MODA SEM FRESCURA
Tropicalismo insere na moda brasileira o toque de identidade necessário à uma época em tons pastéis
Por Fernando de Albuquerque

No mundo afora teve o nome de psicodelia, no Brasil o movimento ganhou cores verde-amarelo e tornou-se Tropicália. A década de 60 foi um período importantíssimo tanto para o cenário político quanto para o cultural, em específico, a moda. A mulher e mais ainda o homem viviam amarrados a um bom mocismo desmedido de taiers retilíneos, tons pastéis e uma cartela de cores nem um pouco ousada.

Para os exemplares do sexo masculino o vestuário se resumia ao conjuntinho calça, camisa ou terno. Sempre em cores completamente neutras prevalecendo o preto; os mais ousados pensavam no cinza. Todos se inspiravam em ícones onde a sobriedade era o principal sintagma como é o caso de Jackie Kennedy.

O movimento tropicalista trouxe uma série de elementos à um vestuário sisudo demais. Calças mais folgadas, cores mais berrantes. Tudo calcado em uma hiponguice ousada e elegante com flores grandes, cores fortes. Isso pode ser visto com mais contundência em croquis de Helio Eichbauer, todos deslumbrantes, para a histórica montagem do “Rei da Vela”, do teatro oficina e também nos vestidos feitos por Lina Bo Bardi – espécie de parente espiritual de Hélio Oiticica, artista que muitos dos tropicalistas se inspiraram para fazer músicas, escrever poemas e se expressar.

Aqui e ali é fácil achar elementos e resquícios desse modismo. Um exemplo forte é a Melissa Severine, inspirada na doçura e na forma delicada do morango, criada, ano passado, pela estilista da marca Thais Losso. Ou mesmo nas inserções da Neon, das jovens Adriana Barra, Cris Barros, Carol Martins e Helô Rocha. Todas bebem, e muito, nesse modismo da fauna, flora, favelas, escolas de samba, moleques e marginais para compor estampas e mesmo o corte de algumas peças. Hoje é fácil achar batas enormes, blusões femininos mais retos em tecidos leves, ou monocromismos furtivos – todos são crias, diretas dessa década.

Como se vê, tropicalismo é hoje um guarda-chuva enorme e generoso, fonte legítima de inspiração e, também, álibi condescendente para qualquer “mistura” de níveis de cultura, referências pop e eruditas, tradição e, vá lá, transgressão.

Movimento
A Tropicália foi um movimento e um momento. Estado de espírito, celebração da complexidade do próprio Brasil e uma variante da contracultura da década de 1960. Foi também o duplo mítico de Brasília, a utópica capital modernista que se tornou a cidadela de uma ditadura. As definições de Tropicália, que apresentou a si mesma como de livre espírito e indefinível, escorre como areia entre os dedos. A Tropicália tem sido chamada por alguns teóricos como o “admirável trabalho de descentralização”, uma celebração irônica da brasilidade e uma contaminação deliberada do elitismo cultural nacional, a identidade nacionalista folclórica adorada tanto pela direita como pela esquerda.

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