QUATRO REVOLUÇÕES
Lançado no ano de ebulição cultural e política, o Album Branco dos Beatles deixa claro a fragmentação que o grupo sofria, ao mesmo tempo que representa o melhor momento criativo de cada integrante
Por Mariana Mandelli

O aniversário oficial é só em 22 de novembro, mas é sempre tempo de falar de um dos melhores discos de rock da história da música, realizado pelo maior mito da cultura pop de todos os tempos: os Beatles. 2008 marca os 40 anos do lançamento do chamado “álbum branco” (ou “The White Album”), o disco de capa monocromática com um pequeno e alvo “The Beatles” marcado em relevo no canto inferior direito, lançado em meio ao momento efervescente que o mundo vivia no âmbito político, econômico e cultural, sobretudo após o Maio de 68.

Depois das baladas melosas e canções de rock sobre o cotidiano em Please Please Me, With The Beatles (ambos de 1963), A Hard Day’s Night, Beatles for Sale (ambos de 1964) e Help! (1965); depois do lirismo existencial de Rubber Soul (1966), dos primeiros suspiros revolucionários em Revolver (1966), de mudarem o mundo com a psicodelia de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (que completou seu quadragésimo aniversário no ano passado) e de lançarem Magical Mystery Tour (1967, trilha do filme homônimo), o fab four chegava a um dos seus trabalhos mais polêmicos.

Considerado o “início do fim”, o álbum branco deixava clara a desunião do grupo. De coeso, o disco não tem nada. É perfeitamente perceptível a fragmentação da banda no tracklist dos dois volumes, resultado dos primeiros momentos de ruptura entre o grupo recém-chegado da Índia, onde passaram uma temporada com o guru Maharishi Mahesh Yogi. Lá, compuseram a maioria das canções que formariam o conteúdo do novo disco, pensado para ser simples e direto, diferentemente de seu antecessor, o complexo e multicolorido Sgt Pepper’s.

Além de marco histórico da carreira da banda e da história da música, outros mitos envolvem o álbum branco. Charles Manson, um dos assassinos mais famosos da história, envolvido no homicídio de Sharon Tate, atriz e esposa do diretor Roman Polanski, alegou que as músicas do álbum incitavam-no a praticar crimes e prometiam o apocalipse. Acreditando ser a reencarnação de Jesus Cristo, ele e seus seguidores (a “Família Manson”), cometeram chacinas e usavam o sangue das vítimas para escrever os nomes de músicas como “Piggies”, Helter Skelter” e “Blackbird” na cena do crime.

O sempre psicodélico Lennon

Bizarrices à parte, o álbum branco representa os melhores momentos criativos de cada Beatle. Cada um deles encontrou, à sua maneira, sua identidade e consolidou-a em suas participações no disco. Se a inspiração tem a ver com a jornada espiritual na Índia, fica difícil saber. O que importa é que cada integrante estava na sua melhor forma.

John Lennon é o maior exemplo disso. Com o início de seu relacionamento com Yoko Ono, o músico passava por um período de criatividade intensa e parceria com a amante – ela participa dos vocais de “The Continuing Story Of Bungalow Bill” e dos experimentais oito minutos de “Revolution 9″.

Multifacetado, o estilo de Lennon permeia os dois volumes do disco e dando a maior carga de originalidade ao álbum branco. O lirismo e a poesia de “Dear Prudence” (escrita para a irmã de Mia Farrow), “Julia” (dedicada à sua mãe), “Cry Baby Cry” e “Good Night” (escrita para se filho Julian a cantada por Ringo); a ironia e o bom humor característicos em “Glass Onion” (sobre os fãs que enxergavam mensagens subliminares nas músicas do grupo), em “Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey” e em “Sexy Sadie”; a sensualidade de “Happiness Is A Warm Gun”; a simplicidade de “I’m So Tired”; o blues-rock de “Yer Blues” e a música-símbolo da época, “Revolution 1”.

As invenções da guitarra de Harrison

As participações de George Harrison no disco são louváveis e têm seu peso. A leveza de “Long, Long, Long”, a estranheza de “Piggies” (com sons de porcos como efeitos sonoros) e “Savoy Truffle” (inspirada por uma caixa de chocolates e teoricamente dedicada a Eric Clapton, grande apreciador de doces) merecem destaque, mas ficam longe da supremacia de “While My Guitar Gently Weeps”, de longe uma das melhores canções de Harrison. Lírica, melancólica e inspiradora, a guitarra chorosa da faixa tem a participação do amigo Clapton, o que só tornou a música memorável e um dos momentos mais apoteóticos do disco.

Um poeta chamado Paul McCartney

A maioria das canções de Paul no álbum branco foram compostas e gravadas somente por ele, sem a participação dos outros Beatles – com exceção de “Birthday”, uma das últimas colaborações entre ele e John; “Martha My Dear” (supostamente dedicada à sua sheepdog Martha) que teve George no contra-baixo e John na guitarra; “Why Don’t We Do It In The Road?”, com a participação de Ringo, e “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, considerada uma das piores músicas da história por uma revista, criada devido a uma aposta entre os Beatles para decidir quem compunha a música mais idiota, com a premissa de que qualquer coisa que eles cantassem faria sucesso.

Paul encontrou seu lado folk na belíssima “Blackbird” e, especialmente, em “Rocky Racoon” (com George Martin no piano). A história trágica de Rocky inspirou, entre muitos, o cantor Elliot Smith, grande e confesso fã dos Beatles.

As baladas românticas, marca da docilidade musical de McCartney, têm sua vez com “I Will”, composta para Linda Eastman (que no futuro veio a ser Linda McCartney), e com a bucólica “Mother Nature’s Song”.

O rock ‘n roll mccartiano aparece em “Wild Honey Pie”, “Back in the U.S.S.R.” (resposta a “Back In The U.S.A.”, de Chuck Berry) e, especialmente, naquela que é considerada a primeira canção de heavy metal da música: “Helter Skelter”. Barulhenta, pesada e, principalmente, histórica, a faixa inspirou músicos pelo mundo inteiro e ajudou a semear o futuro do rock pós-Beatles.

O debut de Starkey

“Don’t Pass Me By”, a primeira composição solo de Ringo Starr gravada pela banda, acabou entrando para o tracklist, desbancando “Mean Mr. Mustard”, “Polythene Pam” (ambas de Lennon e lançadas no Abbey Road, em 1969), “Hey Jude”, “Revolution” (ambas lançadas em compacto) e outras canções que apareceriam anos mais tarde nos trabalhos solo da carreira de cada ex-beatle.

Gostando ou não, é impossível ser indiferente ao peso que a obra-patrimônio de John, Paul, Ringo e George tiveram e ainda têm frente à produção cultural mundial. A inventividade e genialidade de cada um dos quatro cérebros que formavam a banda fazem do álbum branco uma obra essencialmente atemporal, que não se esgota no tempo nem no espaço. Se depender da projeção e da influência da obra dos Beatles, 1968 vai ser sempre o ano que não terminou…

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