Festival mineiro destacou "urgência de construir um futuro" para o cinema e celebrou talento de Grace Passô

Tiradentes (MG)

A 22ª , que se iniciou no último dia 18 e segue até o dia 26, traz uma seleção de 108 filmes, distribuídos em 10 seções segmentadas dentro da programação: Foco, Panorama, Corpos Adiante, Formação, Jovem, Regional, Praça, Valores, Foco Minas e Mostrinha (filmes infanto-juvenis).

O tema principal, Corpos Adiante, traduz os conteúdos dessa produção recente que oscila entre a melancolia, o desencanto com o coletivo, a impossibilidade de realização pessoal diante da realidade. A arte, o processo criativo e a erotização dos corpos em cena surgem então como um caminho possível para a afirmação da identidade e do fazer-artístico. Na abertura, o organizador curatorial da mostra, Cleber Eduardo, citou ainda a frase da grande homenageada deste ano, a atriz, performer e dramaturga mineira , ao mencionar a “urgência de construir um futuro agora” diante da crise política e ideológica causada pela ascensão das forças conservadoras que ameaçam a cultura e a produção artística no país.

A mostra tem apoio do Governo do Estado de Minas, agora sob o governo de Romeu Zema, pelo Partido Novo, e do Ministério da Cidadania, que passa a ocupar as funções do extinto Ministério da Cultura.

O curador Victor Guimarães resumiu o evento deste ano mencionando o que ele considera as maiores tendências destra mostra: o horror, subgênero que em versão nacional é investido por vezes de mensagens sociais, os dramas românticos e o crescimento do pornô-erótico na produção.

Destaque na programação para o longa cearense Inferninho, resultado do encontro entre o coletivo Alumbramento Filmes, Grupo Bagaceira de Teatro e Marrevolto Filmes, dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, e os filmes-ensaio Ilha, de Ary Rosa e Glenda Nicásio, e Tragam-me a Cabeça de Carmen M., dirigida por Felipe Bragança e pela atriz portuguesa, também protagonista, Catarina Wallenstein. Para Camila Vieira, também da curadoria de curtas, ao lado de Tatiana Vieira, o realismo é de certa forma instrumentalizado para converter-se em artifício que permite lidar com esse novo contexto social, e que surge representado como fragmentação.

O pernambucano , de Jean Santos. (Divulgação)

Erotismo, Romance e Horror fantástico

A presença crescente da erotização dos longas é uma mescla desses imaginário que ainda não chegam a ser distópicos. Para a curadora Lila Foster, há ainda o amor nos moldes românticos, e a frustração e dor pela não consumação da fantasia. Um exemplo é o filme Ilha, de Ary Rosa e de Glenda Nicásio, descrito como drama familiar, envolvendo incesto, em paralelo com a história de amor de forte conteúdo erótico que envolve os dois protagonistas masculinos. O longa adota uma narrativa bastante experimental e é claramente um filme-ensaio, e a hibridação de gêneros por vezes compromete o seu resultado, mas permite explorar a subjetividade como única forma de reafirmação do cinema como arte.

Seus ossos e seus Olhos, de Caetano Gotardo, cineasta que adora trabalhar com a hibridez de gêneros, propõe a abertura das relações amorosas. A Rosa azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, aborda memórias familiares e a importância da afirmação do desejo por meio do personagem que acredita ser a reencarnação do poeta Novalis, que busca incessantemente a sua utopia, uma rosa azul . Super Pina: Gostoso é quando a gente faz é um ode ao amor carnal, caracterizado na trama como o “Amor Primo” e sua locação é um bairro familiar à cena gay de Recife. Calypso, de Rodrigo Lima e Lucas Parente usa parcialmente a história mítica de Ulisses para falar da consumação do desejo sob uma perspectiva poética, além de incorporar trechos de filme sobre a bailarina naturista Luz del Fuego.

Para Pedro Maciel Guimarães, da curadoria de curtas, o corpo humano em seu processo de individuação ou mesmo na relação com coletivo não dá mais conta do que estamos vivendo. Essa melancolia está presente em obras como Lua Maldita, de Felipe Santo. O clima de euforia dá lugar ao excesso, ao vazio. Se num passado muito recente, essas realizações de curta-metragistas se erigiam quase como que artefatos de coletivos, numa espécie de fraternidade artística, com autores-realizadores, performances, na atualidade o que se vê é uma guinada rumo ao trabalho com atores profissionais, caso de Tea for two, de Julia Katharine.

O fantástico possui forte influência nos curtas. O corpo evocando conflitos entre o vivido e os padrões afetivos existentes. Temporada, de André Novais de Oliveira, e Vaga carne, em estreia mundial, trazem Grace Passô, que brindou o público com a performance inédita Grãos da Imagem ao lado do músico Barulhista.

Tiradentes discutiu estratégias de se fazer cinema dado o contexto político de hoje. (Foto Jackson Romanelli/Universo Produção/Divulgação).

Combater a invisibilidade

Dos 806 filmes inscritos, 181 tinham pretos na direção, e 66 mulheres. Dos 78 longas selecionados, apenas 22 são pretos. A maioria dos cineastas não veio de uma formação acadêmica, mas frequentou cursos de cinema fora do circuito tradicional, o que não chega a ser surpresa num país que só a partir da virada do milênio abriu cursos de audiovisual e cinema nas universidades e que não tem políticas públicas para vincular essas escolas à produção, como ocorre na Alemanha, nos Estados Unidos.

Apenas duas produções abordaram de forma mais autoral o universo trans: Jéssica e Preciso dizer que te amo, exibidos no Cine-Praça. As declarações de etnia foram adotadas pelo festival em função de deficiências apontadas por estudos recentes, como o Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa), que fez análise sobre a produção nacional a partir de levantamento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), e constatou que não há dados suficientes para apurar essa questão. Na verdade, não existe obrigatoriedade em declarar etnia. Dos inscritos deste ano. 25% preferiu não inserir o dado. Apenas 12 longas são de diretores declarados negros, menos de 7% do total.

O experimentalismo na maioria das obras, entretanto, não chega a se constituir como algo novo, estruturado. Para o filósofo francês Baudrillard, quando o real já não é o que era, a nostalgia assume todo o seu sentido, e conceitos como simulação e simulacro servem para experienciar uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real.

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