Macaco Bong (Foto: Renato Reis/ Divulgação)

INDIE ROCK EM OBRAS
Macaco Bong já na estréia consegue criar uma personalidade marcante destruindo rótulos da cena independente brasileira
Por Hugo Montarroyos, especial para O Grito!

MACACO BONG
Artista Igual Pedreiro
[Monstro/ Trama Virtual, 2008]

Uma hora e sete minutos de trabalho braçal. De demolição de pedras. Mas também de uma certa delicadeza em meio à brutalidade. Em Artista Igual Pedreiro, álbum de estréia do trio cuiabano Macaco Bong, eles carregam e destroem tijolos da mesma forma que lapidam algumas pedras raras. É um trabalho impregnado de detalhes, prova de que a música instrumental (ao contrário do que julga o senso comum) não é um terreno tedioso e limitado.

Esqueça o monótono show que o Macaco Bong fez no Rec-Beat em 2007. A coisa parece fluir melhor em álbum mesmo. O disco é aberto por “Amendoim”, faixa que se destaca pelo peso e intensidade. Lodo após entra “Fuck You Lady”, e a impressão que fica é que estamos diante de uma música do Rush, tamanho o virtuosismo dos músicos. Aliás, o Macaco Bong é uma espécie de Rush mais nervoso, mais denso, mais proletário e menos “fresco”. “Noise James” vem mais brutal, carregada na guitarra e bateria. O disco vai passando e a sensação é de pasmo: como é possível três músicos produzirem tamanha sonzeira?

Antes de tudo, é preciso alertar que Artista Igual Pedreiro não é um disco fácil. Apesar da maçaroca sonora que promovem nos poucos mais de três minutos de “Shifit” indicar que estamos diante de um álbum de metal, é bom saber que o trio jamais entrega o jogo fácil. De metal passa para uma espécie de punk mais elaborado. Depois para camadas de jazz, e logo em seguida um quê de surf music. Até não termos mais noção de onde estamos e o que ouvimos exatamente.

Não é exagero, de agora em diante, usar o termo “Macaco Bong” para designar uma obra de difícil rotulação. Ou seja, eles conseguiram o que muitos artistas buscam em vão: fogem de todos os rótulos e imprimem uma marca personalíssima.

As guitarras de Bruno Kaypy e a bateria de Ynayã Benthroldo são assustadoramente fascinantes. De uma claustrofobia gostosa de sentir e ouvir. E a surpresa está reservada para o fim: um coro onomatopéico indígena entra de supetão na última faixa, “Vamos dar Mais Uma”.

Pensando bem, a estratégia de lançar o disco gratuitamente pela Trama Virtual, através do projeto Álbum Virtual foi mais do que acertada. Artista Igual Pedreiro é daquelas obras que, esteticamente, estão bem distante do diálogo popular e do consumo fácil. É uma jornada de mais de uma hora pelos caminhos obscuros da música instrumental, pouco acessível e de concessão zero para o ouvinte. Este é exigido na audição de cada segundo, instigado, provocado, e por vezes levado até à vontade de desligar o som e contemplar o silêncio. Mas, por algum mistério da natureza musical do trio, acaba não o fazendo.

NOTA: 9,0

SAIBA MAIS
Myspace: www.myspace.com/macacobong
Flickr: www.flickr.com/macacobong
TramaVirtual: http://www.tramavirtual.com.br
Comunidade do Orkut: www.orkut.com

* Hugo Montarroyos é jornalista do Recife Rock!

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