Neil Gaiman (Foto: Divulgação)

Gaiman na Flip deste ano (Foto: Divulgação)

AS LETRAS DE GAIMAN
Inegável talento e um jeito charmoso, fazem de Neil Gaiman uma grife de luxo no entretenimento mundial
Germano Rabello, especial para O Grito!

Hoje em dia, e já há algum tempo, Neil Gaiman parece se espalhar seus tentáculos de polvo por quase todas as áreas da arte. Tendo criado fama mundial como roteirista de quadrinhos, ele foi se infiltrando e deixando sua marca também como roteirista de cinema e televisão, escritor de prosa e poesia, compositor, diretor, etc.

Ao contrário do recluso Alan Moore, que é provavelmente seu grande modelo enquanto roteirista de quadrinhos, Gaiman é extremamente maleável e aceita com aparente facilidade a responsa de ser um ídolo pop. A paciência com que trata seus fãs é tanta que ele já chegou a dar 12.000 autógrafos durante uma única noite: aconteceu no Brasil, com uma ameaça implícita de que os fãs quebrariam o lugar (a Fnac, em São Paulo) se ele não os atendesse. E mesmo depois de uma experiência tão estressante que o deixou esgotado e sem voz, tudo que ele solta são frases do tipo “Os brasileiros são muito calorosos”. Esse tipo de cavalheirismo britânico, característico de sua personalidade, somado a um inegável talento e um jeito charmoso, fazem de Neil Gaiman o cliente ideal de qualquer marketeiro.

Apesar de toda a fama alcançada, quando Gaiman começou ele era gente como a gente, ou pelo menos como eu, um reles jornalista. Nessa atividade, se especializou sobretudo na crítica cultural. Chegou a escrever um livro sobre o Duran Duran, uma biografia da banda, na época (1984) em que eles ainda eram uma sensação. Um pouco depois, começou a causar sensação nos quadrinhos através da parceria com Dave McKean em obras como Violent Cases e Orquídea Negra – esta última marcou o início de seu estrelato junto ao público americano, via DC Comics.

Uma vez dentro desse meio, Gaiman roteirizou as obras que estabeleceram definitivamente sua fama. Sobretudo a mitologia pós-moderna da série Sandman. Junto com o reinado de Morpheus, o autor também meio que reinava absoluto nos quadrinhos por um bom tempo… Apesar de continuar se aventurando por outras artes. Realizou em 1996 o roteiro da série Neverwhere, produzida pela BBC. Mais tarde adaptou essa obra para um formato literário. Em 1997, lançou com McKean um livro infantil, The Day I Swapped my Dad for Two Goldfish.

Na verdade, poder-se ia dizer que ao encerrar a série Sandman, na edição 75 (1996), encerrou-se também uma etapa na carreira de Gaiman. O fim deste ciclo de histórias pode ser conferido no último volume de Sandman que sai este mês pela Conrad, Despertar. Todo o elenco de personagens usado por Gaiman reaparece para prestar homenagens ao Sonho. O encadernado abriga ainda dois contos auto-suficientes e interessantíssimos, “Exiles” com arte de Jon J. Muth e “The Tempest” com arte de Charles Vess. Essa última HQ retoma a parceria com Charles Vess, da premiada “Sonhos de uma noite de verão”, reafirmando a fascinação de Gaiman pela obra de Shakespeare. Como a anterior, não se trata de uma adaptação, mas de uma ficção livremente baseada na vida do escritor, imaginando um pacto entre ele e Morpheus.

Assim como os quadrinhos, autor inglês tem importantes romances publicados no Brasil

Desde então, a menina dos olhos do britânico é a literatura. Nas obras que escreveu, tais como Deuses Americanos, Stardust, Os filhos de Anansi e o recente Coisas Frágeis, lançado também pela Conrad, o talento e a imaginação deste escritor podem ser conferidos. Seu senso de humor e lirismo são características recorrentes, bem como o seu apego pela literatura de fantasia clássica, seu gosto por brincar com os gêneros.

Suas investidas na literatura infantil são igualmente bem sucedidas. Em parceria com Dave McKean, Os Lobos Atrás das Paredes é um livro infantil engraçadíssimo com uma premissa absurda, bem ao gosto de Gaiman, tem um formato meio HQ. Coraline, também com ilustrações de McKean, mas num formato de prosa mais convencional, oferece um mundo fascinante e amendrontador. Já foi lançado também como graphic novel (adaptado pelo mestre P. Craig Russel), e vai virar filme. Gaiman e McKean mantém a cumplicidade e o tom sobrenatural em The Graveyard Book, que deve ser lançado em setembro deste ano.

Também com a adaptação de seus livros e quadrinhos para o cinema, ou de seus livros para os quadrinhos, enfim com tanta migração de mídia em torno do que ele faz, Gaiman se converteu numa grife de luxo do entrenimento, o que no geral é positivo tanto para o consumidor como para o artista, as editoras e estúdios. Seus livros, quadrinhos, filmes, tem um público consumidor ávido. E apesar de um ou outro lançamento ser decepcionante, como a adaptação que o desenhista Michael Zulli fez de seus contos em Criaturas da Noite, o alto padrão de qualidade continua mantendo o interesse das pessoas.

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