Ícones: Nanini faz Odorico Paraguaçu e Matheus, Dirceu Borboleta (Foto: Divulgação)

O ESPELHO CARICATO DO BRASIL
Primeiro longa do festival, “O Bem Amado” ganha lançamento no Cine PE e mostra, mais uma vez, a maestria da estética construída por Guel Arraes

Por Fernando de Albuquerque
Editor da Revista O Grito!, em Recife
twitter.com/fernalbuquerque

Uma fórmula simples, sempre gera bons resultados. Essa é a premissa daqueles que tem boas ideias e não se firmam em construir parangolés que tem como principal argumento a livre auto-afirmação intelectualóide. E O Bem Amado, peça que já foi novela, minissérie e que, agora, se transformou em filme pelas mãos de Guel Arraes é bem assim: simples e muito bom.

Com orçamento gordo, R$ 10 milhões, O Bem Amado tenta ser fiel à peça de Dias Gomes, escrita em 1962 e que inspirou a novela homônima da Globo em 1973. Um dos marcos da teledramaturgia nacional -por ser a primeira a cores, por abordar a corrupção, pelo sucesso de audiência.

O filme cativa, primeiro pela própria ambientação e produção. A utilização perfeita de ícones dos anos 60, ano em que o filme se passa, é um dos pontos fortes. Outro fator de inebriação são as atuações e o próprio elenco. No longa, Marco Nanini interpreta Odorico Paraguaçu, Matheus Nachtergaele é Dirceu Borboleta, e José Wilker, Zeca Diabo. Andrea Beltrão, Zezé Polessa e Drica Moraes fazem as irmãs Cajazeira.

E a inovação de O Bem Amado no próprio filme de Guel não está situada apenas na forte reverberação de um passado recente para uns e que precisa ser revisitado pela juventude que só conheceu a democracia. Mas também na ênfase colocada em cenas da realidade brasileira que se mesclam a um certo tom de realismo fantástico e incorporava, ainda, à trama, um debate crítico sobre as condições históricas e sociais vividas pelos personagens envolvidos.

O texto de Dias Gomes traz, por si só, um forte peso fantástico e, por isso, cômico, mas isso surge revisitado e ampliado no filme de Guel. O humor aparece reforçado em seu potencial subversivo em relação às formas e convenções. Dando, assim, a real dimensão do legítimo demagogo, da mulher fogosa, do malandro sabichão, do aproveitador, do homem excessivamente correto. Lançando na tela um verdadeiro projeto estético anti-ilusionista que prega que a façanha e a qualidade devem ser mantidas, antes mesmo, através da forma mais clássica de encantar o espectador/receptor: através do texto dito/transmitido.

Cenas dos bastidores do filme que foi gravado em Alagoas e no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

E esse empreendimento reproduz a marca de sucesso dos produtos assinados pela grife Guel Arraes. Em todos os seus trabalhos há uma latente marca que une tradição à renovação contínua e a reconfiguração dos formatos e da forma de emissão da obra construida. E assim, ele nos lembra a montagem vertical e polifônica que permite o uso da combinação e da superposição em um mesmo quadro (tomada).

Na utilização desse recurso, tão recorrente em sua obra, Guel mantém a aceleração necessária para a fruição de O Bem Amado. Associando um grande volume de estímulos e informações numa única sequência fazendo livre uso de cortes rápidos e tomadas curtas. Exigindo do espectador uma atenção contínua e redobrada sob a pena de não apreender o todo caso haja desatenção.

Mesmo assim é quase impossível não atestar a genial construção dos diálogos e frases que de tão reais e pertencentes ao nosso contidiano se tornam cômicas.  Guel toca, com excelente bom humor em questões caras ao nosso mundo contemporâneo, como as invasões do MST, a “polícia” criminosa e a lista de mazelas que aflingem. Lembrando políticos célebres como Mão Santa, PC Farias, Collor, entre outros.

E a todo momento levando ao espectador um humor que questiona sem ferir, feito sob medida, até mesmo, para os atores envolvidos nos papéis. Com destaque máximo para Marcos Nanini que exibe, sem dó nem piedade o cinismo que marca cada milímetro do seu personagem extremamente maquiavélico.

O BEM AMADO
Guel Arraes
[Brasil, 2010]

NOTA: 9,0

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