NOLLYWOOD, BOLLYWOOD, MOÇAMBIQUE E CONCEIÇÃO: A GENTE PODE SE VER POR AÍ
Por Ivan Moraes Filho*

Rafael Dias, editor de O Grito!, foi quem ligou pra mim. Dizia que estavam preparando uma reportagem especial sobre Nollywood, a ‘indústria’ cinematográfica da Nigéria, que havia ultrapassado Bollywood (Índia) no número de produções por ano. Pra quem não sabe (imagino que pelo menos umas duas ou três pessoas), ambas fazem mais filmes do que Hollywood.

O curioso é eu tinha acabado de assistir Um Grito de Liberdade. No filme (britânico), Denzel Washington é Steven Biko introduzindo o jornalista Donald Woods (Kevin Kline) aos reais problemas da maioria negra sul-africana nos tempos do apartheid. A história é verdadeira e uma das partes mais interessantes é quando Biko fala das perspectivas das crianças negras. Mal parafraseando, o cara falava dos problemas da pouca representação, da angústia causada por não se compreender igual, de não identificar seus heróis, suas conquistas, sua cultura.

“Os meninos ouvem tanto que são inferiores que acabam acreditando”. Era mais ou menos isso que Biko dizia, na vida real, antes de ser assassinado. Isso era na década de 70. É difícil pensar em desenvolvimento, em respeito, em cidadania, em liberdade, quando a maior parte da população continua pensando ser inferior à minoria porque se trabalha, se veste e fala diferente.

Em 2003, eu vivi em Moçambique. Lá a gente tinha basicamente quatro canais de tevê. Um local, público. Outro era o Miramar, da Rede Record brasileira. Outro, sul-africano. Finalmente, o RTP-África, português. Em quase todos, faziam sucesso novelas brasileiras, novas ou velhas. Quando passou O Clone, choveu menina em Maputo (capital de Moçambique) usando roupas de origem árabe. Detalhe: os árabes chegaram ao país antes dos portugueses, mas recentemente as meninas só queriam saber de calça jeans. Saris, lenços e outros adereços, digamos, voltaram à moda depois que a indústria cultural brasileira disse que tava valendo.

Nollywood, Bollywood, Moçambique… Não tem como pensar no Brasil, no Nordeste. Na facilidade que a gente tem de saber quem é quem na alta roda do mercado da moda. A gente acompanha o Oscar, a gente sabe que Indiana Jones voltou à tona e que as mulheres bonitas do mundo são Sharon Stone, Angelina Jolie, Paris Hilton, essas daí e outras loiras realmente deslumbrantes.

Aqui não dá?

Tenho acompanhado, na militância pelo direito à comunicação, um grande crescimento na produção de material audiovisual no Brasil. Cada vez mais se multiplicam os grupos que, com ou sem câmeras na mão, têm idéias na cabeça e conseguem meios de colocá-las em prática. Seja no quilombo de Conceição das Crioulas, no sertão pernambucano, seja na comunidade de Heliópolis, em São Paulo. Cresce a consciência de que, para se viver plenamente, o sentimento de existência, de representação trazido pelos meios de comunicação – inclusive cinema – é fundamental.

Temos nossos impedimentos? Temos, sim. Pouca política pública de cultura e comunicação (apesar dos valentes Pontos de Cultura e alguns fundos públicos), pouco acesso aos meios de comunicação de massa, com rádio e tevê. Mas criatividade não falta. Que o diga figuras como Ednaldo Pereira que, do interior da Paraíba, joga seus clipes no YouTube e já foi visto por muito mais gente do que caberia em sua cidade.

Nem todo mundo acessa a Internet, eu sei. Mas muita gente já se acostumou a comprar os sucessos do cinema no vendedor de DVD genérico, pagando até quatro vezes menos que uma entrada de Multiplex. A turma gosta de filme, sim. A galera está satisfeita com o que exibe a indústria cultural brasileira? Nem sempre. Prova disso é que o Ibope acusa uma queda na audiência de TV nos últimos anos. Essa queda é medida em poucos minutos, mas num meio em que 15 segundos de horário nobre chegam a custar um apartamento, alguma coisa isso quer dizer.

Será que seu Zé, que comprou Tropa de Elite no Mercado da Encruzilhada, não compraria um filme de ação que se passasse no seu Santo Amaro querido? E Dona Maria, que chora com história de amor, não compraria o romance entre Severino e Evelin, todo filmado na praia do Pina? Tá aí Simião Martiniano que não me deixa mentir. Diretor de ‘películas’ de aventura e bangue bangue, o realizador gravava em VHS e distribuía seus filmes no Camelódromo do Recife – até onde eu sei, continua lá.

O que nos falta? Políticas públicas que possam financiar a produção local certamente são importantes. Afinal de contas, não dá mais pra encarar produções como E Se Fosse Você?, tomando o nosso dinheirinho da lei Rouanet pra imitar Roliúde. Com o real que se gasta numa produção dessas, fazem-se oito ou mais bons filmes independentes.

Mas talvez falte um pouco daquela ousadia, daquela certeza de que se pode fazer coisa boa, mesmo com pouca grana. Aquela abençoada cara-de-pau com que Martiniano fala dos seus épicos, aquele empreendedorismo mágico que faz o salário mínimo render um mês inteiro – já contando com o dinheiro da cachaça de sexta-feira. E não venha me falar de qualidade que isso aí rende um livro. Mas antes disso assista qualquer comédia romântica americana que estiver estreando num cinema perto de você. Dá pra fazer melhor, não dá?

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* Ivan Moraes Filho é jornalista, integrante do Centro de Cultura Luiz Freire e conselheiro do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). Recentemente abriu o blog pessoal.
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