UM GUS VAN SANT POLÍTICO
Sem militância, diretor americano constrói mais um herói outsider se valendo do panorama cultural da época
Por Eduardo Carli de Moraes

MILK – A VOZ DA IGUALDADE
Gus Van Sant
[Milk, EUA, 2008]

É pra lá de comum que, para efeitos de classificação, a gente divida os filmes em dois grandes “universos” antagônicos e incomunicáveis: de um lado, o “Cinema Autoral de Arte”; de outro, o  “Cinema de Entretenimento de Massas”. Esta divisão, um tanto simplória, é o que alguns diretores brilhantes conseguem problematizar, bagunçando os limiares, rejeitando os dogmas de cada “partido” e unindo, numa mesma obra, elementos de ambos os “domínios”.

Gus Van Sant, por exemplo, é um destes versáteis cineastas que passeiam com desenvoltura por estes extremos deste espectro. Às vezes solta obras tipicamente hollywoodianas, adoradas pelas multidões e arroz-de-festa nas grandes premiações (apesar de dotadas de um “toquezinho” autoral sempre notável pelos paladares mais sensíveis) – é o caso de obras como Gênio Indomável e Encontrando Forrester. Outras vezes, soa como um artista independente e descompromissado com o cinema comercial, que dedica-se a experimentos vanguardísticos extremos (como fez nos longos planos-sequência de Elefante ou na narrativa arrastada e angustiante de Last Days).

Ele parece ser um dos poucos autores do cinema de hoje capaz de marcar presença, ainda que de modo intercalado, tanto nos “festejos hype” como o Oscar (Milk, por exemplo, foi indicado a 8 prêmios este ano, inclusive melhor filme, diretor e ator), quanto no ambiente bem mais “cult” de Cannes (como ocorreu com a Palma de Ouro vencida por Elefante). Seu novo filme, Milk, novamente traz essa frutífera mescla entre um cinema autoral e um espetáculo fílmico orquestrado para a emoção e edificação das multidões.

Milk representa mais um pit-stop que faz Gus Van Sant na análise de uma alma excêntrica e fora-do-comum: Harvey Milk (interpretado pelo sempre competente Sean Penn), um dos primeiros homens confessamente homossexuais a atingir, na São Francisco dos anos 1970, cargos de importância na política americana. O filme, ao invés de descrever em excessivas minúcias a vida privada de seu herói, como é comum em tantas cine-biografias de homens célebres, faz a escolha por uma ambição maior: a de ser um Vasto Panorama Cultural.

Mais do que a própria vida de Harvey Milk, o que parece importar para Van Sant é todo o “Quadro Cultural” que o circunda nesta Frisco pós-hippie que colhe os frutos de Woodstock e da Revelação Sexual: um ambiente de libertação progressiva que Harvey Milk, de certo modo, protagoniza como um líder, um guia e um mártir dos homossexuais militantes. O grande destaques do filme vai para a organização política em busca de reconhecimento social e direitos igualitários – e é nisso que  a narrativa centra fogo: bastidores partidários, panfletagem e propaganda, passeatas de protesto, discursos ao megafone, combates com a polícia, batalhas jurídicas contra leis discriminatórias. Enfim: toda a difícil esgrima política necessária para a obtenção de direitos civis democráticos.

Nada de cenas de erotismo excessivo, já que este certamente não é um filme voltado para o público gay, mas sim dirigido à “educação histórica” de um público de massa que, em sua maioria, desconhece esta história de batalha por direitos civis. Milk enxerga a sexualidade à la Foucault: como uma questão tão política quanto pessoal, que diz respeito ao coletivo tanto quanto ao indivíduo, e que causa muitos conflitos e desencontros na arena pública (tendo estado, desde sempre, em todo o caminhar da humanidade, envolta em polêmica).

Milk é mais um sintoma de que depois da revolução sexual dos anos 1960 a sexualidade tornou-se algo discutido de modo cada vez mais aberto e menos moralista. E Gus Van Sant, um cineasta homossexual assumido, prefere o retrato ao julgamento e atinge com serenidade uma narrativa que, ao menos num primeiro olhar, parece completamente desinteressada em dar “lições de moral” ou distinguir o “certo” do “errado”. Mas inevitavelmente o espectador atento fica com a impressão de que a intenção fundamental por trás de Milk era esta: a geração de um herói. Missão cumprida. Pois, pelo esforço conjunto de Van Sant e da atuação muito convincente de Sean Penn, Harvey Milk é descrito como um ícone tão digno de admiração quanto foram, por exemplo, um Martin Luther King ou um Malcolm X para a causa negra ou uma Camille Paglia ou Maya Angelou para a causa feminista.

Mais uma vez, Van Sant demonstra ter verdadeira paixão pelo retrato de admiráveis outsiders, desajustados e excêntricos. Todos aqueles que fogem do comportamento convencional atraem a atenção e as lentes do diretor. Seu grande valor está em que seus retratos quase sempre aparecem limpos de qualquer moralismo. Procuram instigar mais a empatia do espectador pelos seus inúmeros anti-heróis, anjos caídos e jovens confusos do que pôr lenha na fogueira da incompreensão e da condenação. Essa atitude sempre misericordiosa parece perpassar toda a filmografia dele: seja quando trata de uma juventude transviada de junkies (em Drugstore Cowboy) ou de assassinos colegiais (em Elefante ou Paranoid Park), seja mostrando deprimidos roqueiros agonizantes (em Last Days – Os Últimos Dias de Kurt Cobain) ou as desventuras de artistas e escritores (Gênio Indomável e Encontrando Forrester), Van Sant é sempre alguém que humaniza os personagens e impede uma condenação superficial e afoita de seus comportamentos desviantes. Pois o que garante que o caminho escolhido pela maioria é necessariamente o melhor? E por que os que desviam não poderiam, nesta escolha de não seguir o rebanho, encontrar uma verdade mais alta que aquela que atingem as ovelhinhas que andam ordeiramente em linha indiana?

NOTA: 9,0

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