Mayara Lista é uma entusiasta da presença do imaginário brasileiro nos quadrinhos. Sua primeira HQ impressa, Naruna, foi viabilizada por financiamento coletivo e chega como um dos principais lançamentos do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. Trabalhar com imagens, lendas e características próprias da cultura brasileira, aliada a uma narrativa e traços originais, é bastante interessante para os quadrinhos brasileiros em sua busca por uma voz própria.

Naruna – Uma História Sobre Esculpir Travessias foi inspirada nas lendas ribeirinhas e na arte centenária das carrancas. Mayara pesquisou essa cultura por mais de um ano e participou de diversas festividades, encontros, visitando na fonte o trabalho de mestres artesões do rio São Francisco. “O Brasil é um país enorme e é fascinante voltar atenção para as pequenas manifestações populares que dizem muito sobre o nosso povo”, diz Mayara.

Batemos um papo com Mayara sobre essa sua primeira HQ.

Me fala um pouco de Naruna. A HQ foi inspirada na lenda ribeirinhas das carrancas, certo?
Naruna é fruto de um ano de pesquisa sobre o universo do imaginário popular do Brasil. Foi meu projeto final de graduação em Comunicação Visual Design na UFRJ, onde eu resolvi unir dois assuntos que eu amo e que me interessam muito: quadrinhos e cultura brasileira. Conforme fui pesquisando e afunilando o recorte acabei encontrando nas lendas ribeirinhas e nas carrancas os elementos perfeitos para desenvolver a história.

Trabalhar com o imaginário de uma região é sempre um desafio. Como foi levar as lendas, imagens e elementos para a HQ?
Essa foi uma parte muito gostosa do processo! O projeto começou de forma muito aberta, eu estava procurando um contexto para a história que eu queria contar, e ao mesmo tempo passei a descobrir mais sobre as crenças e tradições do nosso país. O Brasil é um país enorme e é fascinante voltar atenção para as pequenas manifestações populares que dizem muito sobre o nosso povo. Durante o ano de pesquisa eu fui em festividades populares como a Festa Chita, visitei lugares como o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, o Centro de Artesanato Brasileiro (CRAB) e a Galeria Pé de Boi. Tudo o que me chamava atenção eu registrei no blog .

Mas como se deu sua aproximação com a cultura ribeirinha?
Eu comecei me voltando para o imaginário popular brasileiro de um modo geral e sobre as festas populares de todas as regiões do país. Uma coisa foi levando a outra até que eu cheguei aos artesãos do Rio São Francisco. Através deles, encontrei as imagens das carrancas e os mestres carranqueiros. Conhecer mais sobre as carrancas foi uma diversão à parte!

Você tem experiência com storyboard, ilustração, designer, mas essa é sua primeira HQ. Como está encarando o desafio?
Publicar uma HQ é um sonho de menina virando realidade! Essa é a primeira história que público, mas eu já brincava de fazer minhas revistinhas desde criança. Como muita gente, eu cresci lendo quadrinhos e mangás. Inclusive, guardo até hoje um trabalho do primário onde falo do meu sonho de ser “mangaká” (haha). De certa forma, foi o contato com as HQs que me levou ao design e à ilustração. Então, fazer quadrinhos já era um sonho antigo que agora estou me permitindo viver. Foi um desafio imenso porque precisei assumir vários papéis: roteirista, quadrinista, designer, editora…. Essa experiência me fez vivenciar o quão trabalhoso é produzir uma HQ e como é difícil dar conta de toda essa produção sozinho. Hoje tenho ainda mais respeito por quem trabalha com quadrinhos, especialmente no Brasil. Estou amando e já tenho planos de fazer muito mais!

A obra foi financiada por crowdfunding (via Catarse). Para uma estreia em HQ chama atenção que você já chega com uma narrativa longa em formato livro. O que achou da experiência?
Enquanto eu criava a HQ Naruna ainda não tinha certeza se tentaria um financiamento coletivo, mas a história foi pensada com início, meio e fim, de forma que fosse viável em um volume único. Quando a HQ Naruna ficou pronta recebi muito incentivo dos amigos para que tentasse publicar a história. Como a intenção era que Naruna chegasse às mãos do máximo de pessoas possível e despertasse interesse na cultura brasileira (através de uma ficção), resolvi me arriscar no Catarse! Foi uma experiência muito bacana fazer a campanha e receber o apoio de gente que eu nem imaginava, ver o engajamento das pessoas me deixou muito feliz. Aprendi bastante com o que deu certo e com o que não deu.

Pode falar um pouco do seu processo criativo? Seus desenhos tem cores muito bonitas e um traço e pintura expressivos. Como chega ao resultado final?
Uma das coisa que eu gosto do meu trabalho é que ele está sempre mudando. Antes eu costumava a ver isso como um problema, mas hoje encaro como uma qualidade, pois estou sempre experimentando novos estilos de traços e técnicas. Isso deixa todo o processo mais divertido porque me sinto em constante aprendizado e descobrindo que posso fazer algo diferente todo dia. Uma coisa que me ajudou muito, especialmente na expressividade do desenho, foi começar a dançar. A dança foi fundamental para que meu desenho amadurecesse. Sobre o meu processo, acho que a parte mais divertida é a fase dos esboços, pensar na composição, nos gestos, nos elementos da cena…todos esses fragmentos que vão contando a história da imagem. É a fase mais despretensiosa, onde nada é definitivo, é como se você fosse um coreógrafo ou um diretor de cena. Muito antes de pensar na função das carrancas de Naruna eu comecei a ter uma ideia melhor da história através de cenas feitas dessa forma.

Naruna estreia em meio a um cenário de quadrinhos bastante movimentado no Brasil. Como você vê (ou melhor, sente) esse atual momento?
Eu sou muito otimista com o cenário de quadrinhos no brasil. Tenho consciência de que ele é feito com suor e lágrimas de artistas e editores muito apaixonados e, para mim, é uma honra começar a buscar meu lugar ao lado dessa gente que sou fã! O quadrinho brasileiro é quadrinho de guerrilha. Nos últimos anos a quantidade de selos e editoras especializadas em quadrinhos no Brasil aumentou, surgiram novos jovens artistas com os mais variados estilos, e todos com qualidade impecável. As edições ganharam tratamento especial e até de luxo, eventos importantes como o FIQ tem atraído cada vez mais público para as feiras e festivais de HQs e cultura pop. Plataformas digitais como o Catarse e canais de divulgação nas redes sociais contribuem enormemente para que novas publicações cheguem ao conhecimento do público leitor. Tudo isso me faz crer que vivemos um momento de ascensão, mas ainda tem muito chão pela frente até que se confirme qual é, de fato, o modelo de mercado de quadrinhos ideal para nós. Acredito que os quadrinhos são um terreno fértil para falar do Brasil para o Brasil e (por que não?) para o mundo.

Que artistas mais te influenciaram na produção de quadrinhos? Que nomes você descobriu recentemente?
A quadrinista que marcou minha vida foi a Rumiko Tahakashi [N.E.: autora de Ranma 1/2, entre outros]. Acho sensacional como ela consegue fazer qualquer tipo de história ficar interessante, transitando entre histórias longas e curtas, do horror a comédia. Foi lendo os mangás dela que eu nutri a vontade de fazer quadrinhos na infância. Sou muito fã do Cyril Pedrosa, do Jorge González e da Jen Wang. Recentemente, eu me apaixonei pelo trabalho do Enrique Fernandez e do brasileiro Wesley Rodrigues.

Depois de Naruna, o que você planeja para o futuro?
Além de Naruna, vou lançar no FIQ uma HQ chamada Hoje eu durmo cedo, feita em parceria com minha amiga Paula Cruz. É o primeiro quadrinho que publicamos com nosso selo recém-criado, a Farpa Editora. É diferente de tudo que eu já fiz e foi o projeto mais divertido que eu já participei. Quero produzir mais quadrinhos ainda esse ano. Agora que comecei não paro mais! :D

Mais do trabalho de Mayara Lista no site da autora.

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