A CARAVANA DO DESESPERO
Numa luta quixotesca pelo reconhecimento e pela necessidade de ser celebridade, Luisa Marilac joga o movimento gay no limbo de incorreção através do reforço do preconceito

Por Fernando de Albuquerque
Da Revista O Grito

No dicionário a definição de transexual remete diretamente ao conceito de transexualismo que, só pelo seu sufixo “ismo”, carrega uma enorme carga de preconceito. Encarados pela sociedade com certo tom burlesco, os transexuais, transformistas, transgêneros – uma série de nomenclaturas foram criadas para definir aquilo que senso comum nomeou e sabe distinguir muito bem – se perdem dentro de um verdadeiro substrato de opções que congregam, apenas, aquilo que salta os olhos, o que é caricato e completamente descartado.

Não se pode negar. Gays, lésbicas, simpatizantes, amigos do LGBTH (tem um monte de letras também) e héteros tratam o transexualismo como algo bizarro. É impossível negar. É o que se viu e se vê quando olhamos para o “case de sucesso” chamado Luisa Marilac. Do subúrbio brasileiro para Barcelona, ela ganhou notoriedade cumprindo exatamente aquilo que o senso comum gosta: sendo bursleca. Sem conseguir acertar na concordância verbal, quiçá nominal, ela gravou um vídeo querendo provar aos compatriotas que “estava numa boa”. Conseguiu notoriedade, mas só mostrou que estava, está e vai levar o movimento gay para “uma pior”.

Luisa Marilac tem seu quê de charme. Deve ter uma penca de homens interessados nela, e sim, está sabendo tirar proveito da situação de “celebridade instantânea”. E tanto quanto a cultura fast-food em que nasceu, o discurso dela é um verdadeiro sacos de gatos sendo apunhalados por mau feitor em busca de miados desesperados. Ela não consegue juntar alhos com bugalhos e continua, agora propositadamente (e acaba soando fake mesmo) errando na concordância. Luisa Marilac, além de ovacionar o espetáculo burlesco que tantos movimentos gays e ONGs no mundo inteiro tentam desmistificar, veio para reforçar o estereótipo de que “travesti é bagunça”, de que travesti tem que ser trash (o vídeo da piscina não é nada além disso), de que travesti tem que falar errado. E quando ela empunha o brasão da liberdade sexual, de proteção e direito para os homossexuais faz o movimento perder dez pontos a cada besteira que diz.

Se ela embalsama seu discurso no sonho de ser “aceita”, comete aí o seu primeiro pecado capital. Luisa consegue aceitação quando empunha (talvez de forma inconsciente) a bandeira de que é bagunça mesmo, que fala como uma louca, que diz o que vier na cabeça, que diz palavrão mesmo, que recato não combina com sua posição de travestistransexuaisetransgênero. Ela reforça o preconceito e por isso faz tanto sucesso.

Na boate Metrópole, o que se viu em seu “show” foi exatamente o descrito acima. Com o agravante que o lugar, gls por vocação (ainda bem!), estava repleto de congêneres de Luisa. E todos evocavam a “diva” da concordância errada a se jogar na piscina e preferir seu erro fatal: “bons drink”. Bom para ela, que ganha fama em cima do próprio desespero, ruim para toda a plateia de gays que vê a cruzada pela aceitação da opção sexual livre, da união homoafetiva comparada com a própria trasheira que é Marilac.

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