Um samba incoerente e instigante

WADO
Samba 808
[Independente, 2011]

“Você prefere ter razão ou ser feliz”, pergunta Wado na música que abre seu novo disco, Samba 808, lançado de forma independente na internet, para download gratuito. O álbum leva essa proposta de ser incoerente como uma de suas maiores dádivas. O músico alagoano é um dos que renovam o samba, colocando o gênero na berlinda e dando novas direções, mesmo que para isso seja preciso fazer algumas incoerências. É a mesma escola de Rômulo Fróes, com suas letras nonsense e melodias tristes. Wado colocou nesse seu novo trabalho a famosa bateria TR-808, dando ao seu trabalho uma improvável mistura eletrônica, sem que isso fique em primeiro plano. Da aproximação com o funk, ele trouxe a releitura da podreira “Elas Estão Descontroladas” em “Não Para Não”. A inovação proposta por Wado tem ainda MPB, auto-tune (em “Jornada”, com Fábio Góes) e pop, muito pop. Ainda pouco reconhecido no Brasil, o cantor mostrou que apesar da falta de interesse de gravadoras e da distopia mercadológica que o fez seguir o modelo totalmente independente, ele tornou-se um dos nomes mais importantes na música brasileira. Inventivo, Samba 808 ainda apresenta novas parcerias de Wado, como Marcelo Camello com Mallu Magalhães, Fernando Anitelli, Zeca Baleiro, André Abujamra, além de Curumin, na ótima “Esqueleto”. Um disco para mostrar novos caminhos, enfim. [Paulo Floro e Fernando de Albuquerque]

NOTA: 9,5


M83
Hurry Up, We’re Dreaming
[Mute, 2011]

Formado pelo francês Anthony Gonzalez, o M83 conseguiu adentrar a esfera de relevância na profusão de discos que utilizam da estética chill, com melodia onírica e com referências ao que costumávamos chamar de shoegaze no passado. Mais eletrônico, este Hurry Up, We’re Dreaming é o trabalho mais interessante de Gonzalez que conseguiu criar uma trilha sonora sobre sonhos um tanto pretensiosa, mas convincente. São mais de uma hora e meia de melodias grandiloquentes, cheias de profundidade. Duplo, o músico comparou o trabalho Mellan Collie and The Infinite Sadness, dos Smashing Pumpkins. Não chega a tanto, mas podemos tirar bons momentos daqui, como o hit “Midnight City”, com o melhor vocal esganiçado desse ano (falando sério) e “Echoes Of Mine”. Depois de um trabalho igualmente impressionante em 2008, como Saturdays=Youth, podemos dizer que enquanto muitos enveredam pelo dream pop, o M83 tem autoridade no assunto. [Paulo Floro]

NOTA: 8,0



KATE BUSH
50 Words for Snow
[Epitaph, 2011]

Algumas vezes precisamos de tempo para apreciar uma obra de arte, seja ela qual seja, um filme, um disco, uma HQ. Assim é 50 Words For Snow, novo trabalho de Kate Bush, que tem apenas 7 músicas, mas todas com mais de 10 minutos. Artistas bissexta, Bush não quer mesmo saber de pressa. Seu último álbum de estúdio foi lá em 2005, Aerial. Antes, lançou Red Shoes em 1993. Todo esse tempo entre um lançamento e outro não diminiu sua presença no imaginário pop da Inglaterra. 50 Words For Snow é um disco irrepreensível. Usando diversos instrumentos, orquestração, sem falar na sua inconfundível voz, ela conseguiu criar um trabalho que requer imersão por parte do ouvinte. Pra quem demora tanto a lançar novidades, Bush não está mesmo interessada na agenda de paradas de sucesso, turnês e indústria do hype, da qual dependem bandas, revistas e blogs no mundo todo. [Paulo Floro]

NOTA: 8,0



DRAKE
Take Care
[Cash Money Recordings, 2011]

Desde que tornou-se conhecido além do Canadá, em 2010 com seu trabalho de maior sucesso até agora, Thank Me Later, o rapper Drake mostrou que tem um repertório mais rico que muitos colegas de profissão. Este novo disco, ainda que não tenha nenhum hit como “Over”, aumenta suas influências, indo namorar com gêneros como música eletrônica, R&B e rock. E as colaborações também mostram como sua moral anda alta no mercado. A melhor de todas traz The Weeknd, conterrâneo e atual hype no R&B/rap em “Crew Love”. Outra que retorna é Rihanna, antiga colega de Drake e uma das responsáveis pelo seu sucesso depois que o chamou para cantar em um de seus hits ano passado. A lista segue com Lil Wayne, Andre 3000 e Nicki Minaj. As composições mostram que o rapper voltou ainda mais confessional, e mais uma vez, passando longe dos clichês temáticos do gênero. Em alguns momentos, chega a ser até depressivo, desesperançoso. Bem longe da auto-suficiência e egolatria que costumamos ouvir no Hip Hop. Num ano irregular para o Hip Hop, Drake é de longe, o maior destaque. [Paulo Floro]

NOTA: 8,5

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