VAMOS MANTER A PRAIA LIMPA
Passando uma parca mensagem ecológica, Um Amor de Tesouro não Empolga e faz um mix de Indiana Jones e A Lagoa Azul
Por Fernando de Albuquerque

Hollywood cada vez mais tem buscado uma especialidade: fazer comédias românticas que encantam pelo bom mocismo de seus protagonistas, mas que apresentam histórias sem pé nem cabeça e um roteiro tão, mas tão xexelento que está afetando até o cochilo dos vovôs nos cinemas. Isso porque os filmes prezam mais pela necessidade de serem barulhentos que pela vocação intrínseca à sétima arte. E Um Amor de Tesouro se dedica do começo ao fim a não deixar a peteca da ação cair lançando mão de lanchas rapidíssimas, tiros de 22, socos e gritos histéricos de peruas praianas. O único problema causado por tanto esmero é a chatice e angústia que essa sinergia sonora causa no espectador.

Um Amor de Tesouro é o típico filme SOS Malibu. No visual, só roupinhas leves e uma enxurrada de bermudas de tactel com estamparia duvidosa, pele trincada pelo sol, cabelos descoloridos pelas águas do mar, bocas rachadas pela água salobra e um desfile de seios fartos, peitos de pombo, músculos aparentes e pensamentos completamente rarefeitos. Um mix de Indiana Jones (já que o personagem principal passa por todo tipo de agrura aventureira e mais parece um Highlander: nunca morre), com a pacificidade de A Lagoa Azul.

Dirigido por Andy Tenant (que já fez Hitch – O Conselheiro Amoroso) a história de Um Amor de Tesouro é bem simples e gira em torno da busca incansável ao lendário naufrágio de um galeão espanhol que sumiu do mar há mais três séculos e levava uma fortuna em jóias e ouro. Quem protagoniza essa caçada é o casal Ben Finnegan (interpretado por Matthew McConaughey, cafuçu de primeira), uma espécie de surfista obcecado cujo único talento é fazer bom sexo (boa pegada do roteirista reafirmando as esperanças femininas de achar em meio a imagens silvestres o bom selvagem bem dotado e bom de cama) e Tess Finnegan (Kate Hudson) uma pseudo-historiadora que cansou das enrolações financeiras do marido e deseja abandonar as Bahamas, voltar para Chicago e fazer um doutorado.

Quando está prestes a assinar os papéis do divórcio com Finn, Tess recebe o convite de acompanhá-lo em uma última e derradeira aventura. Ele descobriu uma pista importante que pode levá-lo ao tão sonhado tesouro. Tess passa ajudá-lo na empreitada que os leva a redescobrir o amor que os uniu. Hollywood apresenta outra vez, e com vontade mais explícita, a intenção de criar um casal queridinho, mas agora com Matthew McConaughey (Sahara) e Kate Hudson (Quase Famosos), que trabalharam juntos em Como Perder Um Homem Em 10 Dias.


Tess e Finn em uma das diversas DR do longa, em plena caça ao tesouro

No meio desse imbróglio está o multimilionário Nigel Honeycutt, interpretado por um Donald Sutherland com uma chapa tão translúcida que encandeia o olhar da platéia; sua tontíssima filha Gemma (Aléxis Dziena), que de tão magra beira a anorexia e de tão burra encarna a disfunção do próprio filme; Alfonz (Ewen Bremner) um eslavo cascateiro e pega-ninguém; Bigg Bunny (Kevin Hart) que encarna todo o estereótipo rapper com roupas claras em contraste à negritude da cor e o sotaque enrolado; além do velho lobo do mar Moe Fitch (Ray Winstone) que aparece apenas para justificar o cachê. Fora essa trupe, desfilam uma série de atores com pinta de seguranças de boate, que estampam na cara a falta de vocação artística e apresentam o gestual que mais se aproxima ao esforço de um supino com 60kg de cada lado da barra.

A tradução, depreendida do original, Fool’s Gold, bem que poderia ser “Ouro de Tolo” que remete logo ao querido e gênio Raul Seixas, mas talvez os tradutores não tiveram tal sagacidade. Em meio a essa torrente de besteiras sem tamanho é possível depreender uma forte mensagem ecológica, mesmo que essa questão passe longe da narrativa. Durante os mergulhos fica claro como é preciso manter as praias limpas, com águas claras, insípidas e livres de qualquer tipo de sujeira para os momentos de lazer. Aí vale elencar a cena em que os caçadores do tesouro da coroa espanhola, munidos de detectadores de metal, acham latas de laquê em aerosol, chaves e o que mais valha. Taí um filme para o Greenpeace patrocinar, reverenciar
e promover sessões debate.

O AMOR DE TESOURO
Andy Tennant
[Fool’s Gold, EUA, 2008]

NOTA: 2,0

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