O EMO-INDIE DO MODEST MOUSE
Novo álbum dos “tiozões” do underground leva a banda para os tortuosos caminhos do pop
por Mariana Mandelli

We Were Dead Before The Ship Even Sank, nome do novo disco do Modest Mouse, apesar do título mórbido (seria algo como “estamos mortos antes mesmo do barco afundar”), não soa tão melancólico como seu antecessor Good News for People Who Love Bad News (2004). A levada menos alternativa das 14 canções parece convidar a banda para um passeio ao mundo do pop, mergulhando de cabeça no perigoso e ambíguo universo mainstream. Com We Were Dead…, o Modest Mouse migra de vez para o conhecimento público e deixa de ser favorito apenas dos amantes incondicionais do indie rock.

O processo de “popularização” da banda já se cristalizava desde o lançamento de Good News for People Who Love Bad News, um dos álbuns mais festejados de 2004, que catapultou o Modest Mouse para as rádios e para os sites de música alternativa do mundo todo. Embora fossem “tiozões” (a banda surgiu em 1993) perto dos novos conjuntos de rock independente de garotos mal saídos da adolescência (o Arctic Monkeys é o maior exemplo dessa cena), Isaac Brock (vocal e guittarra), Eric Judy (baixo) e Jeremiah Green (bateria) conquistaram os garotos e garotas de calça apertada e All Star nos pés, transformarando-se em sensação do mundinho independente.

Uma prova de que o Modest Mouse alcançou o topo da escada para a fama foi o primeiro lugar alcançado pelo novo disco quando foi lançado, no fim de março. Outro indicativo de que os tempos de rock independente ficaram para trás é a presença de canções da banda na trilha sonora da segunda temporada do seriado “The L Word”, focado em personagens lésbicas e – por isso mesmo – popular nos índices de audiência de diversos países.

O Modest Mouse foi formado há quase 15 anos no estado de Washington, nos Estados Unidos. Com seis discos de canções inéditas no currículo, a banda é reconhecida por misturar indie rock com emo (não o “emocore” de Good Charlotte, My Chemical Romance e olhos pintados; pense em Fugazi, por favor), fazendo um som barulhento que contradiz as composições melancólicas e solitárias de Isaac Brock. As letras denunciam a preocupação de Brock com as emoções reprimidas, os medos cotidianos e a obsessão pela morte. A sonoridade da banda é baseada em influências diversas, como Built to Spill, 31Knots, Mercury Rev e Pixies.

A cada álbum, o Modest Mouse foi se transformando musicalmente, abandonando o som mais sujo e pesado do início da carreira, que marca discos como Lonesome Crowded West (1997), por exemplo.

Veterana de uma época em que o mundo via nascer o grunge e acusada de ser embalada por uma onda pop, o Modest Mouse soa sim como um modelo convencional de rock alternativo. Afinal, tem coisa mais indie do que propor que os fãs ajudem a fazer seus próprios clipes (caso do novo hit “We’ve Got Everything”), como é oferecido no site oficial da banda?

MODEST MOUSE
We Were Dead Before The Ship Even Sank
[Epic/ Sony, 2007]

Cada faixa de We Were Dead… tem estilo próprio, mas sem perder a identidade da banda. O álbum não tem experimentações nem inovações musicais: é um álbum intenso e energético, mas básico. Nem a ajuda de Johnny Marr, o lendário e criativo guitarrista dos Smiths, na produção, transformou o disco em um álbum incrível.

As letras sombrias que marcam o estilo do Modest Mouse, fazendo reflexões sobre o comportamento humano, estão presentes. As canções são, apesar da tristeza temática, divertidas. “Dashboard” começa como uma música dos escoceses do Franz Ferdinand. “Florida” é contagiante de tal maneira que dá vontade de fazer coro junto a James Mercer, do The Shins, que faz o backing vocal – ele aparece também em “Missed the Boat” e “We’ve Got Everything (essa, com o ritmo marcado e o jeitão dançante do Arctic Monkeys, já dá sinais da candidatura a hit). “Education” tem uma levada country por cima dos versos consternados de Isaac Brock. “Little Motel” é uma baladinha introspectiva que fala sobre a espera eterna pela satisfação e segurança própria.

Apesar de ser das canções mais amenas do álbum, não dispensa as guitarras marcantes. Já o vocal profético de “Spitting Venom” remete, inicialmente, a Johnny Cash, para depois desembocar no indie rock na sua melhor e mais pura forma. “People As Places As People”, nome genial para uma letra nostálgica, traz uma batida que revela uma tristeza solitária. E “Invisible” fecha com um som elétrico e pulsante por meio do vocal desesperado de Isaac Brock. Entretanto, nem tudo é só flores: há os momentos de chatice do álbum, em que as músicas parecem não acrescentar absolutamente nada. “Fire It Up” e “Parting of the Sensory”, por exemplo, são canções cansadas que beiram à mesmice e ao tédio.

NOTA: 8,0

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