LATINIDADE
Fruto da safra de cineastas mexicanos, Carlos Reygadas promove uma viagem sensorial pelo universo da culpa e do desejo
Por Gabriel Gurman

LUZ SILENCIOSA
Carlos Reygadas
[Stellet Licht, México/França/Holanda, 2007]

Se você já assistiu a algum filme do diretor mexicano Carlos Reygadas – seja Japón (2002) ou Batalla En El Cielo (2005) -, já sabe: não vá com sono para a sessão, senão perderá 127 minutos de um grande desfile estilístico. Utilizando uma lingüagem não palatável para o grande público, abusando de plano logos, câmera estática (a maioria das vezes em travelling) e total ausência de música, o filme mostra um diretor que se preocupa com cada diálogo (ou ausência dele), com cada imagem, com cada respiração. Merecidamente contemplado com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2007 – mesmo local onde havia sido vaiado com seu filme anterior por causa das cenas de sexo, que apesar de fortes, são necessárias – Luz Silenciosa é uma obra-prima escondida em meio a tantos lançamento neste período pré-temporada de férias.

Apesar de seus dois filmes anteriores terem passado pelo Brasil rapidamente, apenas em mostras, Reygadas vem se consolidando como um dos mais importantes cineastas latino-americanos dentro daquilo que é chamado de Cinema de Arte. Longe da estética de seus conterrâneos Afonso Cuarón, Guilherme Del Toro e outros que já se penderam ao “american way of filming”, ele abusa de um ritmo extremamente silencioso e pausado. Sua belíssima fotografia, sempre com ângulos imperfeitos, mas precisos, mostra uma família estrangeira que vive em uma pequena comunidade no interior do México. Apesar da educação religiosa e rígida, as seis crianças da família parecem felizes, ao contrário de seus pais. Johann, o chefe da família, vive e se afunda em um dilema que envolve a sua mulher, Esther e sua amante, Marianne. Apesar de todo o respeito que sente por sua esposa, ele tem certeza de que a segunda é a pessoa da sua vida. Mas como acabar com um relacionamento de tantos anos e deixar tudo o que foi construído para trás?

O que poderia ser apenas uma dúvida tão rotineira nos dias de hoje se torna um inferno onde a figura de Deus se torna ainda mais presente. Ao pedir ajuda para seu pai, este o diz que o que está fazendo é “coisa do diabo”. Nessa comunidade não há espaços para desvios de conduta ou qualquer desvio, imperfeição. Afundado em sentimentos de culpa e desejo, Johann não consegue deixar de se entregar para a mulher de sua vida e, ao mesmo tempo, o lar que criou com tanto esmero começa a se desestruturar. Se em Batalla En El Cielo, as frustações e dúvidas eram mostradas por Reygadas a partir do sexo (e diga-se, de uma maneira sublime), em Luz Silenciosa, as próprias relações humanas são intermediadas pelo divino, pelo mantenimento da ordem. “A paz é mais forte do que o amor”, como diz um dos personagens da obra.

Apesar de esteticamente o filme lembrar diretores como Tarkovski e Bergman, a referência mais direta está no trabalho do cineasta dinamarquês Carl Dreyer, mais especificadamente em seu filme A Palavra (1955) que dizem ser um dos mais belos filmes do cinema em preto-e-branco. Apesar da temática diferente, os questionamentos tanto de Reygadas quanto de Dreyer partem dos mesmos princípios: a religião, a crença, o pecado e o milagre.

O milagre no filme do mexicano aparece no final de maneira delicada, mas exuberante. Não é preciso música para se emocionar muito menos de closes exagerados. Não é preciso uma emoção forçada dos personagens – sejam eles crianças ou adultos. Esses, em momento algum abandonam a cartilha da criação que receberam. O pessimismo de Reygadas – que está longe de se tornar redentor em qualquer momento suas obras -, mostra uma obra autoral, consistente e conceitual como pouco se tem visto no cinema recente e, por bem ou por mal, o fato de sua terceira obra ser a primeira a entrar em circuito comercial no país é algo a ser comemorado. Durma bem, vá ao cinema e aproveite.

NOTA: 7,0

Trailer Luz Silenciosa

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