ESTÉTICA AFRICANIZADA KITSCH
Para entender o cinema feito na Nigéria
Por Isabella Valle

Os críticos de cinema e cults de plantão costumam desprezar esse tipo de produção que, claramente, é mais precária que as películas européias e americanas. Porém, as diferenças conceituais não estão tão distantes assim. Não vamos dizer que para os ocidentais os filmes de Nollywood não parecerão trash, mas eles poderiam ser vistos como kitsch. Afinal de contas, as temáticas se parecem muitas vezes com aquelas que são ditadas pela cultura de consumo norte-americana. O glamour, a máfia, gangsters, traições, ficção científica, trilogias, enredos fúteis e personagens dualistas. Há até mesmo versões “africanas” de Beyoncé e Rihanna. Muitas vezes chegam a ser autênticos melodramas. Mas num cenário altamente estranho – para não dizer brega – aos olhos ocidentais.

Os filmes refletem as mudanças sociais da região. Cultura, política, corrupção, AIDS, prostituição. Tirando as estranhas direções de arte, Nollywood se parece menos com os famosos musicais bollywoodianos que com as histórias sobrenaturais e ao choque com a modernidade de Hollywood – ou seja, mais para o Ocidente. Mesmo buscando a realidade africana, as realizações não são profundas e complexas em termos de construção narrativa, principalmente porque as filmagens são feitas em larga industrial, em apenas duas semanas, em média.

As dificuldades tecnológicas, no entanto, estão sendo superadas. O cinema nigeriano não tende à decadência técnica, por mais que as produções ainda pareçam precárias. Muitos cineastas já utilizam final cut e computadores mac, além de câmeras de alta resolução, principalmente nas produções que vão para a TV. A tecnologia 3G já chegou por lá, apesar de internet banda larga ainda ser bem rara. A quantidade de público que Nollywood vem alcançando, a concorrência e as ambições comerciais exigem desenvolvimento constante.


Produções ainda precárias, o cinema nigeriano já vislumbra sofisticação audiovisual

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BoBTV, o Oscar nigeriano
Os títulos que fazem mais sucesso chegam a vender 200 mil cópias. Living in Bondage, de 1992, é um marco na produção nigeriana. O filme, cujo enredo versa sobre um pacto feito por um homem com o diabo para enriquecer, foi produzido por Kenneth Knebue para ampliar o número de venda das fitas VHS que comercializava. Ele fez o filme por conta própria e vendeu mais de 750 mil cópias. O filme virou moda e era comentado em todos os lugares da Nigéria, abrindo espaço para a produção cinematográfica em larga escala.

Atualmente, basta um filme passar na televisão que todo mundo vai correndo comprar uma cópia. Osuofia in London, de 2003, foi o título mais vendido de Nollywood, com mais de 800 mil cópias. O dinheiro arrecadado pelo diretor Kingsley Ogoro com essa comédia foi essencial pra financiar seu último longa, Across The Niger, sobre os conflitos de raça no país.

Assim como seus blockbusters, Nollywood possui também o seu Oscar. O grande evento do audiovisual nigeriano é o Best of Best Television Programmes Market, o BoBTV, que acontece em março e sempre é realizado em Abuja, atual capital nigeriana. O encontro reúne celebridades do cinema local, políticos, empresários e é transmitido em rede nacional. As principais estrelas – o star system nollywoodiano é fortíssimo e os atores, muito importantes industrialmente – são provenientes das telenovelas, mas muitos intérpretes são iniciantes.

A web ajuda a propagar a fama da Nigéria. Na internet, Bollywood bomba! Há um verdadeiro mercado alternativo de filmes nigerianos. No youtube, lista-se mais de 3200 vídeos sob a tag nollywood. E há também sites autorizados para a venda dessas produções. O Pay Less 4 Movies e o Nollywood Titles comercializam os últimos lançamentos, além dos clássicos mais famosos.

Até documentários sobre o fenômeno nigeriano já foram produzidos. Os diretores Franco Sacchi e Robert Caputo realizaram This is Nollywood e Jamie Meltzer fez o Welcome to Nollywood. Cannes, Berlim, Nova Iorque e Toronto já prestigiaram realizadores nigerianos em seus festivais.

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