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TEENAGERS MUST DIE OU A IMPORTÂNCIA DO SILÊNCIO

Tem coisa mais abjeta que comportamento adolescente? Na verdade não me refiro apenas a aquelas pessoas de idade entre 13 e 19 anos. É muito mais uma coisa mental e de postura do que cronológica. Aliás, se a adolescência estivesse restrita apenas a esta faixa etária, o mundo seria um lugar infinitamente melhor pra se viver.

O incômodo não é de hoje. Mas a coluna tomou forma ontem a noite, durante a apresentação do Hurtmold no Eletronika, em Belo Horizonte. Explico: os paulistas se apresentaram após o show de Mallu Magalhães, a menina de 15 anos que agora tem 16. Nada contra ela, que fez até um bom concerto. Para minha infelicidade, eis que, sentado na primeira fila, assistindo à uma apresentação no mínimo sublime da melhor banda brasileira da atualidade (my humble opinion) três crianças sentam atrás e no intervalo de uma música para outra gritam: “toca Raaaullll”. Uma vez. Risadinhas. De novo: “TOOOOCAAAA RAAAAAUUULLLLL”, mais alto. Constrangimento. Cólera. Vergonha. Passam-se uns dois minutos e eles falam “ah, vamos ficar lá fora”. Abençoado seja.

O que mais incomoda em adolescente não é o corpo ainda em formação, o cheiro ruim que exalam e mentalidade primária, mas principalmente o barulho e a necessidade terrível de aparecer. Como são barulhentos! Como fazem questão de falar, comentar, chamar atenção o tempo todo! Os três infelizes, naturalmente, não estavam ali para ver o show do Hurtmold nem tinham cabeça suficiente para entender o que saia dos PA’s, mas ao invés de ir para casa dormir cedo e não incomodar os demais, preferiram fazer “piadinhas” dentro do Grande Teatro do Palácio das Artes, no melhor show do festival. Não sou capaz de descrever o asco e desprezo que me sobrevém em ocasiões do tipo.

Repito: a questão não é puramente cronológica. Há gênios, há pulhas, há imbecis de todas as idades, já disse Nelson Rodrigues. Se numa criança é aceitável, a coisa fede ainda mais quanto constatamos comportamento adolescentes em supostos “adultos”, dos 20 aos 80, é o que mais se encontra. Você se dá conta da desgraça quando, por exemplo, não se consegue falar em “sexo” sem risadinhas imbecis. Quando discussões tornam-se apenas disputas patéticas de ego. E por aí vai.

Os jovens, ah, os jovens. Vou ser sincero: não tenho paciência com a “juventude”. É raro conseguir suportar a companhia de mais de cinco minutos de 90% dos chamados “jovens”. Encontram-se naquele meio termo em que ainda não saíram da adolescência e não criaram mentalidade adulta. Ainda bem que as exceções existem.

Há uma frase de George Bernard Shaw (possivelmente um dos meus cinco autores favoritos), uma das maiores cabeças do século XX, em que ele diz: “A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.”

Difícil imaginar algo que resuma tão bem a questão. Pode anotar: gente barulhenta, que adora chamar a atenção e tem necessidade de expressar-se todo o tempo, são tremendamente inseguras, estúpidas e insuportáveis. Necessitam sempre da aprovação alheia. Não conseguem pensar sozinhos. Perdem muita energia falando, querendo aparecer, e não sobra tempo pra leitura, pro raciocínio. Pra mim, quanto mais barulhenta uma pessoa é, mais detestável se torna. Muito do fundamental está no não-dito.

O intelecto se desenvolve com o silêncio. É o silêncio uma das condições fundamentais para uma boa fruição da arte, da vida, dos sentimentos, da inteligência intrapessoal. E é, também, uma das forças mais poderosas que existem. A melhor e mais lancinante resposta, muitas vezes, não é algo concreto, mas o silêncio. Ele diz tudo que precisa ser dito. Atinge mais profundamente que qualquer outra coisa.

Não a toa que o budismo sempre contou com a minha simpatia. Ou mesmo os cultos orientais de maneira geral. Estão a anos-luz de nós, pobres bestas grosseiras e estúpidas do ocidente. Na música, algumas das melhores bandas são aquelas que compreendem a importância que o silêncio tem dentro da sonoridade, da estrutura, do impacto, da capacidade de transmitir sentimentos, ditar o ritmo, envolver o ouvinte. O bom uso das possibilidades do silêncio, por assim dizer, é característica e condição fundamental da melhor música que é produzida. De Pink Floyd a Gang Of Four, é difícil imaginar um grupo realmente fundamental que não tenha a consciência, a habilidade e o talento em lidar com o silêncio, a pausa, a sinestesia, a provocação conceitual e tudo que ele traz.

Música é aquilo que corta o silêncio. Surge, se desenvolve, forma-se e termina nele. Talvez por isso a música instrumental, clássica, o progressivo, o jazz, o post-rock e congêneres, sempre teve lugar de destaque na minha formação. Para ir além, dá pra citar Beatles, Allman Brothers, Black Sabbath, Genesis, Van Der Graaf Generator, Mozart, Pere Ubu… todos díspares porém todos com uma rara noção de se trabalhar o silêncio.

Tenho pouca didática com adolescentes. Na minha época, sempre me achei profundamente distante da maioria dos colegas. Pessoas velhas sempre foram uma recorrente em minha vida. Não que idade seja sinônimo de inteligência e garantia de algo, mas os jovens que não são imbecis e estúpidos, são poucos. E se pensarmos que 90% da “cultura” é produzida tendo como foco os adolescentes, o principal público consumidor, o prospecto não é muito positivo. Quem nunca sofreu com a falta de educação num cinema? Quem nunca teve a infelicidade de conviver com um adolescente estúpido, ou mesmo foi um? Às vezes, a vergonha do que éramos no passado serve muito bem para constatar o quanto evoluímos enquanto pessoas, enquanto “humano” no sentido mais amplo e piegas que possa existir. O pior é que muitos morrem sendo eternos adolescentes. Há que se ter consciência para lidar com estes seres no trabalho, nos locais públicos, nas discussões, etc.

Damos pouquíssimo valor ao silêncio. Gostamos muito de aparecer e pouco de pensar. Maturidade e comportamento discreto são extremamente raros: especialmente neste lado do globo e especialmente numa sociedade que teve uma formação como a nossa.

Está iniciada a campanha. Enjoy The Silence. Desfrute o silêncio. Não demorará muito para se observar os efeitos. É nele que a inteligência, os sentimentos e a sensibilidade se desenvolvem. É condição essencial para quem quer se manifestar. Acaba aqui a lição de filosofia barata e auto-ajuda da semana.

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[+] Maurício Angelo é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site Movin’ Up e o podcast Crimidéia.

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