WHAT DO THEY CARE?
Nova moda masculina faz com que o homem, agora sem estar vinculado à tribos ligadas apenas em cosméticos, esteja plenamente reinventado com incorporação dos valores femininos ao vestuário prêt-à-porter
Por Fernando de Albuquerque

Desde que reergueu a Gucci, Tom Ford passou a ser o homem das camisas eternamente desabotoadas. E se para alguns ele mais se assemelha a um latin lover do terceiro milênio, o que o bonitão de quase cinquenta quer demonstrar é a imperatividade de um decote. Se antes eles eram restritos apenas às mulheres, que criaram uma série de maquinarias para elevar os peitos e opular desejo, o privilégio, agora, não é mais só delas. A gola V de cava baixa é a principal demonstração de que homem também deve usar decote. A odiosa calça skinny com elastano usada livremente pelos meninos-musicistas que insistem em exibir as penas magras também denunciam que o novo homem é para lá de exibido e já não se conforma apenas com ternos, calças retas, camisetas em gola redonda e algumas poucas peças no seu guarda-roupa.

E um bom sinal disso é a volta do Kilt que, ao lado do uísque está no pacote de primeiras referências acerca da Escócia. Nas ruas de glasgow os principais cliques dos portais de referência aludem à facilidade de encontrar jovens, especialmente adolescentes, usando o equivalente escocês do cocar. E quem confirmou ainda mais isso foi a volta de uma amiga que fez um tour pela europa e foi pega de surpresa desembarcando no norte das ilhas britânicas.

Outro ponto forte dessa reinvenção do jeito de vestir do homem está na atualização do vestuário de alfaiataria que há anos foi praticamente relegada aos ternos de trabalho e tem que brigar muito com os jeans e a malharia industrial para encontrar um lugar no guarda-roupa dos rapazes brasileiros. Desde 2008 muita gente vem observando que é preciso, de fato, reinventar o look dos homens para manter-se na crista da onda. Sinal disso são designers, como André Lima, que se dedicavam exclusivamente à roupa feminina também decidiram criar para o sexo oposto. Até mesmo grifes de streetwear – como Alexandre Herchcovitch, Osklen, V.ROM, Redley e Reserva – estão apostando na resignificação visual do homem lançando mão daquilo que estava mais que incrustado, apenas, no tradicional: a alfaiataria.

E se agora a moda masculina está mostrando um novo homem, que fica confortável com valores até então atribuídos apenas às mulheres, é a vaidade masculina que os faz esbarrar no medo de escorregar. E isso pode estar extremamente vinculada à necessidade de transgressão que foi atribuida àqueles que usavam saias, ou que levavam às passarelas modelos trajando itens que, no passado, estavam restrito apenas às mulheres.

Definições – E se uma das funções da roupa é demarcar os gêneros e diferenciar quem é macho e fêmea, a cultura e sua evolução está aí para que isto é feito de forma diferente. Se no mundo ocidental homens sempre vestem calças, em certas partes da Ásia e da África tanto homens quanto mulheres usam saia. Somente a partir do século 14 é que a roupa do homem se tornou intrinsecamente associada à masculinidade já que antes, tanto homens quanto mulheres se enrolavam em panos e túnicas e somente no século 15, a túnica do homem foi ficando mais curta e apertada, enquanto aumentava o número de homens usando meia-calça. Capas longas e casacões rodados, porém, permaneceram em moda, entre os homens até o início do século 20.

Desde os anos 60, vários estilistas de moda tentaram reintroduzir a saia como uma forma aceitável de um homem se vestir. Frequentemente pegando emprestado aqui e ali de culturas e eras diversas, alguns designers inventaram e reinventaram a saia para homem. Mas em alguns momentos, estas roupas foram adotadas pela contra-cultura, com grupos como hippies, punks e os novos românticos adotando a saia como um sinal de anarquia. Os gays também adotaram a saia como um símbolo de um estilo de vida alternativa.

Mais recentemente, a saia foi usada como uma forma de mostrar que um homem pode estar na moda. E isto pode ser feito por homens que têm poder de formadores de opinião como esportistas, estrelas pop ou artistas de cinema. Músicos como Caetano Veloso e Gilberto Gil e o jogador de futebol inglês, David Beckham – num modelito assinado por Jean-Paul Gaultier – foram notícia na imprensa por usarem saias ou sarongues.

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