QUANTO VALE (UM ROTEIRO) OU É POR QUILO?
Roteiro esquizofrênico desperdiça matéria-prima num filme marcado por polêmicas nos bastidores
Por Rafael Dias

NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA
Reinaldo Pinheiro
[Brasil, 2008]

A polêmica começou muito antes do filme chegar às telas. Mário Bortolotto, dramaturgo paranaense, escreveu em seu blog Atire no dramaturgo que discordava da adaptação da sua peça Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, sucesso de público e vencedora do prêmio Shell, feito para o cinema pelo roteirista Di Moretti. Acusava que os personagens e os diálogos foram sensivelmente descaracterizados. Houve troca de farpas, briga nos bastidores e estranhamento na massa crítica paulista. Agora que a produção acaba de estrear no Rio e em São Paulo, os maus humores voltam à tona. Novamente em seu blog, Bortolotto repudia a afirmação do jornalista Luiz Carlos Merten, do Estadão, de que ele teria se sentido “traído”. “…não me senti traído porra nenhuma….me senti foi constrangido”, retifica.

O mal-estar é mais um exemplo do complicado processo em se tentar recriar uma obra de arte mudando o seu suporte, no caso do teatro para o cinema. São problemas que envolvem questões de direito autorais e propriedade intelectual. É possível fazer uma obra com identidade própria – uma livre adaptação, como se convencionou chamar – a partir de um argumento original, sem que isso comprometa as idéias essenciais contidas nele? Quando é que se configura uma maquiagem mal-feita de um roteiro? Perguntas que parecem se resolver mesmo pelo bom senso. Mas nem sempre é o que ocorre.

Neste caso, a birra de Bortolotto tem razão de ser. Nossa Vida Não Cabe Num Opala, filme de estréia do até então curta-metragista Reinaldo Pinheiro, causa estranheza por uma certa dose de esquizofrenia no roteiro. Não há consistência tampouco ousadia em um filme classificado de “radical” pelo diretor e, em determinada crítica, de ter aura beat. Menos o conteúdo, o longa tenta vender mais uma imagem de narcisismo pop. Apesar de alguns bons momentos, a produção, que ganhou prêmios principais no Cine PE e Ceará deste ano, apresenta, no geral, uma performance irregular e forçosamente pretensiosa.

Uma pena o desperdício de uma matéria-prima tão interessante. A história, em si, tem um argumento precioso. Basicamente, trata-se da decadência de uma família de classe média paulistana que vive de marginal ofício de arrombar carros para serem levados ao desmanche. Com a morte do patriarca (Paulo César Peréio), os quatro irmãos, três homens e uma mulher, assumem uma dívida impagável deixada de herança pelo pai. Coagidos pelo gângster Gomes (Jonas Bloch), o quarteto amarga o infortúnio de estarem à margem.

Um dos problemas graves do filme é a recorrência a cenas-clihê e diálogos de efeito vazio. A intenção é supostamente criar um universo de submundo real, mas o efeito é constrangedor. O personagem de Jonas Bloch, que deveria ser um facínora calculista, torna-se um cafajeste qualquer de pouca expressividade e muitos palavrões – recurso que remete à pobreza textual das antigas chanchadas brasileiras dos anos 70. Dercy Gonçalves, em uma de suas últimas participações no cinema, faz uma senhora sem papas na língua numa pequena ponta – aparição desnecessária. Talvez o mais equilibrado (leia-se menos estereotipado) da trama seja Mock, interpretado por Leonardo Medeiros, o irmão mais velho do grupo, preso ao dilema de estar apaixonado por uma aluna bem mais nova e os descaminhos do crime. É dele a tarefa de conduzir o bando e também o que acolhe as angústia e desilusões dos demais, tão fragilizados quanto ele próprio.

Por mostrar uma família unida em torno da corrupção e do esfacelamento da inocência, o filme forja a tentativa de criar simpatia e frescor como em Rocco e seus irmãos, de Lucchino Visconti, sobre uma família que se brutaliza ao se mudar do campo para a cidade. Mas a busca fica só na intenção. Pretensiosa demais, por sinal.

NOTA: 5,5

Mais sobre o filme:
Blog de Mário Bortolotto: atirenodramaturgo.zip.net

Trailer

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