Só pra te ver, meu bem
Por Maurício Angelo

Roberto Carlos é só um velhinho esquisito que canta as mesmas músicas de sempre e distribui rosas em cruzeiros cafonérrimos para senhoras e coroas ao redor do Brasil. Na média, é o que pensa a juventude de hoje sobre RC. É bem provável que a massa que entoa “além do horizonte/existe um lugar/bonito e tranquilo/pra gente se amar” nos shows do Jota Quest nem imagina quem é o autor da composição.

Mesmo o conturbado “Acústico MTV”, de 2001, não foi suficiente para apresentar RC à esta turma. E memória, a gente sabe, não faz parte das “virtudes” do povo brasileiro. É dessa forma estranha, menosprezado pela sua figura atual e adorado em regravações de clássicos por bandas mais jovens, digamos, que Roberto Carlos sobrevive no imaginário popular de quem está na faixa dos 20. Não há culpados.

Sempre olhei Roberto com admiração. Antes de qualquer coisa, o motivo é simples: Espírito Santo. O estado, não a entidade. Não costumo cair na armadilha fácil do bairrismo. Mas, para um capixaba, é difícil não valorizar um dos únicos artistas consagrados que saíram da sua terra. Pra quem gosta de números, dizem as estatísticas que RC vendeu mais de 100 milhões de discos. É o artista de maior vendagem da história na América Latina, superando inclusive os Beatles na região. Feito considerável para um menino de Cachoeiro.

Não sou de Cachoeiro. A cidade, uma das mais importantes do ES, fica no sul do estado. Eu nasci no norte. Na verdade, nunca cheguei sequer a visitar. Mas ela povoa a minha imaginação desde cedo. Por coincidência, outro ícone da cultura capixaba também nasceu lá: Rubem Braga. Reconhecidamente um dos maiores da literatura brasileira em todos os tempos. O cronista, na prática, foi quem me ensinou a ler. Devorei com insaciável curiosidade quase toda a obra de Braga. Da descoberta numa biblioteca de escola pelos idos da 5 série em diante, um abraço. Impossível não se encantar.

Daí que você passa a compreender melhor a aura sentimental e melódica tão forte em Roberto. A aparente simplicidade de expressão que só os gênios possuem. Como quem não quer nada, querendo tudo. E ele chegou lá. É nossa estrela maior. O rei. Assim, em minúsculas. Em decadência. Mas o rei.

Chamá-lo de “decadente”, na verdade, é fácil demais. Parte da difícil equação em equilibrar o envelhecimento da pessoa, Roberto, com o envelhecimento da carreira artística. Acontece com frequencia. Saber a hora de parar. Ou não.

Claro que Robertão não é infalível. A histórica chapa branca. O catolicismo irritante e o romantismo cansado. Parte dele. Parte “contribuição” do TOC. A influência, positiva e negativa, na música brasileira.Deslizes perdoáveis. Quem tem 50 anos de carreira pode fazer o que bem entender da sua vida. Nem precisaria de tanto. A nós, mortais, resta agradecer. Ninguém é obrigado a gostar de RC. Como de nada, aliás. Mas descartar a sua discografia de antemão é atestado de estupidez.

Fica a referência: Roberto e Rubem. Bela sugestão para qualquer dia. Dois nomes que parecem destoar do pedantismo da maioria dos nossos “artistas”, congêneres, simulacros e aspirantes. Um versinho e nada mais:

Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.”
RB, em “O Verão e As Mulheres”
Brasília, 09 de maio de 2009.
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