BARBA, CABELO E BIGODE: O MARCELO CAMELO WAY OF LIFE
Músico lança o novo disco, Toque Dela

Por Lidiana de Moraes
Da Revista O Grito!

Entre as grandes manifestações artísticas do mundo globalizado, um tal de The Creators Project tem se destacado por unir alguns dos nomes mais interessantes de diferentes campos culturais, como cinema, música, design, moda, arte e jogos. A própria definição do projeto – “uma rede global dedicada a celebrar criatividade, cultura e tecnologia” – se assemelha a um mantra que deve ser seguido por todos os que pensam na possibilidade de promover uma revolução artística que mude o mundo pra melhor. Para poder viver a altura desse preceito não é qualquer um que recebe o convite para ser um “Criador”, palavra que só aumenta a responsabilidade dos envolvidos que devem estar no topo da pirâmide cultural para merecer o título que, mesmo inconscientemente, os coloca em uma posição próxima à supremacia divina. Estar mais perto de ser considerado Deus, só sendo Eric Clapton. A não ser que você seja brasileiro e fã do “novo cenário” da MPB porque daí a criação artística de Marcelo Camelo é muito mais relevante do que qualquer solo de guitarra.

Quem diria que o rapaz carioca que inundou as rádios com pedidos para tocar aquela música que leva o nome de uma moça poderia se tornar um dos nomes mais influentes da música brasileira no século 21. Tal canção que quer ser esquecida por muitos (até mesmo pelos que deram forma a ela) abriu as portas do sucesso para os Los Hermanos em um ano que já parece tão distante, 1999. O ranço com o hit que tocava em todos os lugares pode ser considerado um excesso de “estrelismo”, uma tentativa de renegar um passado. Já para os partidários da religião em que Marcelo Camelo é ser supremo, a canção apenas foi um aperitivo para o que realmente estava por vir. Não é a toa que os próximos discos do grupo, como Bloco do Eu Sozinho e Ventura seguiram por uma veia mais poética e melancólica, mas nem por isso deixaram de levar os fãs à loucura, especialmente nos shows onde era possível ver meninos pulando energicamente como se estivessem em uma roda punk, enquanto as meninas cantavam a plenos pulmões enquanto os rostos eram encharcados de lágrimas e suor.

Mesmo assim o séquito de seguidores de Camelo, Amarante e companhia não deixou de lado a frustração (um sentimento próximo da orfandade) quando em 2008 foi anunciado um hiato indeterminado nos trabalhos da banda. Contudo, para os mais esperançosos, não havia o que temer: a usina criativa que move as duas cabeças pensantes do grupo não tinha sido desativada. Enquanto Rodrigo Amarante manteve seu espírito leve e fagueiro em projetos como a Orquestra Imperial e o Little Joy; Marcelo Camelo se dedicou ao que sabe fazer de melhor: ser o novo Caetano Veloso de uma geração perdida em termos de ídolos perenes.

Algumas pessoas insistem em compará-lo com Renato Russo, talvez porque essa ideia seja mais palpável para os jovens atuais do que relembrar anos longínquos que até alguns pais têm dificuldade de lembrar. No entanto, enxergar Renato em Marcelo é muito pouco para o que o carioca já conseguiu. O vocalista do Legião Urbana pode ter movido multidões com seus hinos como “Geração Coca-Cola” e “Será”. Também conseguiu voltar a atenção de um país inteiro para aquele cenário que ficou conhecido como o “rock de Brasília”. Enquanto isso, Marcelo Camelo foi além, não restringiu sua música a um lugar físico. Ninguém em sã consciência ouve suas canções e pensa em uma MPB carioca. Ele consegue percorrer o Brasil inteiro com suas composições.

 

Camelo nem ao mesmo limitou sua arte a um espaço temporal. Ao ouvir seu segundo disco solo, Toque Dela, a sonoridade viaja além das fronteiras temporais. Renato Russo fixou-se no imaginário como aquela figura dos anos 80 e 90 que cantava tudo o que a juventude queria dizer, mas não sabia como. O rosto barbudo de Marcelo pertence aos anos 2000, mas leva o público novo para os anos 60, 70, 80, 90… É entre aqueles fios de barba, cabelo e bigode que se encontra um ícone cultural que há muito tempo não se via. Pode ser arriscado atribuir tamanha responsabilidade a um homem só, mas Camelo trouxe um impacto artístico para a música popular brasileira que não se sentia desde os áureos tempos da Tropicália. Assim, não bastou o namorado de Mallu Magalhães querer ser Caetano Veloso, Caê também quer ser Marcelo.

O ar de gênio envolto em sua arte contribui para essa imagem de ser intocável que só pode ser destinada àqueles que realmente atingiram o grande nível de influência no seu trabalho. Marcelo Camelo é um “Criador” e não é por nada. Ele vive e respira por sua obra. Dá a impressão de compor dia e noite como se não precisasse de nada mais além disso. E oferta suas criações para outros artistas com um desapego material que só é digno daqueles que realmente enxergam na arte um mecanismo para mudar o mundo. Em suma, não importa se você simpatiza com Marcelo Camelo, ele conseguiu unir o melhor dos dois mundos: o novo com o velho, a tradição com a modernidade. Está aí um nome da cultura mundial que faz jus ao slogan do The Creators Project: “Bem vindo á nova era da criatividade”.

Capa Toque Dela

 

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