Um filme que vem causando sensação nos paises latinos é a produção de terror espanhola REC, alusão ao temo em inglês da tecla gravar. Em termos de estética, faz lembrar um projeto que há alguns anos inundou a Internet e se valia de efeitos audiovisuais que lembram os velhos tempos do Super 8, o hiperestimado a Bruxa de Blair. Pra quem não viu, The Blair Witch Project (no Brasil, A bruxa de Blair, em Portugal, O Projecto Blair Witch) é um filme de 1999, escrito e dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, feito com singelos 35 mil dólares, e que arrecadou muito dinheiro, contando a estória de três estudantes que vão em busca da Bruxa de Blair em Maryland, USA, um velho mito local. O projeto teria, aliás, uma paródia nacional, a Bicha de Blair, que estreou no festival da Diversidade Sexual em São Paulo e de uma certa forma ratificou a abrangência do sucesso da dupla americana.

Em março deste ano REC conquistou o prêmio de melhor filme no Fantasporto, o festival português de filmes de terror que acontece na cidade de Porto. Todos os blogueiros adoram o filme. Pudera. Dirigido pelos jovens espanhóis Jaume Balagueró e Paco Plaza, o filme é freqüentemente comparado a Redacted, de Brian de Palma, que explora muito bem a linguagem web e a captação de imagens em vídeo, utilizando uma estratégia narrativa típica de documentário para criticar a própria guerra do Iraque. Mas REC é muito mais trash do que o filme de Palma, e não tem, aparentemente, a menor aspiração intelectual, na verdade elege a reportagem televisiva como estrutura narrativa, e é infinitamente mais latino, se é que, em tempos de transnacionalismo, seja possível definir o que é ser latino com tranqüilidade.

O filme começa com uma equipe de televisão composta por uma dupla, um cameramen e uma jovem repórter, que participam de um programa noturno chamado Enquanto Você Dorme, cobrindo a noite espanhola. A pauta do dia, ou melhor, da madrugada, é acompanhar a rotina de um corpo de bombeiros. Tudo se faz como numa matéria qualquer de uma emissora de tevê numa grande cidade global, no caso Barcelona, com os bombeiros e os funcionários da unidade extremamente solícitos com os repórteres, e ansiosos por aparecerem na televisão e serem transformados, momentaneamente, em celebridades locais. Eis que surge uma denúncia de um assassinato em um prédio que, depois vamos descobrir, será isolado pela saúde pública por suspeita de ter sido atingido por um vírus desconhecido, o que afetaria seus moradores. O que transforma completamente o estilo do filme e a trajetória da reportagem de comportamento, que vai se convertendo gradativamente em uma matéria de denúncia, totalmente hard news, chegando a momentos memoráveis que lembram programas mundo cão como Cidade Alerta e Aqui Agora.

O caráter desigual das atuações do filme, e a total desglamurização dos personagens, sem nenhum tipo de atrativo tão comum nos filmes de terror americanos, por si só, já estabelece um metacomentário do gênero. Esquisitos, antipáticos, fofoqueiros, preconceituosos, racistas, os moradores do prédio estão longe de estabelecer qualquer padrão de beleza ou de comportamento heróico. A polícia não tem o menor interesse neles, e praticamente lava as mãos em todas as situações criadas, eximindo-se de qualquer tipo de interferência no drama. Nada de mocinhas bonitas gritando, à espera de um protagonista boa pinta que virá salvá-la: a loura repórter, a carinha mais bonita do vídeo, vai ter seu visual sedutor e ingênuo desfigurado pelo horror que se segue, e de forma implacável. Para ela, fica claro, não existe redenção, e muito menos, príncipe encantado. Sua única referência é Pablo, o cameramen. O efeito da câmera-olho, a câmera subjetiva, contribui para criar o clima de terror, e é dado por Pablo. Este, a exemplo do Valdeci (performance de Fernando Meirelles), de Marcelo Tas, o Ernesto Varela, que nunca aparecia em cena, é quem, na verdade, “narra” o filme, sem ser jamais onisciente, e participando da trama como qualquer espectador, apavorado, trêmulo.

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REC – Trailer

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[+] Luiza Lusvarghi graduada em Letras e em Jornalismo, mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Como pesquisadora, dá ênfase aos Estudo dos Meios e à Produção Mediática. Atualmente, é bolsista de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde realiza pesquisa sobre estratégias globais de comunicação para a mídia regional no Nordeste.

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