A nossa seção Metaweb não poderia ter começado de maneira melhor. Com a proposta de pensar e discutir internet, jornalismo e novas experiências online, toda semana traremos alguém ligado (antenado seria uma palavra melhor) aos temas para uma conversa. Para inaugurar o espaço, convidamos Alexandre Matias, nome recorrente quando se trata de jornalismo online e cobertura sobre tecnologia.

Jornalista do caderno Link, do O Estado de S. Paulo, também é dono do blog Trabalho Sujo, onde escreve sobre diversos assuntos da cultura pop e tecnologia. Em entrevista a O Grito!, Matias falou sobre os 10 anos de blog no Brasil, jornalismo na web, a justiça brasileira x internet e In Rainbows. Confira abaixo.

O GRITO! – O Trabalho Sujo é um dos mais conhecidos blogs da internet brasileira. Ele tem uma história anterior,falando sobre música num jornal impresso, mas sua relevância maior se deu quando virou blog, em 2000. Dá para voltar lá atrás e olhar através dele, como a web no Brasil mudou?
Alexandre Matias – Primeiro, eu acho que o Trabalho Sujo nem é tão conhecido assim. Acho que eu sou mais conhecido que o site e ainda tem muita gente que me conhece que sequer sabe que eu alimento o Sujo – e eu não sou um cara conhecido, por mais que a internet e a mídia criem essa ilusão. E sempre foi assim, não faço muita questão de mais do que isso. Acho que essa fama – ainda mais quando falamos de internet – é meio furada, a gente se torna mais conhecido por amigos em comum, os links, do que se tornar realmente conhecido. Acho ótimo, aliás: tenho amigos que são conhecidos de verdade- reconhecidos na rua e tal – e eles perdem uma parte crucial da vida normal, que é se misturar na multidão.

Dito isso, a web no Brasil mudou completamente, como em todo o mundo, de 2000 pra cá. Acho que a principal mudança diz respeito à facilidade de publicação. O que assistimos nessa primeira década de século foi ao crescimento de uma rede que se torna cada dia mais amigável ao usuário. Há dez anos não era qualquer banda que podia ou sabia como subir um MP3 ou um vídeo para um site – por mais que pudesse ser possível, não era fácil. OK, qualquer pessoa no planeta podia ter acesso à sua banda em 1998, só que você tinha que achar um lugar para hospedar seu MP3, avisar às pessoas como se baixa um MP3 e quais programas permitiriam abri-lo, fora que demorava tipo uma hora pra uma música chegar de um servidor pro seu computador. Era uma trabalheira dos infernos – fora a parte de programação de um site, etc. E por mais legal que possa parecer a época que estamos vivendo hoje, tenho certeza que as coisas vão ficar muito mais divertidas em poucos anos. Não duvide que em menos de dez anos o simples pensar em uma música pode fazer com que ela toque no som do carro do amigo com quem você está conversando. As coisas estão mudando muito rápido e a tecnologia está fazendo o que fez desde que o homem descobriu o fogo e inventou a roda – não por acaso dois feitos “tecnológicos”, uma descoberta e uma invenção – que é facilitar nossa vida.

Além desse aspecto estrutural, há o humano. Nesses quase dez anos assistimos a uma injeção de auto-estima graças ao fator autopublicação. A facilidade tecnológica faz com que cada vez mais pessoas se disponham a produzir conteúdo – a princípio apenas para aparecer, depois para compartilhar conhecimento e finalmente simplesmente pra se divertir. Isso tem feito com que todo mundo pouco a pouco se pergunte algo que ninguém fazia há pouco tempo: perguntar-se o que realmente quer da vida e do que se gosta. Pode parecer bobagem, mas esse monte de cultura ruim que foi – e ainda é – fabricada esses anos todos pra empregar um monte de gente arrogante e sem noção só existe porque as pessoas não param pra pensar nisso. Ao cogitar abrir um blog, botar vídeos no YouTube ou participar de um jogo online, o sujeito dá um corte editorial à própria vida e começa a se pensar a partir dele, percebendo que vivemos um tempo em que o consenso não é mais a regra, e sim a diversidade – e o diálogo livre entre essas diferentes personalidades, celebridades mitológicas ou nossos parentes e amigos, que compõem a nossa noção de realidade.

Este ano, completa-se 10 anos de blogs no Brasil. Antes diários autistas ou de pouca importância – salvo exceções – hoje uma forma de ganhar dinheiro ou até de se fazer um outro tipo de jornalismo. Você acredita que já alcançamos a maturidade na forma como a imprensa brasileira enxerga os blogs?
Ainda não acredito que tenhamos atingido a maturidade de nada em relação às novidades que o digital está propondo. Estamos saindo da infância e entrando na adolescência – por isso essa excitação, essa coisa meio hiperativa e afobada, que caracteriza os dias de hoje. Por isso talvez também aja essa aparente onipresente sensação de insatisfação.

Uma das discussões recentes coloca em conflito blogs e a grande mídia (midia mainstream). No entanto, a grande maioria dos jornais de grande circulação já veiculam seus próprios blogs (alguns sem muita interatividade e comentários moderados). Isso diz respeito a um entendimento entre essas duas mídias, ou se trata de uma estratégia por parte dos grandes?
Blog é um formato, acho natural que a mídia absorva novos formatos para transmitir informação.

Ao cogitar abrir um blog, botar vídeos no YouTube ou participar de um jogo online, o sujeito dá um corte editorial à própria vida e começa a se pensar a partir dele

Que bons jornalistas que vieram do jornalismo impresso tiveram uma experiência interessante como blogueiros, na sua opinião?
Não gosto de citar nomes, porque eu sempre esqueço alguém. Mas acho que ainda estamos no ensaio do que será a interação entre o jornalista como indivíduo e as instituições que pagam seus salários.

As comunidades de blogs, como o Interney, o Verbeat e o Gardenal, do qual você faz parte, mostra que o Brasil tem uma interessante inserção na blogosfera como um todo. Você acompanha esse tipo de movimento de unir blogs em torno de uma mesma idéia/proposta em outros lugares. O que acha da experiência aqui no Brasil?
Acho que ela fica mais na intenção do que na realização. O próprio Gardenal nunca teve uma home de verdade e os blogs que estão lá dentro só têm em comum o fato de seus donos serem amigos do Bruno, do Pablo e do Alberto, que fundaram o domínio. Hoje o Gardenal tá meio caindo aos pedaços e os próprios donos sabem disso – tou fazendo inclusive algo a esse respeito. Fora esses que você citou, ainda existem outros, como o Insanus, e outras comunidades que não necessariamente trabalham como uma mesma publicação, mas que reunem pessoas com afinidades individuais e gostos em comum. É um problema que aflige os principais portais sazonalmente e cuja solução seja a grande contribuição desse papo de web 2.0. Se não dá pra colocar todo o conteúdo da internet num só portal, diversos sites estão facilitando o acesso a eles ao criar mecanismos para embuti-los nos sites dos outros – o melhor exemplo disso sendo o código de “embed” que o YouTube inaugurou e que hoje é quase onipresente em sites de vídeo e aos poucos começa a aparecer em outros tipos de sites. Mas acredito que é questão de tempo pra começarmos a ver pessoas produzindo conteúdos isoladamente em seus sites pessoais dentro de portais cuja home remixe o que o conteúdo produzido por estas pessoas.

Discordo sobre a profissionalização dos blogs serem uma evolução. Nada contra quem quer e consegue ganhar dinheiro com seu próprio blog, mas o formato é essencialmente um hobby e não uma carreira

O episódio da tentativa de bloquear o WordPress.com será mais um dos episódios “Ciccarelli na Praia”? Quando o país passará a ter uma compreensão mais objetiva e racional sobre legislação na web?
Como eu disse, ainda estamos na adolescência de uma lógica, que existe simultaneamente à terceira – ou quarta – idade de outra. Alguns conceitos vão ser refeitos e revistos, e outros simplesmente não vão mais existir. A justiça brasileira ainda não entende como a internet funciona – vide o caso Cicarelli, a proibição de alguns games ou a recente decisão do TSE à respeito das campanhas eleitorais deste ano via internet, mas não é exclusividade dela. Estamos todos tateando num novo ambiente, tudo ainda é muito verde. E não acredito que o WordPress será tirado do ar, uma vez que sequer tem escritório no Brasil.

Ainda falando em WordPress, para quem acompanhou o início do Blogger, o Blogger Brasil, Weblogger e outras plataformas, o WordPress representou um importante salto para a profissionalização dos blogs, sobretudo com o seu código aberto, o wp.org. Você já experimentou alguma atividade nele?
Não vejo essa linha evolutiva, não. O WordPress é só a continuação do formato blog, que é uma evolução dos provedores de páginas pessoais – como Tripod e Geocities – que, no final dos anos 90, facilitaram a vida de quem não sabia programar HTML. Certamente não é o único publicador em código aberto e não sei os motivos de seu sucesso. Mas discordo sobre a profissionalização dos blogs serem uma evolução. Nada contra quem quer e consegue ganhar dinheiro com seu próprio blog, mas o formato é essencialmente um hobby e não uma carreira.

O que acha da crítica cultural em sites da internet brasileira? Muitos dizem que os jornais impressos tem dificuldade em seguir a agenda de lançamentos e acompanhar as novidades, por outro lado, sites de crítica e reportagens não tem tanta visibilidade quanto os de notícia
Acho que é impossível um meio físico acompanhar o que acontece hoje na internet por dois motivos: a facildade de se produzir e disseminar cultura está fazendo com que vivamos uma época em que grande parte da humanidade produz conscientemente cultura, e a falência dos formatos tradicionais encerrou uma era de grandes ícones globais. Isso faz com que os assuntos se proliferem e tanto revistas e jornais quanto TVs e rádio não têm espaço para inclui-los. Não é à toa que todos esses veículos têm seus próprios sites. Não acho que a questão seja antagonizar passado e futuro, mas saber o que pode surgir da fusão dos dois, hoje.

E sobre os outros formatos na internet, como revistas eletrônicas, web-rádios, entre outros que fazem sucesso nos EUA? Isso significa que ainda temos muito o que experimentar por aqui?
Acho que já tem muita gente tentando – há tanto revistas eletrônicas quanto webrádios e outros formatos sendo realizados no Brasil. Mas não sei se esses formatos “fazem sucesso” ou se são experiências que funcionaram. O próprio parâmetro de sucesso está mudando. Então o fato de você não conhecer essas novas iniciativas não quer dizer que elas não existam…

Falando da sua experiência, agora. Conte-nos como você chegou ao jornalismo online e à cobertura de assuntos de tecnologia.
Comecei a cobrir música pouco antes da chegada do MP3 e desde que ele começou a se popularizar, percebi que havia uma mudança em andamento. Passei a cobrir este assunto no Trabalho Sujo, que era uma coluna do jornal Diário do Povo, em Campinas, e, quando passei a editar o caderno de cultura do Correio Popular, dei especial atenção ao caso Metallica x Napster. Comecei então a perceber que não dava para cobrir o que estava acontecendo com música e, inevitavelmente, em cultura, sem dar atenção a estas transformações. Quando fui trabalhar na Conrad, em 2001, comecei a editar uma revista que se chamava Play, cujo mote era exatamente esse: tecnologia e entretenimento. A partir daí, saber do que acontece nestes universos paralelos e cada vez mais próximos tornou-se parte da minha pauta – inclusive no próprio Trabalho Sujo.

Dá pra viver de jornalismo na internet? Ainda se discute muito isso?
A pergunta certa talvez seja “dá pra viver só da internet?”. E a resposta é: sim, dá. Não importa se é jornalismo ou o que valha. Mas ainda é fase de amadurecimento e adaptação, portanto tem gente que ganha mais, tem gente que ganha menos. Por isso, como discussão isso morreu. Acho que a discussão “dá pra viver de jornalismo?” é mais pertinente do que “viver de jornalismo na internet”. E a resposta é: sim, ainda dá. E eu não sou um jornalista da internet – 90% do meu trabalho saiu em veículos impressos ou são eventos com a participação do público – dos debates que organizo e participo à festa Gente Bonita.

O próprio parâmetro de sucesso está mudando. Então o fato de você não conhecer essas novas iniciativas não quer dizer que elas não existam

O que você achou da experiência das TVs online como a Pitchfork.TV?
Boas idéias, mas todas são tentativas. Ninguém vai assistir televisão no computador: ou o computador vira a central de entretenimento da casa ou a televisão vai ter que acessar a internet. Ainda estamos no meio do caminho.

No Trabalho Sujo, você upa faixas de artistas e bandas. Mas o que acha dos blogs de MP3 e dessa distribuição de arquivos online de música (torrents, downloads). Você chegou a assinar uma capa na BIZZ sobre isso, não? Este é um assunto que nunca sairá de pauta?
Blogs de MP3 são a melhor fonte para saber o que está acontecendo de novidade na música hoje. A seção “Popular” do Hype Machine é um termômetro muito mais confiável que a parada da Billboard. Mas acho que assim que as coisas se ajeitarem, esse assunto estará morto – e, pra mim, as coisas se ajeitam quando você puder pagar uma taxa pequena para baixar tudo o que quiser. Essa taxa, um imposto sobre os provedores de acesso, seria repassada para quem produz conteúdo e hoje faz campanha por se sentir lesado. Agora, como dividir esse bolo é que é o drama…

Você escreveu bastante sobre a experiência do In Rainbows do Radiohead quando ele foi lançado. Agora, o NIN fez algo do tipo e outros artistas acenam para iniciativas do tipo. O que acha desse movimento partindo dos próprios artistas. Muita gente ainda está confusa, certo?
Sim e acho que parte da história do In Rainbows foi explicar para as pessoas que não tem nada de errado em baixar música da internet. A campanha antipirataria associou o download ao crime e muita gente ainda é reticente de usar a internet para pegar música. Mesmo os artistas.

Quais suas próximas idéias na net?
Como o Gardenal tem me deixado quase sempre na mão, tou mudando o Sujo pra outra freguesia. Vizinhança nova, não ao lado de conhecidos, mas de amigos. Gente que pensa parecido comigo.

Quem te acompanha nos seus trabalhos, tem a impressão de que você está sempre online. Como é sua rotina?
Acordo por volta das 9h, tomo café da manhã até às 11h, com o laptop de lado. Depois vou pro Estadão e passo o dia inteiro na frente do computador. Chego em casa umas 20h e lá pelas 22h volto à rede. Não assisto mais televisão, é cada dia mais evidente que é perda de tempo. Em vez de ficar largado no sofá, fico escrevendo no computador. Muita gente tem hábitos parecidos com os meus, mas usa a rede mais para absorver conhecimento do que para difundi-lo. Aí do mesmo jeito que muita gente, quando fica sabendo de algo novo ou interessante, forwardeia para os amigos, eu posto no Sujo. Mistura isso com links para as coisas que eu faço fora da internet – frilas, debates, festas – e daí essa sensação que eu estou sempre online. Mas posso te garantir que passo umas 10 horas por dia na horizontal…

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