Pollock Number One 1948

Entropia

Não se reconhecia. Parecia que tinha definhado, apesar de crescer. Era difícil tirar a sujeira do olho. O lodo da alma. Estava pesado. Um leopardo num corpo de paquiderme. Comparações ruins. Analogias patéticas. Fastio. Escrevinhador barato. Muito barato. E nem pra isso servia.

Coisas inacabadas. Coito interrompido. Urro em silêncio. Não tinha vergonha. Aprendera não ter. Estava domesticado. Manso. Ridículo. Cego, surdo, mudo. Gordo. Tommy jogando pinball. Sem paciência. Sapos. Rãs. Gatos. Pedras. Ínguas. Always the same shit. Nothing really changes. Everything stays the same. Erro.

Letargia. Involução. O mal venceu. Sem combustível. Sem rosto. O menino brilhante mergulhando na privada sem volta. A nostalgia sempre é mais encantadora que a realidade. Auto-repetição. Retrocesso. Já tinha dito tudo. Cedo. Rápido demais. Nada mais adorado e estimulado do que a estupidez virginal.

Era péssimo ator. A idéia da limitação não se apresentava meramente opressiva, inaceitável. Mas constituia motivo de profundo tormento e desilusão. Limitação e ansiedade. A origem de toda desgraça, todo conflito. Medo, revolta, ira, ódio, torpor. Lamentações risíveis.

A capacidade que alguns tinham de mergulhar tão profundamente no kitsch (e na ignorância) achando-se dotados da personalidade mais singular do mundo já não causava pena. Acabavam sendo divertidamente admiráveis.

Mediocridade (no sentido pejorativo). Pobreza (física e intelectual). Arrogância injustificada. Auto-comiseração, retrocesso, repetições, miserabilidade, religiosidade, regras morais, vida alheia. Esquecer o que sabia. Fazer abaixo do que era capaz. Despolitização, apegos hipócritas, teorias e práticas desnecessárias. Desperdício e ignorância. Tudo isso o aborrecia e causava repulsa, ódio e nojo mais do que tudo. A ponto de bloquear seu cérebro

Diziam que blefar é tarefa simples. Engano. Até para a mais vil e odiosa das ações é necessário talento.

Maurício Angelo, Brasília, 20 de junho de 2009.

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