Madonna (Foto: Divulgação)

A MATERIAL GIRL QUE SE CONVERTEU EM ICONE POP
Desde sua estréia em vídeo, Madonna rende debate sobre representação midiática e construção do imaginário pop
Por Luisa Lushvargh*, especial para O Grito!

Madonna é o tipo de fenômeno midiático apaixonante para qualquer pesquisador, ainda mais para aqueles que se enredaram pelos estudos culturais e de gênero. Sua trajetória quase se confunde com a de outro ícone da pós-modernidade, a MTV, mesmo porque sua carreira seria impensável sem as imagens dos videoclipes que a consagraram. Sobre videoclipes e MTV há literatura farta, já sobre a importância deles na elaboração da carreira do artista nem tanto.

O sucesso do videoclipe “Material Girl” foi tão grande, que a expressão virou um adjetivo para nomear a loira platinada que reedita Marilyn Monroe no imaginário erótico contemporâneo, com muito mais tempero do que a emblemática atriz hollywoodiana, cuja morte continua soando como mistério. Annie Lennox, em depoimento colhido por Sam Goodwin em Dancing in the Distraction Factory – Music Television and Popular Culture (1992), dizia que para ela soava estranho que o público, ao se deparar com ela num show, ficasse buscando a outra, a do videoclipe.

Madonna, ao contrário, ainda que nos últimos tempos tenha optado por resguardar sua intimidade, sempre fez uso dela para autopromoção, o que pode ser comprovado pelo documentário da turnê Blond Ambition, Na Cama com Madonna (In Bed with Madonna, que nos EUA se chamou Madonna: Truth or Dare), de 1991, dirigido por Alek Keshikian, quando ela ainda namorava o astro Warren Beatty. Na mesma época, nos bastidores, ela promove outra revolução, fundando o selo Maverick e a partir dele estabelecendo um contrato com a toda poderosa Warner, atitude incomum para os astros do seu porte, que ela mais tarde ousou processar.

Mas canções, adverte o próprio Goodwin, jamais serão filmes. Quando Suzanne Vega, canta “My name is Luka”, em primeira pessoa, na música homônima que fala sobre abuso infantil, todo mundo sabe que uma estória está sendo contada. Quando Madonna canta “Like a Virgin”, vestida por figurinos de Dolce e Gabanna, sobre a sensação de ser tocada como se fosse a primeira vez, ninguém imagina que ela esteja expondo efetivamente sua intimidade, apenas simulando uma cena de masturbação no palco, e no videoclipe.

Madonna (Foto: Divulgação)

Para ele, a Material Girl que se espelha na Marilyn da canção “Diamonds are a Girl´s Best Friend” (Diamantes são os melhores amigos de uma garota), do filme Os Homens Preferem As Loiras (Gentlemen Prefers Blondes) só se constrói ficcionalmente porque podemos identificar ali a voz e a personalidade da cantora pop. Ele enfatiza ainda outro aspecto – o das teorias feministas e dos estudos de gênero sobre Madonna, que parecem ignorar completamente a situação de objeto na qual ela se coloca quase sempre, e neste videoclipe em particular, para enfatizar o da mulher dominadora e independente que ela também gosta de encarnar.

Na verdade, o problema deste vídeo, e dos demais da estrela pop, é que eles se referem a um personagem desempenhado pela persona criada pela cantora e dançarina. Outro estudo que aborda o fenômeno é Gender Politics and MTV, Voicing the Difference (algo como Políticas de Gênero e MTV, expressando a diferença), de Lisa Lewis, que no capítulo “Four Female Musicians”, dedicado a Tina Turner, Pat Benatar, Cindy Lauper e Madonna, afirma que a MTV nos ajuda a contextualizar tanto a história da mulher na música quanto a trajetória destes quatro nomes emblemáticos da musica americana pop contemporânea.

Tina e Pat tinham uma carreira sólida antes da MTV. Mas Cindy Lauper e Madonna são crias comerciais cujas carreiras decolaram a partir de ações diretas promocionais da rede. Ambas foram vistas antes mesmo de serem ouvidas, de tocarem no rádio. Mas Madonna, a mais nova, atualmente próxima dos 50 anos, representou, como nenhuma outra, uma geração de americanas que se sentia pressionada a ir para o mercado, mostrar que era capaz de vencer profissionalmente.

Mais do que um discurso baseado no rock, ela faz uso de um discurso pop. Assim, a imagem da fêmea que a uma primeira vista parece simplesmente reproduzir os discursos dominantes sobre o seu papel, aos poucos, para Lewis, vai desconstruindo, através da encenação destes personagens, estes mesmos estereótipos, que acabam se convertendo em crítica à manipulação e aos códigos de representação feminina tradicional. Assim, ela nos remete a uma série de personagens conflitantes: virgem, adolescente grávida, a da mulher fatal, da stripper. E a imagem de Madonna é muito mais próxima do pastiche, tal qual concebido por Jameson, do que da paródia, daí ser tão difícil conceituar de forma redutiva a sua releitura da loira fatal, ainda que seus predicados musicais eventualmente resultem desvalorizados em função disso.

E o pastiche é a característica predominante no videoclipe, como bem destaca a mais famosa ensaísta a se debruçar sobre o tema MTV, E. Ann Kaplan. Ou seja, Madonna e o universo que ela cria a cada turnê, simulam um caleisdoscópio cultural que articula referências de períodos históricos totalmente distintos, e que convergem, ao menos nos shows, para o palco. Se estas vibrações são libertárias, ou meramente confusas e reacionárias, é uma outra discussão, que tem de ser contextualizada.

O fato é que a persona dramática criada por Madonna Louise Veronica Ciccone, filha do engenheiro descendente de italianos Silvio Tony e Madonna Louise, realimenta-se continuamente do próprio mito e tudo que ela faz se converte em imagem. Agora, vem aí o documentário I Am Because We Are, em que ela mostra a situação das crianças no Malauí, país que visitou, e onde adotou um órfão, o pequeno David Banda, além de fundar uma ONG.

Uma das principais críticas sobre estes documentários é que ela sempre surge como gostaria de ser vista, e tudo parece sob controle, exatamente como nos palcos, onde a cada turnê se desenvolvem criativas coreografias, minuciosamente encenadas por um elenco extremamente profissional. Sua carreira de atriz sofre um pouco do mesmo mal – ela é sempre ela mesma, em qualquer papel, seja o de Evita Perón, seja o de companheira de Dick Tracy, Breathless Mahoney.

Uma coisa é certa, depois dela, e da geração que ela representa, a relação entre música e imagem nunca mais foi a mesma. Não se concebe, para o bem e para o mal, um músico que não possua uma imagem, um videoclipe. O império fundado pela MTV, que nasce de uma fusão entre a American Express e a gravadora Warner, antes de ser comprada pela holding Viacom em 1985, deve muito a ela e a outro astro que de uma certa forma traçou um destino paralelo, Michael Jackson. Eles nascem da constatação da indústria de que a pirataria estava bombardeando os negócios, e de que deveriam buscar novas alternativas de comercialização das músicas. Investir em videoclipes, por outro lado, barateava o custo de promoções de turnês e dava a possibilidade de testar novos produtos.

Madonna (Foto: Divulgação)

A idéia era ir além de comercializar o CD, mas sim vender um estilo de vida. E sem dúvida, tanto como empresária, quanto como estrela, Madonna é efetivamente o símbolo de uma marca que agrega continuamente valor a tudo o que faz, embora tenha se esquivado, de forma inteligente, de transformar a sua própria vida num reality show, como tantas outras celebrities de agora. Um aspecto interessante é o de que, apesar de ter uma personalidade musical calcada na imagem, ela sempre soube usar seus personagens como artifício para levar o público aos shows, verdadeiras mega-produções onde ela demonstra todo o seu domínio de cena. A Madonna mãe, esposa dedicada, e atualmente defensora de causas humanitárias, adepta da Cabala, é apenas mais uma faceta da polêmica Madonna que adora chocar em suas turnês.

[+] Luisa Lushvargh é escritora, jornalista e doutota em Comunicação pela ECA-USP. Atualmente desenvolve pesquisa sobre as estratégias globais da mídia na produção audiovisual.

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