenção e ainda tecer um ácido comentário sobre o nosso tempo, onde o homem vale apenas pelo dinheiro e as coisas que possui. O filme chegou a receber duas indicações ao César, melhor ator para José Garcia e melhor roteiro adaptado.
NOTA:: 7,5


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