Martha Wainwright (Foto: Divulgação)

DOR E BELEZA
Irmã mais nova de Rufus, Martha Wainwright debocha do próprio infortúnio no segundo disco e se apresenta mais pop e sarcástica
Por Paulo Floro

MARTHA WAINWRIGHT
I Know You’re Married, But I’ve Got Feelings Too
[Drowned In Sound, 2008]
[Recomendado]

É quase uma injustiça citar as carreiras de outros membros do clã Wainwright – incluindo o mais famoso, Rufus – quando se fala de Martha Wainwright. Depois de alguns anos como integrante da banda de seu irmão mais velho, ela alcançou boa recepção de crítica e público na estréia com o álbum homônimo e agora lança novo disco com o sarcástico título I Know You’re Married, But I’ve Got Feelings Too (Eu Sei Que Você É Casado, Mas eu Também Tenho Sentimentos). É neste deboche e humor, por vezes duro consigo mesma que se baseia as composições desta cantora canadense.

Longe das paisagens clássicas que fizeram a cabeça de Rufus – o que é ver seu irmão rodopiando pela sala imitando Judy Garland em O Mágico de Oz? – Martha está mais próxima do folk de seu pai Loudon Wainwright 3º, cantor country-folk dos anos 1970, que chegou a ser indicado ao Grammy e, hoje, permanece longe do showbiz (fez uma ponta e a trilha da comédia Ligeiramente Grávidos). Neste disco em particular, as músicas passeiam mais pelo pop, mas a base de suas canções ainda é o folk-rock.

E como moça família que é, Martha chamou toda a reca para este disco: seu irmão Rufus, sua mãe, a também cantora Kate McGarrigle, o marido Brad Albetta e até mesmo a tia Anna. Nenhum deles portanto tiraram o brilho muito particular de Martha, que já no segundo disco mostra uma coesão muito interessante em seu trabalho. As faixas cobrem uma faixa do pop que vai do country mais tradicional até o rock comercial, em músicas tão díspares como “The George Song” e “Comin’ Tonight”.

Pop
Depois de ser vendida como uma cantora canadense independente com um lugar cativo entre o público indie, neste disco Martha quis fazer brincar com essa premissa. Sem abandonar as referências que colheu desde que acompanhava a mãe e a tia em turnês, ela se vestiu como uma legítima artista pop, a começar pela capa sensual, de pernas para o ar, num sofá qualquer.

A ironia continua nas faixas do álbum, a começar pela abertura, “Bleeding All Over You”, uma música ao mesmo tempo trágica e romântica. Martha segue com estas crônicas de relacionamentos que não deram certo, como “You Cheated Me” (com a participação de Pete Townsend), onde elenca todos os problemas que a levaram deixar alguém para trás. Estas composições carregam além de uma sofreguidão implícita, uma clara falta de auto-comiseração, como se ela caçoasse das próprias experiências. O que dizer, por exemplo, desses versos: “You moved up north and got a farmhouse / I’m trapped between two buildings and having to start at the start.”

Performática, Martha usa toda sua verve poética – e até mesmo afetada – em faixas como “In The Middle Of The Night” e “So Many Friends”. Mas, até a afetação é uma forma de auto-ironia, como se sabotasse a própria dor. Algumas edições do álbum trazem duas faixas bônus curiosas: a cover de “See Emily Play”, do Pink Floyd e “Love Is A Stranger”, dos Eurythimics. Esta última, fecha o álbum de forma animada, pra dançar com culpa, muita culpa.

NOTA: 8,5

Entrevista com Martha Wainwirght

Família reunida: Rufus & Martha Wainwright & Kate Mcgarrigle

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