MORTE AOS SANS CULOTTE
Maria Antonieta não empolga, mas reinventa imagem decadente da rainha decapitada e lança moda
por Fernando de Albuquerque

Grosso modo, filmes históricos trazem em si uma grande problemática: ou são épicos acadêmicos que precisam de faustosismo para render uma boa bilheteria ou então são representações cheias de efeitos especiais que impressionam pela falta de coerência. E dentro dessas duas opções Maria Antonieta, filme da festejada Sofia Coppola, deixa marcas na historiografia cinematográfica por conseguir representar, com o requinte necessário à personagem, e ao mesmo instante modificar a imagem derrotada da rainha francesa, ainda hoje caracterizada como símbolo de um regime decadente.

Maria Antonieta é um filme de pouca ação e muita contemplação. São seqüências plácidas onde os elementos cênicos e mesmo o vestuário se sobressai à própria composição cinematográfica. A jovem rainha francesa, que abandona a austera corte austríaca, tem nos vestidos, perfumes, sapatos e penteados seu próprio ponto de fuga. Mas divergindo das linhas bem marxistas traçadas pela história, Sofia Coppola trata a personagem como uma pessoa, não uma personagem que pertença à clicheria submissa do mainstream ou ao pseudo-indie-movie.

A Rainha traçada por Coppola é, no início, uma mulher dominada, controlada por outros, parecida com as irmãs de As Virgens Suicidas, filme que alçou a diretora ao estrelato. Na condição de princesa austríaca, Maria é prometida, ainda adolescente, ao delfim da França, Luís Augusto, futuro Luís 16, a fim de aproximar os dois países e formatar uma aliança. A imperatriz Maria Tereza, mãe de Maria Atonieta, tinha uma missão estritamente política para a filha. Ela funcionaria como espiã do governo austríaco dentro da corte de Versalhes. Fechada em si mesma, a personagem não cumpre com a função designada e vê nos gastos com futilidades a perfeita válvula de escape para ser notada, respeitada e fazer história. É nesse momento que ela se converte na mulher no estrangeiro, como Scarlett Johanson em Encontros e Desencontros, às voltas com signos indecifráveis. Nada ali é seu.

Maria Antonieta é um filme que recusa emoções baratas e o didatismo inútil. A rainha é cínica demais para ceder aos costumes da corte e superficial demais para ater-se a um revolucionarismo barato como era o francês. Sofia retoma sua tragetória em relação à alienação feminina sem precisar fazer demagogia com o pescoço da trágica rainha.

E o filme não é apenas um sucesso no que diz respeito ao trato com o enredo. O figurino já causa um impacto considerável sobre a moda dos próximos anos. Para conferir isso basta abrir as edições da Vogue em novembro e dezembro passados. Em uma das cenas mais comentadas, um par de all stars azul é flagrado entre os sapatos da rainha. Engana-se quem pensa que a idéia é somente reproduzir o contemporâneo. Pelo contrário, é traduzir, compreender e aproximar a partir do nosso olhar. Nada mais perfeito do que o tênis-ícone dos indies; nisso o Versalhes do século 18 se converte no aqui e agora.

Site Oficial: http://www.marieantoinette-movie.com/

Nota: 8,0

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