Preenchendo a lacuna de uma publicação não-elitista na imprensa francesa, o site de notícias se sustenta com dinheiro dos leitores e deixa claro: fazer bom custa caro

Da Revista O Grito!, em Paris

Um dos sonhos de muitos jornalistas é produzir conteúdos de qualidade onde possa informar o leitor e analisar os fatos de forma independente sem a pressão de governos e anunciantes. A formula é difícil porque para manter um veículo em funcionamento as subvenções estatais e a publicidade são a base do suporte financeiro das empresas jornalísticas, uma vez que as vendas, em geral, não cobrem os gastos de manutenção. Essa equação, todavia, parece que esta sendo resolvida, pelo menos momentaneamente pelo site francês de notícias e opinião totalmente on-line MEDIAPART.fr.

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Criado em 2008 pelos jornalistas Francois Bonnet e Edwy Plenel, em 2010 ele atingiu seu equilíbrio financeiro e hoje se sustenta apenas com o dinheiro dos seus 138 mil assinantes. Praticando um jornalismo investigativo e analítico, o site conta atualmente com 45 jornalistas em tempo integral e cerca de 25 colaboradores internacionais. Sua atualização é diária, pois segundo Francois Bonnet o objetivo do veiculo é preencher a lacuna existente na imprensa francesa de uma publicação não elitista que esteja em contato direto com o leitor e vivendo as tensões do cotidiano.

Bonnet lembrou que “o projeto no início foi encarado como uma loucura porque para a maioria das pessoas a internet deve ser gratuita, mas eles quiseram mostrar que o jornalismo tem um valor e um custo e buscaram conquistar um leitorado interessado no tipo de jornalismo que o Mediapart pode oferecer”. Segundo o jornalista eles optaram por não fornecer o tipo de informação contínua que já existe no rádio, na televisão, nos jornais impressos locais e na própria internet, mas reportagens e artigos analíticos desenvolvidos pela equipe e que certamente não seriam publicados na grande imprensa francesa.

Além dos textos realizados pelos jornalistas, o Mediapart recebe matérias e artigos dos assinantes que são publicados no espaço dentro do site chamado Le Club. “A proximidade com os leitores foi fundamental no processo, procuramos reencontrar uma relação com eles estimulando os comentários e a sua participação na circulação da informação”, afirma Bonnet. Ele diz ainda que o site concentra sua ação nas investigações dos grandes casos, fazendo o leitor compreender o que esta acontecendo. O site também procura não usar de forma indiscriminada artigos opinativos. “Hoje, os melhores textos opinativos estão no Le Club e poucos tiveram que ser retirados por serem ofensivos”, garante.

A página inicial do MediaPart.

O leitor do Mediapart inicialmente tinha um perfil mais à esquerda, mas agora é bem mais diverso. É formado também por uma boa parte de leitores com idade entre 25 e 34 anos, e o número de leitores jovens esta crescendo, pois tem um preço menor para assinatura. Há descontos também para aposentados. A autonomia dos jornalistas e a qualidade do material produzido são os passaportes para a credibilidade do site. O Mediapart não segue a estrutura hierárquica das redações convencionais. O diretor de conteúdo é mais um consultor e os jornalistas mais experientes e especializados em geral dão suporte aos mais jovens.

A linha editorial do Mediapart reflete as diferentes opiniões existentes na própria equipe, mas se apóia na ideia de uma participação dinâmica da sociedade na vida política e social. Para as próximas eleições presidenciais na Franca, que desta vez apresentam um cenário bem mais complexo que em pleitos anteriores, o site vem se destacando pela abordagem isenta. Além dos artigos, o Mediapart está investindo nas ações multimídia e as transmissões em vídeo vem ganhando espaço com transmissões de debates ao vivo e vários programas e documentários. Diferente dos programas do rádio e da TV, no Mediapart os debates podem ter ate quatro horas de duração porque eles deixam os entrevistados com tempo a vontade para responderem as questões feitas.

A aposta na inovação e estar aberto ao imprevisto tem sido a receita do Mediapart. Percebe-se nos jornalistas do site – boa parte deles oriundos de grandes veículos de comunicação como o Le Monde – um entusiasmo na experiência que estão vivendo onde a valorização do jornalismo como instrumento do direito de informação do cidadão é sua base principal.

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