UM BECKETT QUE RENASCE
Relançado pela editora Globo, Molloy comprova a força literária de um autor cujo sucesso vem do excesso e da economia de palavras
Por Fernando de Albuquerque

Reeditado pela Globo, Molloy, de Samuel Beckett, agora conta com recheado prefácio da tradutora Ana Helena Souza, cronologia da vida do autor e completa bibliografia de sua vasta obra. Ele, ao lado de Kafka, é um dos grandes tradutores do mundo contemporâneo. O segundo era um fabulista que mostrou a real condição de pesadelo humano. Já Beckett viveu num escuro muito mais forte que o do próprio quarto, tal como Samsa. Sentiu de perto a longa primeira Guerra e viveria uma noite mais sombria ainda durante a segunda Guerra da qual participou ao lado da resistência francesa durante o governo de Vichy.

Em Molloy o leitor penetra funda nas densas camadas do pensamento de seu protagonista homônimo. Um sujeito que, agora, ocupa o quatro da mãe, localizado em parte alguma de uma vida supostamente real. E isso talvez seja o que mais decepciona os leitores mais convencionais. Em Beckett não existe uma narrativa convencional, com personagem, enredo e trama bem consolidados. Pelo contrário, a percepção é de que algo está sendo ruminado de forma lenta, passiva e, aparentemente, é difícil delimitar o que seja. Existe apenas esse narrador, na casa da mãe que morreu. Mas nada é muito claro. Como ele foi parar lá? Quem o levou? Ele não sabe e o próprio leitor jamais saberá. “Tudo se esfuma”, diz o livro. O texto parece ser taquigrafado do próprio cérebro, com frases em staccato.

Em outro momento, a narrativa parece aproximar-se a Kafka. Justamente quando Molloy é detido gratuitamente por um policial, a irrelevância do exercício arbitrário do poder parece se expor. Mas depois, novamente, essas aproximações são falsas e não há mais nada de Kafka em Beckett. Liberado, esse sujeito que tem uma perna dura e uma bicicleta que consegue pedalar só com a outra perna, a boa, fica feliz a ponto de gritar, de congratular-se com sua sombra e a da bicicleta projetadas na parede. Até que fica claro que se trata também de uma definição do personagem que passa pelo limite da própria linguagem.“Estou apenas me dobrando as exigências de uma convenção que exige que você minta ou se cale”, ele anota, ao final de um discurso a respeito da inteligibilidade das palavras.

Entretanto, o romance é dividido em duas partes e, na segunda, o narrador é outro. Intitulado Moran, ele é bem mais organizado e metódico que o primeiro deixando tudo mais claro e mais evidente ao público. Pelo menos é o que ele quer fazer acreditar. Porque logo fica claro que o fato de ser agente e estar encarregado de se ocupar de Molloy não explica muita coisa. A que organização pertence? Quais são seus propósitos? Isso nunca ficará evidente. Aos poucos, essa aparente construção simétrica e consistente também se esfarela e o leitor é lançado de novo nesse tortuoso mundo labiríntico que é uma mente em processo de enlouquecer. Haverá a tentação, a certa altura, de aproximar Molloy de Moran. Achar que são a mesma pessoa.Mesmo que não sejam — e não são — o que fica claro é a impossibilidade de os narradores se expressarem, embora tenham a obrigação de fazê-lo.

A história que os dois – cada um à sua maneira – tentam registrar é a das idas e vindas de Molloy, num vai-e-vem que alterna lugares abertos e fechados, a partir do apartamento de sua mãe. O livro caracteriza-se pelas ações dramáticas que apresenta, incluindo um caso de amor e um de morte. Mas a verdadeira ação, em se tratando de Beckett, está na própria linguagem – ainda que seja a de comunicar a incomunicabilidade moderna. Contudo, é curioso observar que esse tipo de narrativa fragmentária ajudou a recolocar os romancistas nos trilhos da concisão. O que vale na ficção de hoje é o avesso do pregado por Beckett, que não perde o posto de gênio.

MOLLOY
Samuel Beckett
[Globo, 264 págs, R$ 34,90]

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