Maio de 68: Um complô de vagabundos?

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MAIO DE 68: DA CANONIZAÇÃO AO EXORCISMO POLÍTICO
Por Rafael Dias

Quarenta anos depois, o Maio de 68 continua vivo. Subsiste, de alguma forma, no inconsciente social e político de seus remanescentes – estudantes, operários, policiais, artistas, comunistas, gaullistas e stalinistas que se posicionaram, em lados opostos, em meio a barricadas e explosões de coquetel molotov –, reverberando como um eco longo e barulhento ainda nos dias de hoje. Nas bancas de jornais, tevês, livrarias e universidades, o arsenal que se propõe a lançar algum tipo de luz sobre a revolta estudantil que estremeceu o status quo não só na França mas em quase todo o planeta (Espanha, antiga Tchecoslováquia, Turquia, Japão, Brasil etc), que vem sendo lançado em volume farto e dispendioso (só em livros, são mais de uma centena de títulos pelo mundo), comprova uma questão mal resolvida e uma continuidade do embate, desta vez no campo das idéias.

Uma quase-revolução espetacular contra o autoritarismo vigente e a favor da liberdade política, sexual e ideológica? Ou um motim fracassado e causa da falência das instituições e do relativismo moral agudo que toma de assalto a sociedade pós-moderna? Não faltam detratores e entusiastas para defender ou execrar a herança “maldita” deixada pela faísca da geração de 68. Ao longo dessas quatro décadas, a sociedade francesa ensaiou um movimento, um tanto quanto maniqueísta, de negar ou glorificar os eventos daquele ano que marcou o mundo com greves e protestos generalizados. Uma coisa é certa: como dizia um dos slogans (“início de uma luta prolongada”), a refrega no campo ideológico não terminará tão cedo.

Uma das interessantes publicações que paira sobre a cortina de fumaça é o novo livro do filósofo francês André Glucksmann, Maio de 68 Explicado a Nicolas Sarkozy, escrito em parceria com o filho e documentarista Raphaël Glucksmann. À parte das análises reducionistas que são feitas sobre o tema, a obra traça um importante paralelo entre o movimento de 68 francês e a juventude de hoje quatro décadas depois. Alternado com ensaios e diálogos travados entre pai e filhos, o livro tenta elucidar alguns erros e conclusões apressadas e oportunistas que se depositaram sobre os acontecimentos de Maio.

O título da compilação faz referência a um dos episódios que envolveu a campanha à presidência do atual presidente da França, Nicolas Sarkozy. Em 29 de abril de 2007, o então candidato da direita francesa e rival de Ségolene Royal, do partido socialista, discursava em seu último comício antes das eleições, no Palácio de Esportes de Bercy. Em certo momento de sua fala, Sarkozy recomendou à sociedade francesa “liqüidar” a herança do Maio de 68. Presente ao evento, André Glucksmann, que foi um dos militantes estudantis daquela época, escreveu no dia seguinte um artigo no Le Monde condenando a exortação e a falta de informação do candidato, apesar de apoiá-lo abertamente nas urnas. A frase destemperada de Sarkozy tocou na ferida e mexeu nos brios dos franceses: resgatar um fato do qual eles sentem, ao mesmo tempo, orgulho e vergonha.

No livro, Glucksmann, pai e filho, trocam considerações e ponderam sobre contribuições de quaisquer ordens, para o bem ou para o mal, que o movimento de Maio tenha relegado para a geração de hoje dos anos 2000. Sem ressentimento ou algum tipo de ranço saudosista, a dupla tenta desmistificar alguns sofismas e o maniqueísmo que se alojaram como um vírus no calor do debate sobre a questão. O diálogo também por si já é louvável. Para um tema tratado sempre como tabu, propor uma conversa entre as duas gerações ajuda a dissolver os nós. Em alguns momentos, no entanto, o bate-papo ganha um tom de camaradagem e de cumplicidade viciada, comprometendo alguma outra crítica negativa que se pudesse fazer.

Um dos pontos que Glucksmann pai defende é a legitimidade dos acontecimentos de Maio como um movimento de protesto generalizado, responsável pela maior greve trabalhista da história francesa. E não apenas um “evento” protagonizado por alguns estudantes da Sorbonne, como diziam os direitistas: “um simples psicodrama, um impulso de acne juvenil, uma revolução ‘impoderável’, ou na palavras de Georges Marchais, um complô de vagabundos”. Se por um lado reforça a importância histórica do episódio, por outro também admite o caráter efêmero de um levante que se esfacelou na mesma rapidez com que se auto-organizou espontaneamente. Em certo trecho, ele assume até uma espécie de mea-culpa: “Em Maio de 68, Paris é um poema. Em 2007, é um prazer surfar nas neves de outros tempos”.


Para André Glucksmann, o embate ideológico morreu

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Questionado por Raphaël por que, contraditoriamente, o pai apoiara um candidato da direito se o seu passado foi de orientação exclusivamente esquerdista, o pai é taxativo ao responder. Acusado de traidor pelos marxistas históricos, André Glucksmann atesta que o embate ideológico morreu e que não cabem mais polarizações entre esquerda e direita. Para ele, a discussão não deveria se encerrar mais entre uma exorcização nem em um endeusamento do Maio de 68. Segundo o livro, há um fetichização em torno dos acontecimentos de Maio, o que vem reduzindo a questão a debates políticos sem fundamento prático.

A conclusão a que o livro chega é de que a ruptura de 68 se repete em 2008, porém às avessas. Oprimida por outras questões de ordem pragmática, como desemprego, pobreza e preconceito racial, a juventude e a sociedade de hoje como um todo se recusam a avançar nas reformas, optando pela tendência de centro-direita que governa as principais democracias na Europa atualmente. A apatia pode até estar tomando conta das ruas e esquinas. Mas o debate midiático continua tão explosivo quanto um coquetel molotov.

MAIO DE 68 EXPLICADO A NICOLAS SARKOZY
André Glucksmann e Raphaël Glucksmann
[Record, 237 págs, R$ 37]
Trad: André Telles

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