ROCK SEQUENCIAL
Mateus Santolouco ganha terreno no quadrinho ianque ao mesmo tempo em que produz sólida obra autoral no Brasil com Mondo Urbano
Por Lidianne Andrade

Sair noite adentro sem compromisso, ao som dos clássicos do Kiss e Gun’s Roses, procurando sexo descompromissado. Tudo isso com uma boa dose de “fuckdrina” no sangue. Para muitos o jargão “sexo, drogas e rock’n roll” tinha ficado perdido em meados dos anos 1980, mas o quadrinhista Mateus Santolouco e os ilustradores Rafael Albuquerque e Eduardo Medeiros resgatou o mote na revista independente Overdose, disponível nas comic shops e através do site oficial da publicação.

Segunda revista de uma série denominada Mondo Urbano (a primeira chama-se Powertrio), Overdose traz ao longo de suas 36 páginas, três histórias interligadas sutilmente. Cada uma desenhada por um autor, mudança perceptível na elipse dos contos. A primeira é ilustrada por Santolouco e mostra uma personagem vivenciando a morte de um traficante por overdose. A droga do momento é a “fuckdrina”, talvez com efeitos relacionados a sua tradução literal. “A idéia é criar um universo de histórias interligadas de forma direta ou sutil, através de uma série de livros com abordagens diferentes”, antecipa Santolouco.

Mateus conta com dois nomes de peso do mundo autoral neste projeto: Rafael Albuquerque, atualmente na DC Comics assinado os desenhos de Batman/Superman, e Eduardo Medeiros, ex-animador da Wood & Stock e no momento ilustrador da revista nacional Mundo Estranho. “Conheci o Eduardo em um café há cinco anos. Comentei meu desejo de sair da área publicitária e ele me apresentou ao Albuquerque, na época já trabalhando com quadrinhos. Viramos amigos e começamos a ensaiar a idéia de criar um projeto conjunto. A coisa foi e voltou várias vezes, até chegarmos no formato do “Mondo Urbano”, relembra.

As citações musicais em cada capítulo, além de deixarem um certo charme cult, esclarecem um pouco sobre a temática. Eric Clapton, Korn, Rage Against the Machine são alguns dos citados. “Eduardo sugeriu uma história sobre um banda. Surgiu aí a premissa para a revista ‘Powertrio’. Falando de uma banda de rock ficou óbvio para nós que o assunto “sexo, drogas e rock’n’roll” dificilmente poderia ficar de fora”, explica Mateus. Cabaret, a próxima revista da série com lançamento previsto para abril, dá continuidade a mesma premissa. “A idéia geral do Mondo Urbano é ter todas as histórias interligadas, apesar de parecerem isoladas, tratando de algum modo de problemáticas urbanas, em que sexo, drogas e rock’n’roll estão inseridos”, complementa.

Overdose foi produzida em três meses de trabalho intenso, entre roteiro, reuniões e a produção própriamente dita. Um período relativamente curto se comparado há outros projetos na área de HQ. Cabaret já está pronta, mas uma quarta edição de Mondo Urbano ainda está na cabeça do trio. Enquanto isso, dá para visitar o blog dos autores e ver a quantas andam a produção. De repente até opinar nos comentários. As duas revistas estão à venda nas livrarias HQ Mix, Devir, Comix, em São Paulo, ou pelo site www.mondourbano.com.


Imagem interna de Overdose

Lápis na mão e uma idéia na cabeça

Enquanto muitas pessoas depois dos trinta não sabem qual rumo tomar, Mateus Santolouco já tinha em mente seu futuro artístico. “Desenho desde jovem e sempre soube meu caminho. Só não sabia ao certo a área de atuação, se seria animação, quadrinhos, publicidade, entre outras. Acabei tentando de tudo, mas encontrei nos quadrinhos minha realização”, conta.

Com preferência assumida pelos desenhos realistas, o auto apelidado ‘Santolouco’ tem de tudo na sua estante. “Não acompanho nada regularmente, gosto de procurar coisas novas. Recentemente conheci a revista independente O Contínuo e descobri uns caras como Pedro Bottino e Alcimar Frazão. Claro, tenho as referências obrigatórias quando se fala de quadrinhos no Brasil como Laerte, Angeli e a nova geração com os Gêmeos Bá e Moon e Rafael Grampá”, diz. O ‘auto-apelido’ e agora nome artístico e marca empresarial veio dele mesmo. “Acredito que a moral do nome é acreditar no invisível e no lado bom do demônio, que é o ser humano”, diz.

Como alguns quadrinistas já declararam para a Revista O Grito!, sobreviver profissionalmente de quadrinhos no Brasil é trilhar um caminho árduo. Para o ilustrador, viver apenas da arte por aqui não dá. “Tem espaço de sobra para fazer quadrinhos no Brasil, mas o mercado ainda é fraco. Uma boa grana surge lá fora. Ainda somos muito carentes de uma produção nacional e, se os interessados em criar uma cena se mexerem, as coisas um dia podem mudar… ou não”, diz.

Santolouco está em ritmo acelerado de produção e, pelo que parece, não precisa mais voltar ao meio publicitário, abandonado há três anos. Segue em paralelo com seus trabalhos locais com encomendas norte-americanas. Atualmente está produzindo para a Marvel Comics uma história do Wolverine em preto e branco. Emenda com a revista Fall of Cthulhu, baseada na mitologia de H.P. Lovercraft, da Boom! Studios. Mas promete não vai deixar o Mondo Urbano.

Para conhecer mais sobre a obra de Mateus Santolouco

http://santolouco.com/
http://matattack.deviantart.com/
http://mondourbano.com/Oi

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