O Aviador (Foto: Divulgação)

UM SCORSESE LEGÍTIMO, SIM
Impecável tecnicamente, filme chega ao Brasil em formato Blu-Ray
Por André Azenha

O AVIADOR
Martin Scorsese
[The Aviator, EUA, 2004]

O Aviador (Foto: Divulgação)Quando foi anunciado que Martin Scorsese dirigiria uma cine-biografia do excêntrico milionário americano Howard Hughes (1905 – 1976), teve quem torcesse o nariz, alegando que o filme nada tinha a ver com obras anteriores do diretor. Ledo engano. Tal qual dois personagens interpretados por Robert De Niro em filmes de Scorsese, Travis Bickle (de Táxi Driver, 1976), e Jake La Moota (de Touro Indomável, 1980), Hughes, por mais rico que fosse, era um sujeito à margem da sociedade, excêntrico, sonhador, louco, realizador, um personagem fabuloso da história dos EUA e que já havia sido transformado em filme em outras ocasiões, inclusive com Tommy Lee Jones, num telefilme mediano de 1977 (O Incrível Howard Hughes).

Faltava o longa definitivo sobre o empresário que se aventurou como diretor de cinema e era apaixonado por aviões. E Leonardo DiCaprio decidiu produzir a empreitada, chamando Michael Mann para dirigi-la. Mas como o diretor de Fogo Contra Fogo vinha de duas cine-biografias (O Informante, 1999, e Ali, 2001), resolveu trabalhar em Colateral e participou de O Aviador apenas como co-produtor, ajudando a levantar os US$ 100 milhões necessários para dar vida à superprodução.

Quem acabou topando a direção foi Martin Scorsese, que, se não alcançou a mesma excelência de seus clássicos antigos, surgiu com uma obra superior aos bons Cassino e Gangues de Nova York e pôde vislumbrar finalmente uma clara chance de levar o Oscar de Diretor.

A trama foca apenas um trecho da vida de Hughes. Sua ascensão e o início de sua derrocada que resultou em anos de reclusão, fato que virou lenda naquele país.

Herdeiro de um bilionário do petróleo, ele teve uma vida conturbada, torrou boa parte de seu dinheiro como diretor cinematográfico, namorou beldades do cinema dos EUA da primeira metade do século passado, e depois criou sua própria empresa aérea, despertando a ira da concorrência – a toda poderosa Pan Am. Sua história gerou, inclusive, um dos maiores golpes dos EUA, quando um escritor inventou ter feito uma biografia do empresário (tema retratado no divertido o O Vigarista do Ano, 2007) e levou US$ 1 milhão antes do livro ser lançado.

Com um material e tanto nas mãos, Scorsese realizou uma produção esmerada, impecável visualmente e com justiça premiada cinco vezes no Oscar, quatro delas em categorias técnicas (Edição, Fotografia, Direção de Arte e Figurino), recriando com perfeição todos os períodos retratados na tela. O diretor pediu a Robert Richardson para que, a cada década filmada, a fotografia remetesse à forma como os longas eram filmados em suas respectivas épocas.

Também ajudou o bom roteiro indicado ao Oscar de John Logan, de Gladiador e O Último Samurai (reparem no diálogo em que Hughes pede duas câmeras emprestadas ao chefão da MGM para acabar de rodar Anjos do Inferno), e o excepcional elenco, encabeçado por DiCaprio, que também recebeu uma indicação ao prêmio da Academia e venceu o Globo de Ouro pelo papel, em seu segundo trabalho com Scorsese (antes havia participado de Gangues de Nova York e posteriormente esteve em Os Infiltrados).

O ator despe-se da aura de galã e mergulha de corpo e alma na mente de um homem que encantou mulheres desejadas nos quatro cantos do planeta e que, ao mesmo tempo, era paranóico.

Quem brilha também é Cate Blanchett. Ela faturou a quinta estatueta do filme (Atriz Coadjuvante) ao viver Katharine Hepburn, interpretação que beirou a perfeição.

Completam o ótimo time de atores a linda Kate Beckinsele como Ava Gardner, Alec Baldwin, na pele do proprietário de companhia aérea Pan Am, mais Jude Law, John C. Reilly, Willem Dafoe, Alan Alda, Ian Holm e a vocalista da banda pop No Doubt, Gwen Stefani, debutando na sétima arte como Jean Harlow.

O Aviador só não é uma obra-prima porque na hora da montagem, alguns momentos-chave da vida do protagonista precisaram ser condensados para que todas as informações coubessem nas quase três horas de projeção. E há quem reclame a ausência no filme do período em que Hughes se isolou do mundo. Talvez haja uma explicação: DiCaprio e companhia simplesmente decidiram homenagear uma figura marcante na história americana, evitando mostrar sua decadência (apenas assistimos o início da mesma).

E entre tantas cenas belas, uma faz parte daquelas grandes sequencias do cinema: a queda de Hughes e seu avião. Feita com efeitos especiais, a cena mostra o talento de Scorsese em utilizar a tecnologia para criar algo extremamente real. Porém não foi dessa vez que ele conseguiu o Oscar de Direção (quem venceu no mesmo ano foi Clint Eastwood, pelo bonito Menina de Ouro, que também levou a estatueta de Melhor Filme). A tão esperada vitória só viria por Os Infiltrados, curiosamente um longa inferior a tantos outros de Scorsese.

Mas as qualidades de O Aviador são indiscutíveis e também foram reconhecidas em outras premiações. Foram três vitórias no Globo de Ouro (Filme dramático, Ator dramático, para Di Caprio, e Trilha sonora) e mais quatro no BAFTA (Filme, Atriz Coadjuvante, para Cate Blanchett, Desenho de Produção e Maquiagem).

Disponível em diferentes versões de DVD no Brasil há algum tempo, a obra agora chega também em blu-ray.

NOTA: 8,0

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