Inspirada pelas sonoridades de Portugal, onde reside, Madonna une fado, reggae e pop em um disco com discurso social forte e muitas autorreferências

está inquieta, dançante e política na era , seu melhor disco em anos
NOTA8

Não é novidade para ninguém o poder e importância de Madonna para a música pop e para a indústria fonográfica, bem como sua contribuição para o que se faz e pensa em videoclipe. É como se esse estilo musical e de arte tivessem o Antes de Madonna (a.M) e Depois de Madonna (d.M). Em 2019, depois do fiasco que foi o Rebel Heart (2015), a eterna Rainha do Pop volta à cena musical com Madame X, um trabalho que sai de sua zona de conforto e a coloca novamente como uma exploradora de tendências sonoras.

Radicada em Portugal desde 2017, é possível perceber a influência da cultura do referido país na estética e no conceito de Madame X. Madonna, que sempre se mostrou autêntica e forte, vem com o novo álbum para lutar contra aqueles que a chamam de “velha” para fazer música. De uma coisa é certa: Madonna nunca ligou para a idade e para os padrões. Aliás, fugir deles sempre foi o diferencial da cantora norte-americana. Este seu 14º disco de estúdio é um caldeirão de cultura musical e forma uma espécie de compacto dos 37 anos de carreira de Madonna. O conceito do álbum traz uma agente secreta, mulher multifacetada, capaz de se adaptar a qualquer ambiente e de ser quem sente vontade de ser.

O álbum, no geral, é bem estruturado e traz um olhar de preocupação de Madonna diante os problemas sociais e políticos do mundo, mas sem deixar de lado a sua essência de diva das baladas.

Ao total, são 15 músicas e, até o presente momento, apenas 3 videoclipes. No que diz respeito aos gêneros musicais, Madonna se mostra eclética e passeia pelo fado, kuduro, funk, regaeton, tudo isso amarrado com uma produção pop se diferencia em alguns momentos de tudo o que a cantora já fez. Em outros momentos há diversos diálogos com pontos altos de sua carreira (a exemplo da aposta no pop latino).

Entre as colaborações, ela traz dois nomes do rapper atual para seu álbum: os americanos , em “Future”, e , em “Crave“, ainda que, em ambas as faixas, a participação dos dois seja bem discreta. Além deles, Madonna se une às estrelas latinas em ascensão no momento: o colombiano Maluma, com quem canta duas faixas (“Medellín” e “Bitch, I’m Loca”) e com a brasileira Anitta, no single “Faz Gostoso”.

“Medellín”, uma das colaborações com Maluma, foi a primeira faixa lançada por Madonna. Trata-se de um reggaeton longo, cansativo e com poucos momentos animação. Maluma traz um ar sexy com sua voz rasteira, cumprindo um papel convencional e batido do latin lover. Na letra, Madonna fala sobre sua adolescência e resgata algumas atitudes da época em que foi consagrada como “Rainha do Pop”. No videoclipe, Madame X é uma professora de dança e, nos momentos de interação com o cantor colombiano, ela resgata a imagem de “Like a Virgin” (1986).

Em “Future”, Madonna faz uma parceria com o rapper americano Quavo, da nova geração do hip-hop, mas que também tem um ar de reggae. A música tem um excesso de autotune, que é típico desse gênero, e tem um tom futurístico, uma vez que Madame X anuncia o seguinte: “Not everyone is coming to the future
/ Not everyone is learning from the past / Not everyone that’s here is gonna last”. Madame X anuncia nos versos que nem todos poderão chegar no futuro do qual ela já está. Madonna se apresentou com Quavo no festival Eurovision 2019, em que fez, juntamente nessa performance, uma introdução de “Like a Prayer” enquanto tentava propor uma saída para a paz entre palestinos e israelenses.

E por falar em “Like a Prayer”, que completou 30 anos este ano, Madonna resgata o tema religião em “Dark Ballet”, uma balada sombria, que fala sobre preconceito e discriminação, além da intromissão da Igreja em questões sociais. Madame X inicia dizendo: “It’s a beautiful life / But I’m not concerned / It’s a beautiful dream / But a dream is earned / I can dress like a boy / I can dress like a girl”. Destaco, sobretudo, o incrível videoclipe feito por Madonna, que também referencia o lendário clipe de “Like a Prayer”. Em “Dark Ballet”, Madonna usa como referência a francesa Joana d’Arc (1412-1431), que foi uma importante guerreira na época da Guerra dos Cem Anos. Acusada de praticar bruxaria, ela foi queimada viva na fogueira. No clipe, quem interpreta a heroína é o rapper e poeta Mykki Blanco.

“God Control” começa sem muitos efeitos de edição, no entanto, com uma voz contida. É possível ver uma influência gospel quando ela acrescenta um coral para falar sobre o aumento de tiros nos Estados Unidos e sobre o posicionamento do presidente Donald Trump, com quem Madonna tem grande desavença.

Já em “Batuka”, Madonna se junta com o grupo Batuqueiras, de Portugal, mas com mulheres caboverdianas. A letra parece uma oração e um confronto contra o patriarcado, em que as mulheres procuram ser ouvidas.

“Crave” é outro encrave rap do álbum de Madonna. Ela se junta ao jovem rapper americano Swae Lee e faz uma ode à Nova Iorque, onde iniciou sua carreira. Madame X inicia a canção falando de saudade e que está cansada de estar longe de casa. O clima sensual cai bem nas duas vozes e dá uma pausa no que já estava sendo ouvido, ainda que seja uma canção bem convencional dentro do repertório da artista.

“Killers who are partying” é uma das músicas com grande influência portuguesa, uma vez que começa em formado de fado, gênero típico da terra de Camões. E por falar na língua portuguesa, Madame X traz trechos em português: “O mundo é selvagem / O caminho é solitário”. O clima dramático e confessional faz parte da música e mostra que ela está ao lado das minorias, o que resgata muito do lado político da cantora. A metáfora do título é o contraponto à corrente: embora muitas coisas ruins estejam acontecendo no mundo, ela continuará lutando para salvá-lo dos assassinos que brincam com as vidas alheias.

Em “Crazy”, Madonna volta mais tranquila, com uma sanfona, um instrumento inédito em sua discografia. Ela fala de estar numa relação abusiva e que não aguenta mais essa situação, por isso decide romper com o amado. É uma mensagem de empoderamento que tem muita ligação com outros momentos de sua carreira, marcada por uma tomada de posição contra as desigualdades de gênero. O contraponto de “Crazy” seja, talvez, “Come Alive”, que traz uma mensagem bem otimista, com um arranjo simples, mas bem cativante. Ela alerta do cuidado com quem as pessoas se relacionam, mas que é preciso viver acima de tudo. O coral aparece no final, de forma apoteótica, em que tem um a função de acordar a população. “Eu te amo, mas não vou deixar você me destruir”, diz ela, em um português esforçadíssimo.

Madonna se uniu a nomes da nova geração como Swae Lee e . (Divulgação).

“Extreme Occident” é uma das faixas mais confessionais de Madonna, uma vez que ela anuncia que já percorreu todo o extremo do mundo, mas que procura encontrar-se no centro da gravidade. Embora ela achasse que estava perdida, na verdade, estava em processo de se autoconhecimento. A letra abre para uma interpretação sobre o espectro político-partidário da cantora, mas também é um modo dela falar que, ao final, não se interesse mais tanto por “direita” e “esquerda” como antes. No que diz respeito à sonoridade, inicia com um fado até se transformar num quê mais egípcio. Essas andanças proporcionaram um caldeirão de multicultural, sendo uma vantagem para Madonna, que decidiu unir tudo isso em “Madame X”.

Acredito que “Faz Gostoso” fosse a faixa mais aguardada pelos brasileiros, porque conta com a presença da estrela carioca Anitta. A música é uma regravação de Blaya, brasileira radicada em Portugal. A música é, sem dúvida, a mais dançante de todo o álbum, uma vez que mistura funk e samba. Nessa faixa, Madonna canta várias partes em português com a ajuda de Anitta, que acaba tendo uma presença discreta. A sensualidade e a agitação estão presentes e esta é, de longe, a mais chiclete e viciante das faixas.

“Bitch, I’m Loca” parece uma continuação de “Bitch, I’m Madonna”, numa versão chata de reggaeton ao lado de Maluma. O ritmo latino continua com o lado danado da Madame X, que deixa claro que gosta dos novinhos, mas que só está disposta a ficar por uma noite. Já “I don’t search I find” traz balada com ares à la década de 90 e fala sobre a busca pelo amor – inclusive, do amor próprio.

“Looking for Mercy” já é o prelúdio para o final do disco e a busca da Madame X por piedade. A música é intimista, em letra e sonoridade, com beats precisos que dão um movimento ondular à procura de Madonna pela paz e pelo amor. Madonna mostra que é vulnerável e tenta encontrar na fé sua força. Nessa mesma linha, ela encerra o álbum com “I Rise”, onde ela encontra a força necessária. Ela observa o passado, os dias difíceis que a Madonna teve, mas também mantém o olhar no presente e diante os problemas atuais. Ela se ergue e afirma que, apenas juntos, poderão vencer os obstáculos.

A preocupação com questões do mundo atual, unido à consciência de que ainda é uma força importante no cenário pop, fazem com que Madonna seja uma das mais importantes cantoras a trazer um debate de realidade e arte hoje. Através da personagem Madame X, Madonna consegue fazer isso e deixa claro, para o mundo, e para a indústria fonográfica, que não importa a sua idade, ela sempre fará música e seguirá inquieta em relação ao seu tempo e questões que lhe são caras, como gênero, política, sexo, idade e poder.

MADONNA
Madame X
[Live Nation/Interscope, 2019]
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