Crítica-Disco: Novo do Arctic Monkeys é como se hospedar por 40 minutos num hotel na Lua
NOTA8.5

No hotel do Arctic Monkeys esbarramos com hóspedes como Ziggy Stardust, Major Tom e Lô Borges. Novo disco frustra quem esperava algo mais pop e acessível do grupo (o que é ótimo)

Cinco anos se passaram desde que o Arctic Monkeys lançou seu quinto disco, AM. De lá pra cá  Alex Turner, cantor, compositor e agora também produtor, voltava a canalizar suas energias no projeto paralelo que tem com seu amigo Miles Kane, chamado The Last Shadow Puppets. Matt Helders (baterista) estava em turnê com Iggy Pop e Jamie Cook (Guitarrista) e Nick O’malley (Baixista) voavam abaixo do radar. O último álbum do TLSP Everything That You’ve Come to Expect já flertava com essa sonoridade um pouco mais fora da curva. Nele, Alex e Miles criavam um disco que parecia trilha sonora de uma película inglesa digna de um 007. Em Tranquility Base Hotel + Casino a gente sai da trama de espionagem e somos levados numa visita espacial digna de um filme de Stanley Kubrick. Inclusive, o próprio Turner, em entrevista, assumiu que a inspiração visual para o primeiro clipe desse novo momento vem dele.

Tranquility Base Hotel + Casino deixou de lado o protagonismo das guitarras gritantes e a bateria imprevisível que tanto marcou a sonoridade da banda desde o início, e promoveu o teclado, sintetizador e a performance de voz – que o Alex já vinha experimentando em faixas como “Sweet Dreams TN”, “Les Cactus” e “The Dream Synopsis”, todos do último do TLSP. É possível perceber muito de David Bowie também, seja na forma de conduzir a performance vocal ou pela temática cósmica. Ainda dentro das muitas referências desse trabalho, uma delas é do nosso brasileiro Lô Borges. “É o disco que tem o tênis na capa, não é? Não sei realmente como cheguei à música (“Aos Barões”). Talvez tenha sido algum algoritmo, ou o produtor James Ford, que sempre me mostra coisas diferentes. Mas amo o solo de guitarra fuzz no fim de ‘Aos Barões'”, disse numa entrevista.

A banda acertou muito em não lançar nenhum single porque TBHC não foi feito para ser consumido separadamente. É o tipo de experiência imersiva que precisa ser degustada numa tacada só. Assim como o álbum solo de Damon Albarn, Everyday Robots (frontman do Gorillaz e Blur), Tranquility Base tem o cuidado de emendar uma faixa na outra para dar essa sensação de continuidade e fluidez. Destaque para as faixas “Four Out of Five, que traz no seu riff marcante o que parece ser o último respiro do antigo Arctic. “Star Treatment”, “Tranquility Base Hotel + Casino” e “One point of perspective” são as músicas que mais ecoaram na minha cabeça. Sendo a última delas minha favorita, até agora.

Não acho que os garotos (agora tiozões) de Sheffield se preocupem incondicionalmente em agradar o público. Eles já não falam mais sobre garotas, pistas de dança e reebooks desgastados. A temática adolescente virou coisa do passado e agora é como se eles realmente tivessem algo a dizer. É uma visão mais pra frente, ousada e arriscada, onde entendemos a preocupação com os caminhos da nossa sociedade e a procura por um refúgio fora da terra, seja no cosmos espacial ou no cosmos do nosso interior.

THBC é como se hospedar por 40 minutos num hotel em algum lugar da lua onde, por acaso, esbarramos com hóspedes como Ziggy Stardust e Major Tom, pelos corredores. Quem esperava outro trabalho extremamente pop e comercial e se frustrou é porque não está preparado para esse novo Arctic Monkeys. Para quem já simpatizava com um som mais pretensioso como Last Shadow Puppets, Tranquility é o caminho de entrada para drogas mais fortes que ainda estão por vir.

ARCTIC MONKEYS
Tranquility Base Hotel + Casino
[Domino, 2018]
Produzido por James Ford

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