So Close
Novo disco de Morrissey reflete uma mudança na história do cantor inglês como não se via desde os Smiths.
por Paulo Floro

Morrissey é um produto muito valioso para o pop. E na prateleira, hoje disponível a todos, está escrito “o maior inglês vivo”, “pai dos desesperados” e afins. É ex-líder dos Smiths, uma das maiores bandas britânicas de todos os tempos, tão influentes quanto os Beatles. Morrissey sempre é notícia. À menor flatulência do cantor toda a imprensa estará a postos. E aqui está Stephen Patrick Morrissey novamente dando as caras ao mundo.

Mas este não o Morrissey de antes.

Após o fim dos Smiths, Morrissey lançou vários discos que não faziam jus ao legado que deixou para o pop junto com sua antiga banda. Os álbuns solos de Morrissey ao serem colocados junto à clássicos como The Queen Is Dead e Meat Is Murder eram muito ruins. Em 2003, após sete anos de reclusão lança You Are The Quarry, um disco que tentava recuperar o vigor dos tempos dos Smiths. Sem Johnny Marr, que muitas vezes produzia os álbuns, Morrissey parecia perdido ou fraco. You Are The Quarry foi primeiro lugar em muitas listas de melhores do ano, e realmente é um disco excelente, com Morrissey explorando suas angústias em pérolas pop, como já é de costume. O disco nos fez esquecer o ostracismo por que passou Morrissey no fim dos 80 e início dos 90 e por porcarias como o Bona Drag (1992).

Conhecido por suas letras ambíguas e sofridas, Morrissey é o porta voz do ser incompreendido, desconexo, excluído, que passa a vida ressentido em seus quartos. Com suas canções, o cantor inglês mostra quanto o mundo é injusto e sujo. E isso, pra muitos de seus fãs ardorosos é uma delícia, genialidade ao abordar este lado miserável de nossas vidas miseráveis.

Quando retornou de um auto-exílio com o You Are The Quarry, arriscou até mesmo um certo rancor político. Morando em Los Angeles na época, não se fazia de rogado ao usar seu cinismo característico para cutucar a política inglesa. Apesar de suas letras altamente subjetivas, confessionais, confusas, Morrissey sempre possuiu um lado político intrínseco, a começar pelo fato de não comer carne de nenhum tipo. No início deste ano pegou uma briga com seus fãs canadenses, ao afirmar que não poria os pés no país por causa da matança de focas que ocorre todo ano. Em represália, fãs canadenses ameaçaram boicotar o novo disco do cantor quando for lançado por lá. Outra imagem que angariou pra si, de ser desbocado, abusado, também já lhe causou problemas. No fim de março, falou mal do maior fenômeno do rock este ano, o Arctic Monkeys. Depois de receber críticas de uma parte da imprensa e até de Noel Gallagher, Morrissey, baixou a crista e se explicou, dizendo que tudo não passava de um mal entendido. Fora as rusgas que têm com seus antigos companheiros de banda. Morrissey chegou a afirmar que preferiria comer os próprios testículos à retornar com os Smiths.

Morrissey
Paixão e iluminação

Ringleader of Tormentors, o novo disco de Morrissey catalisa uma nova fase na vida do cantor, que pasmem, está feliz e apaixonado. Pode-se dizer que este é a mais significativa mudança do cantor desde o fim dos Smiths.Morando atualmente na Itália, Morrissey passou à uma fase táctil e factível de sua vida. Em suas letras, acabaram aquelas confusas passagens subjetivas e cheias de duplo sentido. Morrissey sempre se escondeu atrás de pronomes comuns aos dois gêneros. Neste novo disco a palavra “ele” é bem explícita e mostra uma maior segurança do cantor em enfrentar a realidade que apesar das mudanças, ainda é triste e desgraçada.

Neste disco, o cantor que se dizia celibato e que nunca havia namorado, não teme mais se declarar homossexual, se bem que ninguém tinha dúvida de que fosse gay. Há letras no disco que nos levam a crer que o mundo é algo melhor do que um chiqueiro. Sempre distante e esquivo, sobretudo nas poucas entrevistas que concede à imprensa, em Ringleader… Morrissey faz um guia pessoal em busca de uma iluminação e também de felicidade. Ainda há o cinismo, a ironia, mas um pouco do ressentimento vai ficando bem longe. Em “To Me You Are A Work of Art”, Morrissey canta para um cara “para mim, você é uma obra de arte/ e te entrego meu coração, se é que tenho um.” Temos um cantor revisionista de si mesmo na auto-explicativa “I´ll Never Be Anybody Hero Now”, onde diz que nunca quis ser herói de ninguém, com todas as implicações, boas e ruins que isso pode ter. Mas as torturas ainda continuam, apesar da aparente iluminação do cantor como em “Life is a Pigsty” (A Vida é um Chiqueiro).

Segundo Morrissey morar em Roma o levou a enxergar a vida de maneira mais “próxima”. Também afirmou que na Itália há uma atmosfera romântica e sensual. Este mesmo Morrissey afirmou na edição de abril da revista inglesa Mojo que “sim, estou apaixonado”. Isto era impensável para o Morrissey de alguns anos atrás. Disse ainda que castidade é coisa do passado, apesar de nunca ter tido um relacionamento sério com ninguém. Os tempos de reclusão em Los Angeles, quando usava pronomes comuns aos dois sexos para escrever sobre suas lamúrias ficaram pra trás. As transformações são até recentes, por isso muitas comparações são feitas com o You Are The Quarry (2003). Naquele disco, Morrissey segura uma arma, neste novo álbum, um violino. Talvez a imagem do artista recluso, onanista e distante que é Morrissey não se extingua tão cedo, mas com Ringleader of Tormentors, ele está bem mais perto.

MORRISSEY
Ringleader of Tormentors
[Attack, 2006]

Fãs de Morrissey não lêem resenhas. Não se importam com nada com que é dito sobre ele, a não ser causos de sua vida particular. Para eles, as obras do artista refletem um estado de espírito bruto, carregado de emoção e portanto, legítimas. Toda a emoção e sinceridade legitimam a arte. Então, diferente das letras e de representar uma fase de transição na vida de Morrissey, Ringleader não possuí nada muito diferente do melhor trabalho do cantor inglês até agora, o You Are The Quarry. Este novo disco foi produzido por Tony Visconti, que já trabalhou com David Bowie em seus melhores álbuns. Também possuí arranjos de Ennio Morricone, compositor de trilhas como Ata-me. Pra completar há os violinos e corais, que gravado na Itália tentam refletir o espírito de Roma, que Morrissey anda aproveitando bem. Musicalmente, Ringleader é fraco, por vezes sucumbindo às lamúrias de um Roy Orbison, ou então se entregando à pieguices como a faixa “Dear God Please Help Me”.

E lembrar que Morrissey tinha perdoado Jesus no disco anterior na sarcástica “I Have Forgiven Jesus”. Agora ele pede desculpas. No formato das músicas, ainda se percebe a mesma tentativa de repetir o que já se fez. “You Have To Kill Me”, é idêntica, até no andamento à “Irish Blood, English Heart”, do disco anterior. A roqueira e dançante “The Youngest Was The Most Loved”, promete animar festas de indies tristinhos por muito tempo. “Father Who Most Be Killed” é linda, a melhor do disco; traz o Morrissey no máximo de si mesmo. A atual mudança de Morrissey está sendo bem aproveitada pelos fãs, mas talvez não tenha acompanhado uma mudança musical. Mas questiona-se se alguém queira que mude. Este Ringleader é notadamente um disco de transição. Estamos esperando pelos clássicos em breve.

NOTA:: 7,5

Sem mais artigos