O Céu de Suely

O BRASIL DE SUELY, NASCIMENTO, AUXILIADORA
Em um ano marcado pela variedade dos roteiros, o cinema brasileiro mostrou uma de suas melhores safras
Por Gilberto Tenório

Suely é uma jovem que busca a felicidade dentro de um cotidiano árido e sem perspectivas. Auxiliadora é uma garota explorada pelo avô e pelo sistema latifundiário falido da Zona da Mata pernambucana. Capitão Nascimento é um “herói” imperfeito que luta contra o crime organizado no Rio de Janeiro e também contra os seus demônios pessoais. Esses foram os três personagens que marcaram as telas brasileiras neste ano. Cada qual com suas particularidades, levantaram debates por todo país e fizeram o público pensar além dos dramas da classe média urbana. Com isso, transformaram o ano de 2007 num dos mais importantes para a cinematografia brasileira.

Karim Aïnouz já tinha dado o seu recado no impactante Madame Satã. O longa que contou sem pudores a história de um personagem integrante de várias minorias (preto, pobre e homossexual) foi de uma sinceridade emocionante e, de quebra, ainda revelou o talento do ator Lázaro Ramos. Com O Céu de Suely, o cineasta deu um passo adiante e se firmou como um dos mais sensíveis diretores do Brasil. Interpretada na dose certa por Hermila Guedes (outra grata surpresa do ano), Suely representou o cotidiano de muitos brasileiros que, sem um presente digno, anulam a expectativa de um futuro idem. A saga da mulher que rifa o próprio corpo para conseguir comprar uma passagem “para o lugar mais longe que tiver” foi contada de uma forma enxuta e honesta, amparada por um belo roteiro. No mundo de Suely nada acontece e suas emoções parecem estar congeladas dentro do marasmo sócio-emocional no qual está inserida. Uma aula de como fazer um cinema simples e cativante.

Se com Amarelo Manga Cláudio Assis esmiuçou o submundo recifense, com Baixio das Bestas o cineasta lançou sua câmera ferina para a Zona da Mata pernambucana. Região que já teve seu apogeu em outras épocas, hoje é um reduto da decadência moral e econômica do Estado. Dentro desse cenário, Assis conta a história de um grupo de pessoas que mais parecem personagens do Naturalismo do século 19 tal a falta de humanidade, e humanização, com a qual elas estão presentes na sociedade. Personagens como a garota explorada pelo avô, os “agroboys” escrotos e a prostituta interesseira são o retrato de um país que esconde as suas feridas sob o manto da hipocrisia. Com as cenas mais fortes já vistas no cinema nacional, o diretor agradou, mas também enojou muita gente. Não deixou, entretanto, ninguém indiferente a sua crônica ácida e cruel da realidade nacional.

A ligação entre violência e tráfico de drogas já foi retratada inúmeras vezes pelas produções brasileiras. Contudo, nenhuma análise dessa relação foi tão contundente e polêmica como a apresentada em Tropa de Elite, longa de Sérgio Padilha, diretor que ficou nacionalmente conhecido pelo premiado Ônibus 174. Ao levar para as telas a rotina do BOPE (o grupo de operações especiais da polícia carioca) e a intersecção entre a classe média e os traficantes, a película se transformou em um fenômeno. Levantou discussões tão variadas como a parcela de culpa das classes mais abastadas na violência urbana e a questão da pirataria no meio áudio-visual. Gostando ou não do filme, é inegável que o Capitão Nascimento e companhia “pegaram geral” o público.

A safra 2007 do cinema brasileiro ainda contou com títulos como O Cheiro do Ralo e O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, belos exemplares de uma indústria que tem aberto novos caminhos e buscado a diversificação para retratar um pouco do que é o Brasil.

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