LIVRE, MAS NÃO FELIZ
O Céu de Suely termina com uma estrada vazia, sem tragédia nem happy end tudo com o direito a nota dez
por Fernando de Albuquerque e Rafaella Soares

Depois de dois anos se virando na cidade de São Paulo, ao lado do marido, ambos fugidos de um tórrido interior cearense, Hermila (sim, o nome da personagem é o mesmo da atriz), volta à sua cidade natal, Iguatu, com a felicidade e deslumbramento estampados no rosto e um filho pequeno debaixo do braço. A principio já se instala na frente das telas um clichê que faz o espectador retorcer-se na poltrona. Ledo engano. O Céu de Suely, filme de Karim Aïnouz, dá um salto qualitativo e surpreende sem pudor e nem desprendimento quem o assiste. O filme retrata de modo preciso e muito sutil, e sem discursos explicativos, a torta pós-modernidade brasileira.

Hermila é uma personagem dividida entre laços afetivos. De um lado ela tem Iguatu como raiz, e do outro o desejo de ganhar o mundo. Uma mulher entre suas fontes e um céu sem limites. Essa tensão permanente entre o local e o global está presente no próprio ambiente, em cada plano do filme, bem como em sua trilha sonora. As primeiras imagens e sons sugerem essa dialética: numa textura de filme doméstico, vemos Hermila correndo e dançando feliz num descampado, enquanto se ouve em off seu relato de amor incondicional ao marido Mateus. Como fundo a canção “Everything I Own”, do Bread, em versão brasileiríssima. Uma espécie de clipe bem brega. Iguatu então se converte nisso: numa vontade incontrolável de estar associado a um mundo globalizado, mesmo que pelas portas dos fundos. E Karim vincula o filme a uma galáxia de Gutemberg remodelada e que relembra a máxima de McLuhan: “para ser global, fale apenas da sua aldeia”.

Voltando ao institucional: a jovem Hermila, acompanhada do seu filho pequeno, retorna ao grau zero de sua saudade: espera a volta do marido. E isso nos é contado de um lugar sertanejo mostrado em nuances ricas e planos bem modelados. Os detalhes enriquecem o todo, como, por exemplo, o uso do céu, a decoração típica de um motel barato, ou mesmo a imagem de uma geladeira aberta. As perspectivas financeiras lançadas pela protagonista que existem na pirataria de música e filmes logo dão lugar a uma idéia bancada pela própria Hermila: rifar o próprio corpo, juntando o dinheiro necessário para uma fuga que lembra a de uma prisão. Ela faz por onde.

As atitudes da personagem Hermila são fortes e tem reflexo em todos os personagens, da tia sapatão às amigas da avó. Mas o caso mais interessante é o de João (interpretado pelo ator João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus) um amor antigo que tenta cuidar dela, entendê-la e conduzir a vida de Hermila a um cotidiano estafante e bem previsível.O Céu de Suely por várias vezes é impessoal, frio e distante. O espectador vê com poucas elucubrações, mas muita emoção, os acontecimentos na vida de Hermila. A história dela é curta e ganha tônus com a exposição de pequenos detalhes, com a preocupação com o colorido. Uma sábia escolha que prima por uma narrativa calcada nas miudezas da vida de uma mulher que tenta, desesperadamente, suprir os anseios de sua alma e ser feliz. Piegas, mas funcional.

Em Madame Satã, também de Aïnouz, a pressão social e mesmo racial estava estampada no corpo e na alma do protagonista. Com Suely essa tensão é o tema do deslocamento, do sonho de um lugar feliz, que se encarna no destino de Hermila. Da Lapa carioca dos anos 40 ao sertão cearense do século 21, do negro homossexual à sonhadora interiorana, os temas foram modificados, mas o cinema de Aïnouz continua sendo um jeito delicado, porém vigoroso, de dar a ver a interação entre o indivíduo e sua circunstância.
Curiosidade – O filme está bem longe do padrão Globo Filmes de cinema que, com raras exceções, vem embalando obras que parecem mais funcionais na tevê. O Céu de Suely surge como uma raridade no cenário, o que talvez explique a demora no seu lançamento nas salas pernambucanas. Ele chegou às telas cariocas e paulistas ainda em novembro, e só agora a província recifense decidiu abrigar a obra.

INQUIETO e INDIGESTO

O cenário árido do nordeste freqüentemente duela com histórias oníricas, lúdicas, a sugerir que o que temos de quente sobre as cabeças temos de poetas. Ao contrário de Cinema, Aspirinas e Urubus, que segue essa estética, ou do road movie-caba-da-peste-urbanóide Árido Movie, O Céu de Suely dá um certo nó na garganta, daqueles que só os personagens mais sofridos do cinema provocam. Hermila não passa fome, mas quase. Hermila não tem uma penca de filhos, mas tem um bebê. O pai da criança promete voltar de São Paulo e não dá mais notícias. Isso, somado à frustração de voltar pra cidade natal sem ter melhorado de vida e esperar ansiosamente a volta do marido, torna-a uma Macabéa moderna. Nem mais ingênua nem menos. Entre idas insistentes à rodoviária e momentos de tédio em que cheira acetona, Hermila percebe sua situação limítrofe, dentro de uma cidade onde as pessoas estão sempre de passagem e ela está permanecendo.

Seu abandono é tão sofrido que ela enxerga numa rifa de si mesma a solução para sair daquele lugar. Mesmo com o amor de João, ela parte nessa jornada de se tornar a primeira mulher da cidade que vende “uma noite no paraíso”. Suas maiores desventuras começam aí. A idéia de prostituição é encarada com certo conformismo de sua parte, ao passo que gera momentos de tensão na sua casa. A atriz que encarna Hermila, Hermila Guedes, dosa com muita habilidade a dor e a impulsividade da personagem, que arrisca tanto por achar que não tem nada a perder. O Céu de Suely é bonito por ser tão fiel aos elementos mundanos na narrativa. As cenas dela freqüentando uma boate de beira de estrada e dançando músicas tecno-bregas remetem bastante à Cidade Baixa.

O Céu de Suely não é indigesto apenas por ter cor, cheiro, diálogos diretos. Mas também por não é um filme asséptico. Oferece uma gama de sensações que acabam por criar empatia tamanha e fazer o espectador sair da sala desolado e solidarizado com essa mulher.

O CÉU DE SUELY
Karin Aïnouz
[Brasil, 2006]

NOTA :: 9,5

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