MISTER CAVE
Novo disco do australiano Nick Cave retoma personagens cheios de culpa, cinismo e mal-humor
Por Fernando de Albuquerque

Nick Cave é artista consagrado. Quase tudo já foi dito ao seu respeito e dentro dessa amálgama de declarações e metáforas já publicadas, suas composições, hoje, são muito mais um mantra a ser entoado pelos fãs do que música propriamente dita. É sobre essa pecha que Nick Cave and The Bad Seeds, banda que o acompanha há duas décadas, lança o 14º álbum intitulado Dig!!! Lazarus Dig!!!, através do selo Mute Records.

O trabalho repete a parceria de Cave com o produtor Nick Launay, com quem eles trabalharam no álbum mais recente, Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus, disco duplo lançado em 2004, e a arte do encarte (por que todas as minúcias do CD merecem ser detalhadas) está ao cargo dos artistas Tim Noble e Sue Webster.

A narratividade do disco parte de um antigo fascínio do artista pela figura bíblica de Lázaro readaptando-o ao contexto Nova Iorquino de hoje e ao mesmo tempo refletindo sobre o próprio ceticismo da personagem. No disco ele volta à sua forma monotemática de contar histórias como se fosse um policial cínico e mafioso com o braço recostado à sua viatura, empostando um cigarro com a mão direita. E nessa mis-én-scene, o australiano Cave (que já morou em São Paulo na década de 1980) mais uma vez levanta a bandeira do sexo, da culpa e da religião como principais nortes de cada compilação. São vários personagens estranhos, escuros e muitas vezes surrealistas que são montados ao longo do disco.

O Bad Seeds é uma banda pomposa, com sonoridade inclinada para o gospel e mesmo baladas pesadas, bem diferente de seu último projeto, o Grinderman. E Dig!!! Lazarus, Dig!!! lança mão dessa sofisticação em uma sonoridade (contraditoriamente!) baseada em guitarras sujas com sua tradicional culpa cristã. E aí cabe sua sempre presente influência pós-punk, marca deixada pela Birthday Party, banda que montou nos anos 1970, só que hoje muito mais lapidado, com muito menos heroína (afinal todo mundo envelhece) e pronto para sempre angariar fãs.

Ele continua mal-humorado, culpado, mal agradecido e frustrado. Tudo representado por um rock pesado, burro e gestado em bares de quinta categoria que relembra os clássicos dos Stooges. São onze faixas, todas de longa duração, e na primeira, com nome homônimo ao CD, é um nítido regresso aos dias vividos entre From Her To Eternity (1984) e Henry’s Dream (1992). Numa espécie de escavação ao clássico The Velvet Underground & Nico.

Nick Cave (Foto: Ste​ve Gul​lic​k)
De novo com bigode, Nick Cave continua enveredando por um rock pesado, burro e gestado em bares de quinta categoria

E cavar parece ser mesmo necessário para compreender todos os meandros de Dig!!! Lazarus, Dig!!! que se mostra completamente diferente à cada audição. Tal como outros clássicos de sua carreira e outras notáveis obras como Let Love In (1994) e Murder Ballads (1996). Quanto à imagem, vídeos e clips, o sarcasmo parece ter aumentado em Nick Cave, que ressuscita o bigode. E é possível descobri-los sem muita arqueologia no YouTube ou numa loja da AkiDiscos.

Uma dica: se você está prestes a se matar não ouça, por exemplo, “Jesus Of The Moon” ou “Midnight Man”. Além das guitarras extremamente soturnas e sem concessões , o ritmo mais lembra um filme de Tim Burton e a voz do cantor mais se assemelha à de um algoz prestes a decepar, recheado de muita culpa, a cabeça de outrem. É pro sujeito pular varanda abaixo.

NICK CAVE AND THE BAD SEEDS
Dig!!! Lazarus Dig!!!
[Mute, 2008]

NOTA: 8,5

Nick Cave and The Bad Seeds – Dig, Lazarus Dig!!!

Nick Cave and The Bad Seeds – Least, I Shiver

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