Esse ano, o fantasma de Machado de Assis assombrou o mercado editorial até não poder mais. Milhares de títulos – e alguns bem cretinos – tomaram os espaços das livrarias como forma de homenagens e barganha econômica em cima do nome do Bruxo do Cosme Velho. Afinal, mercado é mercado, e cara-de-pau não existe por existir. Mas, obviamente, nem só da amargura de tantos inúteis títulos acerca do (incontestável) maior escritor brasileiro viveu o ano das editoras brasileiras. Satisfeitos com a boa safra – mesmo que não melhor que a do ano passado, vale ressaltar – nós d’O Grito! elencamos não precisamente os dez melhores, mas sem dúvidas dez notáveis livros lançados no Brasil esse ano. A única responsabilidade de seleção é a que deveria valer para qualquer lista de livros: boa literatura e um tanto de afeto.

Por Talles Colatino

10
CARTA A D – HISTÓRIA DE UM AMOR

André Gorz (Cosac & Naif)

Carta a D carrega dois grandes feitos: o de ter quebrado o preconceito que já chega ao mercado com ares de best-seller e ter posto uma editora tão elegante quanto a Cosac Naif num patamar mais condizente com a qualidade dos títulos que edita. Não se trata de um grande texto, mas carrega consigo uma densidade afetiva que acaba engrandecendo sua narrativa simples. Carta a D é a autobiografia do amor entre o autor, o austríaco André Gorz e sua esposa, Dorine, vítima de um erro médico, que deixou seqüelas graves. E diferente da maioria que se dedicam a narrar histórias de amor, Gorz prova destreza ao não cair na armadilha de um melodrama degenerativo. E usou a literatura para tentar entender os limites que o amor nunca faz questão de apresentar de cara.

9
CONTO DO AMOR

Contardo Calligaris (Companhia das Letras)

O romance de estréia do psicanalista e cronista Contardo Calligaris consegue contruir um panorama interessante acerca da construção da identidade humana em dois tempos distintos (e tão distintos) da história social. Entre os limites do real e do imaginário, a história tem como protagonista Carlo, também psicanalista, que começa a transitar entre a realidade de ter perdido seu pai recentemente e o fato dele, uma vez, ter confessado que em outra vida fora ajudante do pintor italiano Sodoma. Na Itália, ao se deparar com um convento repleto das obras de Sodoma, Carlo parte para uma tarefa de autodescoberta, que vai se desdobrando e, de alguma forma, fortalecendo os laços entre o protagonista e seu falecido pai. Instigante e bem dosado, Conto do Amor carrega os tons psicanalíticos dos já conhecidos contos de Calligaris, que felizmente também ganharam fôlego sustentável em narrativa longa.

8
GALILÉIA

Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara)

O livro do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, à primeira vista, soa como um desprendimento da áurea sertaneja que assola sua literatura desde sua estréia, com A Noite e os Dias. Mas a história não é bem essa. Galiléia não é um tributo à condição de Brito enquanto escritor, mas sim um reflexo da condição humana que, de tão simples, pode soar complexo para quem tentar entender todas as entrelinhas: o espaço está tão solidificado em cada um que nem o tempo é capaz de fazer diluir. O livro narra o retorno de três primos ao sertão, local do qual, que cada um, por cada motivo, decidiu cortar laços. Mas é como se o sertão, que mais se aproxima do universal de Rosa que o mítico de Ariano, já tivesse cravejado, nos três, seus próprios destinos. Galiléia, primeiro romance de Brito, é um livro sobre desencontros e encontros pulsantes e cortantes, que somam elementos clássicos numa narrativa contemporânea. Tudo isso na grandeza de um sertão adimensional.

7
RASIF: MAR QUE ARREBENTA

Marcelino Freire (Record)

Marcelino Freire é hoje, ao lado de Raimundo Carrero, a voz pernambucana de mais força no cenário nacional. Mas isso, definitivamente, não é gratuito. Com Angu de Sangue e Contos Negreiros, ele conseguiu contrair uma dívida com a sempre trágica condição humana do homem contemporâneo. E paga essa dívida com maestria em Rasif. A começar pela bela edição que ganhou da Record, na qual os contos que formam o livro ganham ilustrações do artista gráfico paulista Manu Maltez, que complementam e desdobram a narrativa. Os textos de Rasif atingem limites máximos ao retratar temas como miséria e violência de maneira sarcástica, crua, fria. É para ser lido como parece ter sido escrito: com urgência. Mas ela não precisa partir do leitor: o pique da narrativa de Freire leva quem se arrisca a essa sintonia.

6
DIÁRIO DE UM ANO RUIM

J.M. Coetzee (Companhia das Letras)

O escritor sul-africano J.M. Coetzee venceu o prêmio Nobel em 2003 e tem uma obra considerada pela academia como um libelo contra o poder e a opressão. Diário de um Ano Ruim sintetiza bem a voz firme de um dos melhores escritores da atualidade, que soube ser apontado pela Academia e, como ninguém, apontar – através da sua literatura – os incômodos humanos e sociais. Nele, a um velho escritor é encomendado um livro com suas opiniões a respeito de temas atuais, como terrorismo, conflitos étnicos, experiências genéticas. Mas devido a sua idade já muito avançada, ele grava suas idéias para que uma jovem e atraente transcreva. É, como o próprio livro se explica em sua apresentação, um “livro dentro de um livro”. Mas ele ganha dimensões maiores e extremamente profundas a partir da relação desses dois personagens e no casamento do mundo real dentro de um imaginário que, nem sempre, fica claro que seja ficcional.

5
ACENOS E AFAGOS

João Gilberto Noll (Record)

Acenos e Afagos tem dos outros livros de Noll a pouca contundência de um personagem atormentado. Nessa verdadeira epopéia, o escritor gaúcho nos dá, num sopro de um único parágrafo, um libidinoso panorama do drama humano perante sua própria identidade. Na tentativa de construir sua história, a partir de um determinado momento de sua vida, pautada nos seus incontroláveis impulsos sexuais, o personagem acaba se tornando vítima de seu próprio desejo. E acaba pagando seus limites com a descaracterização do seu sexo. Numa verdadeira transmutação, ele ou ela acaba por desabar em epifanias que vão revelando o que ele poderia ter conquistado no mundo que resolveu renunciar para concretizar um amor tão maquinado quanto o que sentia por um amigo engenheiro. Entre o amor platônico e sexo banal, existe uma ponte. E Noll soube construir com maestria um personagem que optou pelo perigo de estar nas duas extremidades, ao mesmo tempo.

4
CORDILHEIRA

Daniel Galera (Companhia das Letras)

Para escrever Cordilheira, o escritor paulista Daniel Galera viajou à Argentina. A proposta era da coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, que convidou 17 escritores brasileiros para escreverem histórias de amor ambientadas em várias cidades do mundo. A simpática idéia rendeu a Galera certamente seu melhor livro e forte candidato a livro brasileiro do ano. Já vencedor de alguns prêmios, como o da Fundação da Biblioteca Nacional e o Prêmio Machado de Assis de Romance, Cordilheira é uma agradável investida de Galera no universo feminino de uma protagonista que, assim como ele, é uma das apostas da nova literatura brasileira. Quando vai acompanhar ao lançamento do seu livro na Argentina, recém-saída de um relacionamento e ainda sofrendo a dor da perda de uma amiga suicida, a personagem começa a encontrar seus limites individuais à medida que começa a se relacionar com um fã argentino. O livro propõe, dentro do texto passional de Galera, uma reflexão extremamente contemporânea do limites do ser humano moderno, acostumados com mais perdas que ganhos e mais desencontros que encontros. E na tentativa de se salvar, cada um acaba elegendo seu abismo e escolhendo sua profundidade.

3
DELÍRIO

Laura Restrepo (Companhia das Letras)

A colombiana Laura Restrepo é um exemplo feliz de autora latino-americana que conseguiu driblar a estigma ainda tão presente do realismo fantástico na literatura desse continente. E apesar de estar debruçada numa outra vertente tão característica da produção da América Latina como a política, Restrepo lançou em 2006 lá, mas só chegou esse ano aqui um dos livros mais emblemáticos dos últimos cinco anos para nós, americanos dos fundos. Delírio soa pretensioso, mas na verdade é um retrato extremamente afetuoso sobre um homem que, agora voltando para casa depois de uma viagem de negócios, reencontra sua mulher fora do juízo normal. Na tentativa do personagem de descobrir o que aconteceu com a esposa, Laura Restrepo vai trançando um emaranhado de histórias que termina num enredo fascinante, delineado pelo passado da mulher. E dentre as várias face que Delírio toma para si está um verdadeiro panorama político da Colômbia contemporânea, impulsionado pelo relacionamento de um antigo amante da esposa com um grande traficante do país.

2
A ELEGÂNCIA DO OURIÇO

Muriel Barbery (Companhia das Letras)

Quando lançou A Elegância do Ouriço no seu país de origem, a francesa Muriel Barbary conquistou um posto tão difícil quanto merecido. Ele é um romance filosófico, recheado de citações de pensadores, escritores e músicos, contemporâneos ou não, que ajudam Barbary a desvendar ao leitor a história da viúva Renée, uma ranzinza zeladora de um prédio de luxo no coração de Paris. Ela passou a vida tentando esconder dos outros o quem na verdade é: uma mulher extremamente inteligente, fã dos escritores russos e um apuro refinado para qualquer ocasião. As únicas pessoas que reconhecem esse lado são sua única amiga, uma simpática empregada portuguesa e um japonês viúvo que acaba de se mudar para o prédio, que consegue cair nas graças da recatada senhora. Fora eles, cabe a Paloma, uma criança de 12 anos desconfiar até descobrir quem é de fato Renée. E é na relação de Paloma e Renée que o livro abre um painel de análises psicológicas acerca do comportamento humano. Dos mais doces aos mais amargos. Entre os devaneios de Renée ao diário de Paloma, nasce o livro de Barbary que corresponde diretamente, tanto sentimental quanto estruturalmente, à elegância do título.

1
ÓRFÃOS DO ELDORADO

Milton Hatoun (Companhia das Letras)

Numa novela de pouco mais de 100 páginas, Milton Hatoun comprova sua maestria enquanto um dos maiores brasileiros da atualidade. Talvez ao lado de Cristovão Tezza e Bernardo Carvalho seja, hoje, o que o Brasil tem de melhor a apresentar para o mundo em se tratando de produção atual. Depois de Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte, chegamos a Órfãos do Eldorado sem grandes diferenças estruturais. O problema é que Dois Irmãos e Cinzas do Norte, já são, em si, pontos altíssimos da produção de Hatoun enquanto romancista. Sobraria, de qualquer jeito, espaço para crescer ainda mais. Não que não seja possível, claro. Mas o fato é que Órfãos do Eldorado é, sim, um grande livro que honra cada sílaba da palavra literatura. O mote da história é o naufrágio de um navio cargueiro alemão, onde estava Aminto, em Manaus. Isso há poucos dias da Segunda Guerra Mundial. Mas a matéria do autor aqui, definitivamente não é histórica. Trata-se de um verdadeiro tratado sentimental construído no coloquialismo e nas referências tão brutas quanto belas de um escritor que, abraçado em suas raízes, conseguiu fazer um grande tributo à sua terra. E, o melhor de tudo, soube dividir com seus leitores.

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