O jornalista e designer gráfico mineiro Marcelo Santiago é um workaholic da net. De todos os seus projetos, a maioria tem uma ligação forte com o espaço web. Perspicaz, é responsável por diversas iniciativas musicais interessantes como o coletivo Fórceps e o p.u.t.a., além de ser autor do blog Meio Desligado, um dos principais quando o assunto é cena independente brasileira. Este mês, Marcelo esteve no Recife para apresentar seu festival Stereoteca na reunião da Associação Brasileira dos Festivais Independentes – Abrafin. “Uma confusão”.O GRITO! bateu um papo com o rapaz.

Quando você passou a perceber que a internet poderia proporcionar uma experiência jornalística interessante? Qual seu debut na net, as primeiras lembranças?
Comecei a escrever na internet em 2003, quando criei o blog Mazzacane. Na época ele ficava hospedado no domínio mazzacane.blogger.com.br e era um reflexo do que eu vivia no momento, tinha 16 anos e começava a ir a shows alternativos, a ter maior contato com atividades culturais e o blog era uma maneira de registrar tudo isso. Era uma escrita mais pessoal e descompromissada. Por volta de 2005 é que fui me dar conta do potencial jornalístico de um blog, mesma época em que comecei meu curso de jornalismo. Até então, escrever era apenas uma forma de divertimento, de dar continuidade ao meu gosto por determinadas manifestações culturais (basicamente escrever sobre os shows que via, as bandas que conhecia e as novidades do cinema). Em 2006 transferi o blog para o Blogspot e passei a levá-lo mais a sério, já com um certo olhar jornalístico, ainda que embrionário.

Como você consegue dar conta de tantos projetos? Qual o que ocupa maior parte do seu tempo hoje?
Bem, manter 7 projetos musicais (p.u.t.a. / m.a.s FEAR SATAN / Miss Leck / Viva Nayla! / Eu Tenho Uma Banda, Eu Tenho o Poder!, Pornochanchada do Canal Brasil / Cafetão), um coletivo de (anti)arte experimental (P.U.T.A.) e outro de produção cultural (Fórceps), quatro blogs (Meio Desligado / Fórceps / A Festa Nunca Termina / Mazzacane), duas faculdades (jornalismo e design) é meio complicado, mas são coisas que adoro fazer e que tenho necessidade de dar continuidade. São formas de me expressar, então é um processo natural.

Por um tempo fiz tudo simultaneamente, mas acabei tendo que me organizar e distribuir melhor meu tempo, então tranquei a faculdade de design e acabei com o Mazzacane. Os projetos musicais são conceituais e têm estilos diferentes entre si, então dou continuidade a um certo projeto de acordo com o que estou sentindo naquele momento. Se eu comer um saco de açúcar, por exemplo, e depois assistir a um DVD do Pantera, provavelmente irei fazer umas músicas ultra-aceleradas para o Viva Nayla!.

Atualmente me dedico principalmente ao Meio Desligado e ao meu trabalho como produtor cultural (o que envolve tanto o meu emprego como o trabalho realizado através do Fórceps), pois são as atividades que me dão mais prazer e através das quais sinto que posso contribuir de forma efetiva para melhorar ao menos um pouco a vida de outras pessoas. É mais ou menos desse pensamento que vem a idéia da P.U.T.A. também (tanto o nome como as ações).

Ainda sobre os seus projetos, como surgiu a idéia do coletivo Fórceps? Qual a idéia da iniciativa?
O Fórceps é um coletivo de produção cultural que atua em diversas etapas da cadeia produtiva (desde a realização de festivais e shows à assessoria das bandas, passando pela criação do projeto gráfico dos álbuns, fotografias, vídeos, etc). Ele surgiu por causa nossa insatisfação ao tratamento dado para a cultura por parte do poder público e dos produtores locais. Como não gostamos da forma como a cultura é tratada, resolvemos mostrar o nosso modo de ver e lidar com cultura, muito mais amplo do que o pensamento vigente, estritamente comercial ou limitado.

Não podemos deixar de falar do P.U.T.A.. Como está o projeto no momento? Qual a finalidade dele?
“P.U.T.A. é o que você quiser”. O conceito é basicamente esse, não ficar preso a moldes ou pré-definições. É por isso que dentro da P.U.T.A. você encontra coisas tão diversas como uma vídeo-instalação digital como a V-ideossincrasia, um projeto de karaokê metal (myspace.com/vivanayla), festas, pinturas e adesivos pelas ruas, etc. Uma pequena parte disso está reunida no eugostodeputa.blogspot.com. A idéia é levar as ações para outras cidades e estados a partir do segundo semestre, misturar tudo o que vier à mente: intervenções urbanas + show + stickers + realização de vídeos + colagens…

[A Abrafin]É uma instituição muito nova e que ainda busca um rumo. O que percebi é que apesar de ter cerca de 30 membros, as decisões ainda ficam centralizadas nas mãos de poucas pessoas

Você esteve no Recife para o Abril Pro Rock este mês. Se comentava que o festival havia se modernizado, se atualizado, convidando blogueiros de todo o Brasil para cobrir o evento. Você acha que existiu mesmo essa atenção a cobertura da imprensa independente nesta edição?
Um pouco. Ainda não vejo uma aproximação relevante entre festivais já estabelecidos como o Abril Pro Rock e os blogs. Já melhorou bastante essa relação, mas o foco dos festivais ainda é a mídia tradicional e os blogs mais “pop”, em sua maioria de jornalistas que também trabalham na grande mídia. À medida em que os próprios blogs melhorarem seus conteúdos, acredito que a resposta será melhor. Hoje em dia, são poucos os blogs de não-jornalistas que criam conteúdo relevante.

Fale sobre o Stereoteca. É uma proposta inovadora de festival, pelo que li.
O Stereoteca é um festival que acontece desde 2006 em BH e que acontece em um teatro que fica dentro de uma biblioteca. Um dos diferenciais é que ele dura vários meses do ano (em 2008 serão sete meses), realizando shows toda quarta-feira, sempre a preços populares. Somente artistas mineiros se apresentam, porque o objetivo é justamente funcionar como um palco para a música contemporânea do Estado, que normalmente não encontra espaço no rádio e até mesmo nas casas de show locais.

Você trouxe o festival para a reunião da Abrafin. Como foi o encontro?
Uma confusão, (risos). É uma instituição muito nova e que ainda busca um rumo. O que percebi é que apesar de ter cerca de 30 membros, as decisões ainda ficam centralizadas nas mãos de poucas pessoas. Sem dúvida estão fazendo um grande trabalho, mas correm o risco de se fechar demais em um “grupinho de amigos” e começarem a trabalhar apenas pra si mesmos, sem pensar no bem coletivo. Espero que isso não aconteça, mas a julgar pelo que vi na primeira reunião anual, é possível que sigam esse caminho. Ainda não sei se minha proposta para integrar a Abrafin será aceita, mas torço que sim, para mostrar esse ponto de vista e colaborar para a estruturação da associação.

Ainda falta muito para que tenhamos diversos blogs interessantes abordando o que acontece fora dos grandes palcos. Pensando rapidamente, não consigo chegar a 10 nomes sequer

Para a cena independente brasileira, – bandas, produtores, selos, revistas – a imprensa alternativa (blogs, sites, etc) possui maior relevância que os veículos tradicionais? Qual sua opinião sobre isso?
Os veículos tradicionais são cruciais em termos de patrocínio. Basicamente, é isso. É algo que os próprios produtores sabem: uma matéria em um grande jornal não traz um número relevante de pessoas ao seu festival, mas faz bonito junto ao patrocinador.

O blog Meio Desligado é um dos principais quando se trata de cobertura da cena independente. No momento, ele está sendo escrito apenas por você? Planos para cobrir mais festivais independentes?
Desenvolvo todos os meus projetos, com raras exceções, sozinho. Meu irmão, Leo Santiago, escreveu por um bom tempo no Meio Desligado, mas desde o mês passado ele é editor do site do circuito Fora do Eixo e por isso não tem mais tempo de escrever. Tirando ele, o blog tem colaboradores eventuais, pessoas quem podem trazer visões interessantes sobre os assuntos abordados ou que me prestam favores sexuais. Sobre a cobertura de outros festivais, a maior dificuldade é mesmo o dinheiro. Se houvesse uma ajuda de custo, com certeza circularia muito mais pelos eventos. Como o país é muito grande, é tudo muito longe e algumas passagens são bem caras, o jeito é ficar de olho em promoções pela internet e torcer pra que os blogs sejam mais valorizados como meio de informação. Se tudo der certo, o Meio Desligado estará presente no Bananada e no Porão do Rock (e eu ficarei um pouco mais pobre).

O que acha da cobertura da cena indie feita pelos blogs brasileiros? Eles, de fato, representam alguma importância para a cena, para as bandas?
Os blogs são a plataforma por onde circulam as informações do cenário independente, porque são feitos pelos próprios personagens dessa cena. Não são fruto de jornalistas preguiçosos e cujos egos só não são maiores do que as poses. O problema é que na grande maioria dos casos esses mesmos blogueiros são pessoas despreparadas e desinformadas, que não conseguem tirar grande proveito das ferramentas que a internet oferece e estão ligadas a modelos padronizados de cobertura, seguindo a formatação utilizada pela mídia tradicional e generalista há décadas. Ainda falta muito para que tenhamos diversos blogs interessantes abordando o que acontece fora dos grandes palcos. Pensando rapidamente, não consigo chegar a 10 nomes sequer.

Mais projetos na internet pela frente?
Uma lista (sério) escrita em um pedaço de papel colado na parede do meu quarto. Provavelmente não ficarei satisfeito enquanto não fizer todos eles.

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