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O QUINTAL DE M.I.A.
Cantora anglo-cingalesa se joga num caldeirão de tendências e ritmos mundo afora para falar de política e botar todo mundo pra dançar
Por Paulo Floro

Errou quem chamou M.I.A. de funkeira. Quando lançou Arular, seu primeiro disco, em 2005, a cantora anglo-cingalesa chamou atenção da imprensa ao utilizar o funk carioca em suas músicas, mais especificamente em duas, “Bucky Done Gone” e “Galang”. O que poucos sabiam, ou desconheciam, era a capacidade da cantora em se familiarizar com sons de todo lugar. Esta semana, ficou mais claro a pluralidade do som da moça com o lançamento do segundo disco, Kala, uma bagunça frenética de ritmos, um passeio por países que vai de Austrália a Libéria, passando pela Índia.

Mathangi “Maya” Arulpragasam nasceu em Londres, filha de um escritor ativista tamil, Arul Pragasam. Aos seis meses de idade, junto com sua família, retornou ao Sri Lanka, onde se envolveu com a organização EROS (Eelam Revolutionary Organisation of Students), uma milícia pacifista que lutava pela independência da minoria tâmil sem violência. Conforme a guerra civil prosseguia, o caos que o país presenciou levou o EROS a se unir a grupos armados. O nome M.I.A. significa Missing In Action (Desaparecida em Combate), inclusive. De um cotidiano perigoso, a guerra étnica se tornou insustentável e insegura, o que levou Maya, sua mãe e Kali, a irmã mais velha, a se mudarem para o sul do país, e em seguida para a Índia. Com pouco dinheiro, pouca comida e nenhuma perspectiva, o destino final de M.I.A e sua família foi mesmo Londres, onde foram aceitos como refugiados.

Tinha 11 anos, quando ao mesmo tempo em que aprendia inglês, adentrava o universo hip-hop dos subúrbios londrinos. Public Enemy, Big Daddy Kane, pick-ups, break, grafiti, e outros elementos que fariam parte do universo de referências da artista. Sua formação pelo Central Saint Martins College of Art and Design, trouxe mais possibilidades artísticas a cantora, que passou a assinar trabalhos visuais, como capas de discos e direção de videoclipes. A primeira exibição de seus trabalhos foi numa galeria de Portbello, Londres, com uma exposição repleta de referências militares, lutas étnicas e rap.

Feminino e violento

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Gravado em vários países diferentes, Kala é praticamente uma coletânea de ritmos do mundo todo. Kuduro, em Portugal, bhangra da Índia, novamente o funk, punk rock inglês, ritmos africanos. Cinco produtores passaram a mão no disco: Switch, DJ Blaqstarr, Morganics e o incensado Timbaland, além de seu ex-namorado Diplo, responsável indiretamente pela sua explosão ao usar músicas de Arular em seus sets. Isto foi o suficiente para M.I.A. superar o sucesso de seu primeiro disco, mostrar novas idéias melódicas, sem precisar se afastar de seu estilo particular, que a fez famosa. É infinita a quantidade de descobertas possíveis em sua viagem pelo planeta.

Kala, que chegou às lojas dos Estados Unidos e Europa esta semana, é uma viagem ao passado familiar da cantora. É um disco feminino, disse a cantora, que dedicou a sua mãe, responsável por nutrir os filhos com comida e informação. M.I.A. chamou sua mãe para o centro de sua história, já que muitas apenas a relacionam com seu pai, Arul, sempre citado em matérias sobre a cantora. Outra inflexão pelo passado foi a visita que fez à Libéria em dezembro de 2006, onde encontrou ex-crianças soldado, afetadas psicológica e fisicamente pela guerra. Desta visita, filmou um documentário sobre o pós-guerra liberiano, ao lado do ativista local Kimmi Weeks. Por fim, a música “Jimmy”, versão da música-tema do filme de Bollywood “Disco dancer”, de 1982, remete ao período em que viveu na Índia. O clipe e a música são divertidíssimos.

Conotações políticas que beiram a militância ainda são constantes no trabalho da rapper. Iniciados em Arular, temas que discutem questões pós-globalização, terrorismo, ideologias terceiro-mundistas e violência voltam a dar as caras aqui. A grande diferença é a riqueza de ritmos, muita mais rica e audaciosa. Elementos comuns entre a África cheia de conflitos e os mercados consumidores do hemisfério norte está presente em várias músicas, como ela já havia feito em seu primeiro disco, falando de Nokia e bombas teleguiadas em uma mesma canção. M.I.A. chama os expatriados e hostilizados para o cerne da aldeia global, para o centro da cultura que não vê mais distinção. Deixa claro também que a world music é um fracasso tanto enquanto idéia, quanto em termos práticos. Ela, diferente de Björk, viaja ao mundo não para absorver o que as culturas periféricas têm de mais exótico e, sim para incluí-los no seu caldeirão pop e moderno.

“Me leve para um passeio pelo genocídio/Me leve de caminhonete por Darfur”, diz a letra de “Jimmy”, sobre o conflito no sul do Sudão entre duas minorias étnicas, que resultou na morte de mais de 400.000 pessoas. A África está presente como nunca na música de Kala, como mostra a música que abre o disco “Bamboo Banger”, citando países do continente e anuncia: “M.I.A. coming back with Power, Power”. “Paper Planes”, fala de tráfico de armas, corpos e resume tudo num sampler, com sons de tiros, seguido de um barulho de gatilho, para então desembocar num barulho de dinheiro caindo. Política é a principal arma criativa da rapper; está tudo atrelado ao som, vídeo, estilo, que começara desde Arular. Mas em se tratando de M.I.A. e todo seu background, não poderia ser de outra forma. Não se trata de um projeto criativo. É pura convicção política.

KALA ALARGA AS POSSIBILIDADES SONORAS DE M.I.A. E SUPERA SEU DISCO ANTERIOR

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