TRADIÇÃO E MESMIÇE
Vargas Llosa lança novo romance onde recorre a temas batidos e finais felizes pouco salgados. Sempre fugindo ao estilo caliente e latino.
Por Fernando de Albuquerque

Com o título Travessuras de Menina Má, o premiado peruano Mário Vargas Llosa, traz ao público um romance que toca na principal ferida das relações amorosas: a opressão de uma das partes sobre a outra. Coisa bem comum e que pode ser encontrada em qualquer esquina – isso facilita a identificação do leitor. Ele revela o velho jogo de sedução em que uma mulher exercendo o papel da dominatrix, controla totalmente um homem, faz dele gato e sapato, oferece e negocia favores, conquista e a derrota, como se o outro fosse inimigo a ser destroçado.

O romance, que conta com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, é protagonizado por Ricardito, um jovem de 15 anos que tem por objeto de desejo Lily, uma “chilenita” que baila com sensualidade e age com desenvoltura nas festinhas da turma do bairro limenho de Miraflores, nos efervescentes anos 1950. Nada melhor poderia nutrir a imaginativa cabeça de um menino em plena puberdade. Num lance de humilhação pública, descobrimos que a moça não é chilena e que a história dela esconde grandes mentiras. Ela some.

Anos depois, Ricardito realiza o sonho de morar em Paris, vivendo com modéstia como tradutor e intérprete. Reencontra a menina, travestida de revolucionária a caminho de Cuba, onde pretende receber treinamento de guerrilha. Ele lhe declara que continua apaixonado e quase consegue alguma coisa, novamente ela se vai. Clichê maior não poderia existir. Afinal, é um sonho da classe média latina pousar as mãos no capital de seus antigos colonos em busca de conforto e reconhecimento.

Com o passar dos anos, o rapaz torna a encontrá-la nas situações mais diversas: protegida por um líder cubano, casada com um francês, esposa de um rico inglês, escravizada por um japonês pervertido. À medida que o tempo passa, eles se tornam amantes fugazes, Lily sempre dando e tomando, nunca lhe retribuindo a paixão cega que ele nutre por ela. Afinal quem não já passou por isso nos dias de hoje. O sexo relâmpago é uma via de mão dupla desses sentimentos.

Enquanto narra suas desventuras, Ricardito atravessa sua história pela vida política do Peru. Embora o discurso do narrador seja renegar o atraso e os descaminhos de um país marcado por ditaduras e guerrilhas, ele não se furta a acompanhar a ascensão e queda de uma geração de idealistas que tenta construir uma alternativa revolucionária em meio a desacertos de toda sorte. O romance seria estupendamente bom se não fosse a velha tentativa latina de tomar partido.

O tempo passa, Ricardito não consegue alcançar o coração da menina má, vai envelhecendo e perdendo os amigos que preenchem um pouco do grande vazio que se torna sua vida. Ela muda. Ensaia uma aproximação e torna a humilhá-lo. Ele viaja, estuda, assiste a filmes e peças, conhece pessoas e retorna ao ponto do desejo parado na mulher misteriosa, cujo nome desconhece. A passividade é o sobrenome que o cerca.

Vargas Llosa nunca temeu cometer maldades. Suas obras sempre tiveram personagens capazes de cometer as piores atrocidades em nome do instinto ou do poder. “Travessuras da menina má” segue essa linha. Não que a personagem não se justifique, pela pobreza e desditas sofridas na infância. Da segunda metade do livro em diante, à medida que conhecemos suas motivações, as coisas se atenuam. Ela sofre revezes e, carente de ajuda, até se casa com Ricardito, topando uma vida pequeno-burguesa insossa e acomodada. Mas não será fiel a si própria se não aprontar de novo.

E o que propõe, então, o escritor? Com toda a onipotência de que só os autores desfrutam, Vargas Llosa pune exemplarmente nossa anti-heroína, fechando o romance com uma singela, quase cínica, fé no amor. Sim, talvez o amor seja lindo. Desde que renuncie à opressão. Enfim: muito clichê recheado de premiações ostensórias.

TRAVESSURAS DA MENINA MÁ
Mário vargas Llhosa
[Alfaguara, 302 páginas, R$ 49 reais]

NOTA:: 6,5

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