Há uma característica comum à maioria do público que lê sites como O Grito, a Movin’ Up, inúmeros outros citados em colunas anteriores, vai a shows e festivais geralmente cobertos por estas mídias…. Essa característica pode ser definida por três palavrinhas bem conhecidas: “alt cult indie”. Ou, traduzindo em bom português, “cultura alternativa independente”.

O termo define não só uma gama imensa de produtos culturais bem como um comportamento comum entre o público que acompanha esta “cena”, estendido ao tipo de roupa que usam, o que bebem, os lugares que freqüentam, a maneira de se expressarem, aparecer, “criticar” e transitar entre tudo que as palavrinhas abarcam.

É curioso e engraçado destrinchar algumas das (tsc) “idiossincrasias” deste grupo. Primeiro, “alt’s cult’s indie’s” não gostam de serem enquadrados ou se assumirem como tal. Não aceitam serem definidos por rótulo nenhum. Todos os indie’s não seguem nenhum padrão, sendo criaturas absolutamente originais e independentes, que pensam por conta própria e não aceitam os gostos e opiniões da maioria. Ou nisso parecem acreditar. “Maioria” é palavrão. Estão sempre tentando se “diferenciar” da “massa”.

Daí o alternativo. São coisas que apresentam formas diferentes de se manifestarem, caminhando “a margem” de algo estabelecido ou brincando com os meios tradicionais de se fazer aquilo. Música, cinema, literatura e pornografia “alternativa”. Alt porn, alt country, etc.

Cult não é só abreviação de “cultura”, como traz um diferencial importante: designa, também, o que se torna objeto de culto. Reúne seguidores fervorosos em torno dele. Além da possível qualidade que possa ter, vira uma espécie de religião, trazendo paixão e admiração quase cega. Há várias bandas e diretores cult. Quentin Tarantino e Talking Heads, por exemplo. A grosso modo, é praticamente impossível travar qualquer debate crítico lúcido em torno de nomes “cult”, já que seus defensores não aceitam qualquer comentário negativo em torno daquilo que gostam. O cult é blindado, quase unânime. Talvez seja o status mais perigoso e delicado dos três.

Já a independência do indie é curiosa. Muitos dos artistas “indie” tem contrato com grandes gravadoras e comercializam sua produção nos métodos tradicionais do mercado, para ficar apenas no âmbito musical. “Indie rock” virou inclusive um gênero que até hoje ninguém sabe o que significa. O termo serve para identificar bandas que praticam uma infinidade de estilos possíveis e tem pouquíssima coisa de “independente”. Podem alegar que, mesmo dentro de major’s, bandas “indie” tem autonomia para decidir o que gravar, sem interferência direta no seu trabalho. É discutível. A imensa maioria do que se denomina “indie” não tem independência nenhuma, no puro sentido da palavra.

“Alt’s cult’s indie’s” gostam de aparecer. Sempre tem uma “crítica incisiva” a fazer, algo a falar, um comentário “bem elaborado” e “importante” a tecer. Dão uma auto-importância imensa a si mesmos. Tem o ego lá em cima. Crêem ser as pessoas mais “cool” e descoladas do mundo. Cool poderia até fazer parte do pacote, já que é praticamente um objetivo de vida dos ACI soar cool. Ou seja: legais, bacanas, estilosos, etc.

Por convivermos demais neste meio, passamos a achar que boa parte da população está dentro dos ACI. Na verdade trata-se de um joguinho de espelhos bem limitado, estreito e ridículo. Todos mais ou menos se conhecem. São uma “casta” considerável do jornalismo cultural e da opinião veiculada na internet. Estão todos na mesma toada e convivem com os mesmos problemas e características. No fundo, devem constituir uns 5% dos brasileiros. Classe A/B, 18 a 30 anos na média, universitários ou já “profissionais liberais”, antenados nas “novidades” culturais e estéticas que vem de fora (especialmente Reino Unido/Europa), consciência política zero, enorme capacidade de blefar ou comentar sobre aquilo que desconhece ou sabe muito pouco, apenas o suficiente para poder citar para os amigos.

Ao tentar se desgarrar “da massa” e criar uma “maneira própria” de pensar e se comportar, os ACI forjam apenas um novo estereótipo, uma nova (argh) “tribo”, sendo tão caricata, identificável e ridícula como qualquer outra.

Estereótipos não surgem à toa. São, aliás, decorrente de algo identificado como comum a certo grupo e que, em 99% dos casos, é real. Exceções, também, existem em todo lugar. E há até o “estereótipo da exceção”: aquele sujeito que acha que é exceção a tudo. Eu me encaixo numa infinidade de estereótipos diferentes. Logo, não sou isso ou aquilo, nem exceção à porcaria nenhuma, mas apenas fui e sou formado por coisas, sentimentos, culturas e experiências de diversas naturezas possíveis. Não está certo me encaixar num determinado rótulo nem totalmente errado.

Limitar-se a aquilo é que é o problema. Ao fugir de um padrão, sempre caímos em outro. As pessoas parecem ter dificuldade em compreender que não tem apenas um tipo de mentalidade, gostos e comportamento. Parecem não saberem que são milhares em uma só. Podem ser crianças, adolescentes, adultos, idosos. Ranzinzas, patetas, bestas, burros, gênios. Egocêntricos, idiotas, solidários. Cruéis, indiferentes, sensíveis, vulneráveis, preocupados. Niilistas, religiosos. Alegres, idiotas, deprimidos, insuportáveis. Exigentes, flexíveis, bobos, espertos. Irascíveis, controlados. Duros, entregues. Chatos, agradáveis, ácidos.

Daria para continuar a lista durante muitos parágrafos. Mas você pode completar com tudo que lembrar e quiser. Já se disse por aí que uma das principais características da modernidade é o paradoxo. Creio, na verdade, que sempre foi assim. A graça da vida é essa. Metade dos problemas da humanidade poderiam ser resolvidos se as pessoas não tivessem vergonha de serem humanas, e soubessem lidar com isto, admitindo e aprendendo. Certas coisas nunca mudam. Outras se alteram o tempo todo. Vêm e vão.

Alt, cult e indie são termos usados extensivamente neste meio. E que designa um grupo facilmente identificável de pessoas. Diria que um dos mais insuportáveis que existem. Com um comportamento tão “de rebanho” como os demais. Têm aparência em demasia e polpa de menos.

Quem sabe se soubessem ler, interpretar, ouvir e absorver de fato os produtos culturais que dizem acompanhar, isto mudasse um pouco. Fica a dica. Mais fácil que nascer de novo, pelo menos.

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[+] Maurício Angelo é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site Movin’ Up e o podcast Crimidéia.

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