PERDIDOS NO ESPAÇO
Trio australiano lança trilha sonora intergaláctica e mostra que a música eletrônica dos novos tempos não tem fronteira
Por Paulo Floro

O Midnight Juggernauts é uma banda livre de pretensões. Neste seu debut, mantiveram o pé no chão para criar os arranjos e conseguiram ter as referências bem delimitadas e coesas. Com isso, fizeram de Dystopia uma grande novidade na eletrônica em tempos recentes.

O grupo é da Australia, terra inusitada e bissexta em revelar nomes de peso no cenário pop internacional. Formados em 2004 pelo trio Vincent, Andy e Dan, lançaram dois EP’s, Midnight Juggernauts, de 2004, e Secrets Of The Universe – de 2005, onde já mostravam as principais idéias que marcariam sua estréia em álbum. As referências citadas vão de David Bowie a Human League. Mas podemos encontrar diversos elementos na produção, como Prince, psicodelia e electro-pop.

Além das ótimas músicas do disco, vale destacar o conceito visual-temático. Da belíssima capa reproduzindo uma aurora boreal às letras das músicas, tudo em Dystopia remete a viagens interplanetárias, outras galáxias, outras realidades. Por isso faz todo o sentido faixas como “Into The Galaxy” e “Shadows”, que já faziam sucesso antes do lançamento do primeiro álbum, e agora fazem parte de uma idéia maior. É como se os anos oitenta tivessem descoberto a psicodelia.

Difícil destacar uma música neste disco. Todas fazem parte de uma odisséia cósmica, um filme dirigido pela mão cirúrgica de Stanley Kubrick. O Midnight Juggernauts é comedido, não existe aqui pretensão de se destacar na música eletrônica. É este o principal trunfo dos australianos. Tão distantes de qualquer cena, fizeram isolados em seus pensamentos de viagens espaciais um disco que ultrapassa os limites de qualquer movimento, conjunto de ideologias ou referências compartilhadas.

Lançado semana passada na Australia pelo selo Siberia, o disco continua inédito nos Estados Unidos, mas já encantou jornalistas e artistas em todo lugar. Se as mais dançantes são surpreendentes e empolgantes, como “Tombstone” e seu vocoder ’80, “Road To Recovery” com sabor acid-jazz e a ótima faixa de abertura “Ending Of An Era”, as baladas também são ótimas como “Aurora” e a faixa título, com ecos de Brian Eno.

Com uma obra tão consistente, não é espanto alguma a velocidade com que o Midnight Juggernauts alcança sucesso, reconhecimento e hits. Sem uma única faixa sem propósito, o álbum mantém uma cadência eficiente e faz de Dystopia a mais grata surpresa da música eletrônica sem fronteiras destes anos 00, ao lado do Justice.

MIDNIGHT JUGGERNAUTS
Dystopia
[Siberia, 2007]

NOTA: 8,5

Sem mais artigos