O Casamento de Rachel (Foto: Divulgação)
Anne Hathaway, revelada em filmes teen ganha dimensão e densidade neste drama de Jonathan Demme

CENAS DE FAMÍLIA
Filme de Jonathan Demme, mais do que revelar o amadurecimento de uma grande atriz, Hathaway, reafirma a força do cinema independente americano
Por Gabriel Gurman

O CASAMENTO DE RACHEL
Jonathan Demme
[Rachel Getting Married, EUA, 2008]

Para os cinéfilos mais extremistas, não é estranho verificar que o fato de um filme ser procedente da terra de Obama é suficiente para que este seja evolto de preconceitos – muitos deles com certa razão. Felizmente, o cinema independente americano, antes considerado marginal e que cujas principais características consistem em quebrar estes paradigmas do star system americano, vem ganhando espaços nas telas e até mesmo no Oscar, prêmio máximo do cinema pipoca.

Considerado o grande pai dos filmes independentes americanos, o cineasta John Cassavetes, dono de obras-primas como Uma Mulher Sob Influência e Noite de Estréia apresentou elementos que seguem sendo utilizados quase quarenta anos depois nos chamados filmes mublecore, cujos principais diretores são Andrew Bujawski e John Swanberg, e também em produções de baixo orçamento, como Casamento de Rachel, em cartaz no Brasil. O filme abusa das câmeras nas mãos (como se fossem filmagens amadoras), levando os espectadores para dentro de uma família problemática, prestes a celebrar o matrimônio de uma das filhas. Aqui não há tiros, situações inverossímeis ou flashbacks forçados. São problemas que poderiam acontecer com cada um de nós, e este é o principal charme do filme.

A história é centrada em Kym, jovem garota que, por conta do abuso de remédios, acabou cometendo um acidente fatal que abalou uma família aparentemente estruturada. Por conta do casamento de sua irmã, a Rachel do titulo, Kym deixa a clínica de reabilitação por alguns dias, mas a mistura intensificada de sentimentos díspares acarreta em profundas discussões envolvendo todos os membros da família – e quem mais estivesse por perto.

Magistralmente interpretada por Anne Hathaway – que concorreu ao Oscar de melhor atriz -, Kym é instável e seu sentimento de culpa, acentuado por acusações indiretas, acaba gerando uma dispersão no foco inicial do final de semana, o que acarreta em encontros e desencontros envolvendo o espectador, como se fizéssemos parte da família e estivéssemos lá, tentando ajudar Kym.

Um dos grandes méritos do filme dirigido por Jonathan Demme é o total encadeamento e verossimilhança do roteiro escrito por Jenny Lumet, filha do cineasta Sidney Lumet. Apesar da situação comemorativa, as discussões entre os familiares mostram como, apesar de tentarem maquiá-las, as tragédias passadas estão marcadas em cada personagem como uma tatuagem. Basta um signo, um sinal, para que todo estes sentimentos venham a tona.

Apesar da oportunidade de desenvolver um dramalhão a partir desta premissa, Demme realiza a obra com precisão, culminando na incrível filmagem do casamento. Descontraído e alegre até a última gota de suor, o casamento é semioticamente traduzido a partir de canções dos mais diversos estilos que vão até o bom e velho samba carnavalesco.

O Casamento de Rachel (Foto: Divulgação)O grande mérito de “O Casamento de Rachel” é, na verdade, uma soma do talento da atriz Anne Hathaway, com a sutileza da direção de Jonathan Demme, que nunca julga as ações de qualquer personagem (destaque para a também excelente atuação de Bill Irwin, como o pai da família) e o singular roteiro de Jenny Lumet, provando que o cinema independente americano continua em ótimas mãos, seduzindo produtores, diretores e atores cansados do american way of filming estabelecido em Hollywood.

Um ponto curioso do filme é a atuação de Tunde Adebimpe, da banda americana TV On The Radio, que como ator se demonstrou um excelente cantor.

NOTA: 8,0

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