Das paixões

Não faço nada pelo qual eu não seja apaixonado. É isso. Não abro mão da paixão. Se ela não existir, não me interessa. O nobre leitor pode estar imaginando que este escriba é um abençoado que goza do privilégio de apenas fazer aquilo que lhe apetece. Longe de mim. Ainda não cheguei a tanto.

Contudo, fazer algo que você na realidade não gosta não significa ir contra o principio da paixão. Muitas vezes, e já escrevi isto em peças anteriores, você faz algo desagradável apenas para financiar, ou ter a possibilidade, de alimentar e exercer sua paixão. Ou seja, no fim, tudo acontece e é pensado de acordo com ela.

Se assim não for, não  vale a pena. Porque você deveria passar a sua vida inteira fazendo coisas das quais não gosta e não lhe propiciam nenhum benefício? Aquele papo de que a vida é curta, aproveite o máximo, bla bla bla, é batido e clichê, mas verdadeiro. Aliás, clichês e ditados populares dizem mais sobre nós mesmos do que gostamos de admitir. Ou são convenções testadas e comprovadas ou tratam-se de puro conhecimento milenar traduzido em frases simples, de efeito.

Não é engraçado como temos vergonha do que é popular? Como renegamos o que é básico, humilde e muitas vezes tão dentro da nossa realidade. Não há nenhum problema em gostar, também, do que é “de massa”.

Felizmente, sempre tive minhas paixões muito bem definidas. Nunca passei pelo dilema de não saber o que “queria ser”, que profissão seguir, o que travar contato na minha vida. Claro que, como toda criança, você se forma. Mas desde cedo foi muito evidente o que era atrativo pra mim, o que dava gosto, graça, tesão, interesse, prazer, descoberta…

Há muito pouco glamour no jornalismo. Quase que inteiramente para quem vê de fora. Ainda hoje, não sei se é disso que vou viver pelos próximos anos. Se não estou satisfeito, pulo fora. Pode ser menos complicado do que parece. E isso nao significa que vou deixar de escrever, entrevistar,  tecer minhas observações, análises, devaneios.

Nada me impede disto. Não é minha formação acadêmica, um pedaço de papel, que define a minha vida, minhas atividades e minhas paixões. Ele pode ser importante para, também, conquistar “respeito”. Mas o respeito e reconhecimento só vem mesmo através daquilo que você é, o que você faz, não de um título que muitas pessoas podem ter.

Vê-se que sou um romântico. Descendência italiana. Câncer com lua em gêmeos e ascendente em leão. Difícil não ser: sensível, intenso e inflamável.

O presuposto básico da vida é conhecer a si mesmo (Templo de Apolo, hum?). Há milhares de anos que a frase é notória. Mas, como disse David Foster Wallace, “a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida”.

Pensamento que resume grande parte das dificuldades e angústias da vida. O que está mais próximo a nós, o que nos é mais íntimo e presente, é o mais difícil de enxergar. Inteligência intrapessoal (trabalhada e posta em prática permanentemente) é a mais árdua de se obter.

Um pequeno exemplo de que o “óbvio ululante” costuma ser um dos maiores mistérios possíveis. Nesta brincadeira toda, o importante é ter paixão. E todo o resto lhe será acrescentado.

Maurício Angelo é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites Movin’ Up, Crimidéia e Brasília 50 Graus.

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