Retorno das numerações antigas, inspiração na fase áurea dos X-Men e valorização dos personagens clássicos estão em pauta. Mas diversidade segue firme

A Marvel Comics anunciou que irá retomar a numeração original dos seus títulos mais antigos. A editora também vai recolocar aqueles selinhos de canto de capa (onde ficam os números, data e preço). Na linha dos X-Men, o direcionamento é resgatar o espírito da aclamada fase de Chris Claremont, enquanto que a série Generations vai colocar lado a lado heróis em suas diferentes encarnações. Todas essas chamadas indicam uma coisa: a nostalgia é hoje o ingrediente mais lucrativo do entretenimento pop.

O fato de uma diretriz como essa vir de uma editora empenhada em reformulações como a Marvel chama atenção.

Esses e outros anúncios aconteceram durante a Comic Con de Chicago, a C2E2. A editora esteve envolvida em uma controvérsia quando um mal entendido fazia crer que sua queda de vendas tinha relação com o aumento da representatividade e diversidade em suas histórias. Neste evento em Chicago, a editora aproveitou para fazer uma mídia positiva em torno de seu universo. E deixou claro: os personagens novos, como a Thor Jane Foster, Coração de Ferro e Capitão América: Sam Wilson, irão continuar como parte importante da Marvel.

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A diferença é que personagens velhos e novos terão holofotes e os fãs – tanto velhos quanto novos – terão boas histórias para acompanhar. Odinson, Capitã Marvel, Luke Cage, X-Men, Ms Marvel, Deadpool, Wolverine, Garota-Esquilo, Homem-Aranha, Vingadores, America Chavez, Homem de Ferro, Cavaleiro da Lua, entre outros, todos terão igual destaque. Para marcar essa nova fase a editora anunciou a iniciativa Marvel Legacy.

Capa da Legacy por Joe Quesada. (Divulgação).

Retomando a numeração

A Legacy não será uma saga ou algo parecido, apenas mais um ponto de partida. A editora vai lançar uma revista de 50 páginas com diversas tramas e subtramas que serão exploradas. “A iniciativa da Marvel Legacy será uma celebração de tudo que a Marvel fez de melhor na ficção e significará a Nova Era da Marvel Comics” disse Joe Quesada, citado pelo Marvel616. “É uma adorada visão do coração da Marvel da maneira que abraçaremos nossas raízes e ao mesmo tempo moveremos com entusiasmo para frente com todos os personagens da Marvel que conhecemos e amamos em histórias grandes, afiadas e melhores que só a Marvel pode fazer. Todas elas serão relançadas com uma grande e gigante especial Marvel Legacy”.

Na prática: algumas revistas terão suas numerações retomadas. O título The Mighy Thor deve alcançar o número 700 a tempo do lançamento do longa Thor: Ragnarok, este ano. Resta saber como a editora fará a contagem desses números e quais títulos serão afetados. É provável que as edições contenham duas numerações, uma mais atual, estabelecidas após um reinício recente e outra de “legado”, com um número maior contados desde o lançamento. Isso já foi feito na revista de Venom, hoje um sucesso de vendas.

Acredito que alguns leitores mais fanáticos tenham em casa todas as edições de determinado título a ponto dessa retomada da numeração fazer sentido, mas a iniciativa quer mesmo reforçar a nostalgia e valor histórico da Marvel. A editora vem sendo criticada pelos constantes reinícios, zerando os números como forma de atrair mais leitores, dando oportunidades para quem quiser iniciar uma coleção. No entanto, isso tem sido usado à exaustão: perdi as contas de quantas vezes a Capitã Marvel recomeçou sua revista, enquanto o Demolidor muda a numeração praticamente a cada troca de equipe criativa.

Ainda não foram reveladas quais revistas terão seu número de legado.

X-Men de volta ao primeiro escalão

Depois de anos sendo a apagadinha da estrela no universo Marvel dos quadrinhos, a linha de títulos dos X-Men vem retomando sua relevância. Após a saga RessurrXion, envolvendo Inumanos e Mutantes, os personagens ganharam uma reformulação. E isso envolve o que? Sim, ela, a lucrativa nostalgia. E inclua aí a volta das equipes Azul e Dourada, sucesso dos anos 90 e os X-Men originais em suas versões jovens  se estabelecendo de vez nessa cronologia.

Até final dos anos 1990 quase todo grande evento da Marvel tinha algo a ver com os mutantes. Com o crescimento dos filmes da Marvel Studios, culminando no sucesso que foi o primeiro longa dos Vingadores, os X-Men perderam a vez (contando também o fato de que os direitos da franquia mutante nos cinemas está com a concorrente Fox, mas isso já é um exercício de especulação). Parece que, enfim, vem uma boa fase dos títulos X.

Nessa convenção de Chicago também foi anunciada a volta de duas heroínas amadas por leitores: Emma Frost (agora novamente como uma vilã) e Polaris, ídolo dos anos 90. A ideia, segundo Marc Guggenheim, é recuperar o espírito da fase de Chris Claremont, mas sem ignorar todas as mudanças dos últimos anos.

Encontrar o balanço ideal entre nostalgia e inovação parece ser o maior desafio da Marvel hoje. A editora é que mais vem se arriscando em reescrever sua cronologia, adicionando narrativas e tramas que dialogam com o momento atual. Bastante criticada por fãs puristas (e alguns reacionários, é bom frisar), a editora vem apostando em mudanças em personagens-chave, adicionando novas etnias, nacionalidades e gênero em busca de uma maior representatividade.

E isso veio com boas histórias, diga-se: há anos o título de Thor não tinha uma fase tão boa e tivemos surpresas como a Ms Marvel Khamala Khan e America Chavez.

O painel da Marvel em Chicago também falou da saga Secret Empire, que revelou Capitão América como um vilão a serviço da Hidra. O escritor Nick Spencer revelou que tudo não passa de maquinações do Caveira Vermelha e que Steve Rogers não tem culpa do que aconteceu. A fala serviu para amenizar as críticas de fãs a essa trama confusa e ao alvoroço da mídia mainstream.

Gerações

Por fim foram revelados detalhes da série Generations, que une personagens novos e antigos e uma minissérie. Nem todas as revistas tratarão de fatos passados no presente. Os títulos colocarão lado a lado o indigno Thor com a Thor Jane Foster; Capitã Marvel Carol Denvers e o antigo Capitão Marvel, além do Wolverine Logan com a Wolverine atual, Laura Kinney. A ideia é mostrar que todxs têm sua importância.

O conceito de gerações é algo bem antigo na concorrente DC Comics, que sempre lidou bem com o fato de ter várias gerações de Lanternas Verdes, Flashes, Robins e por aí vai. A série Generations, da Marvel, mostra um amadurecimento da editora ao colocar a questão da representatividade como algo duradouro e não apenas uma forma de alavancar vendas.

Nessa conversa toda sobre nostalgia ao menos duas notícias agradaram a todo mundo: a Marvel vai retomar os Cover Corner Box Art, aquelas artes de canto de capa, que ficam ao lado do logo principal da revista. É algo bem característico da editora e perdurou por décadas. Quem também volta à vida é a coleção de selos de carta Marvel, hoje uma raridade disputada por colecionadores.

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