FELICIDADE INSTANTÂNEA
Banda sueca Love is All usa corações e muito pouco para conquistar o Rock ou, Como encontramos, finalmente um lo-fi bom de verdade
Por Paulo

Canções de amor. Quem ainda tocaria nesse assunto com um vigor jovem e sincero? Morrissey, indieces do norte anglo-saxão? A banda de indie pop sueco Love Is All escancaram tanto no nome, quanto nas letras e nas músicas do disco essa verve em dizer “amor é tudo”. Amor é tudo. Sem cair na afetação nem na melancolia, os moleques do Love is All conquistam com muito pouco. E falam do mesmo assunto em todo o disco sem se esgotarem nem se repetirem.

A banda foi formada na cidade de Gothenburg, Suécia e logo conseguiram emplacar um lançamento no selo novaiorquino What´s Your Rapture?. O grupo não é nem tão famoso ainda em seu país de origem, mas a internet já fez o favor de alardear (o quanto pode) o grupo. A banda recebeu uma crítica elogiosa da bíblia da música alternativa americana, o site Pitchfork. Também já figuraram no Band of The Day, seção online da revista Spin. Daí em diante ja conquistaram uma trupe de indies fanáticos, como é característico de bandas suecas. O Love is All nem mesmo tem um site decente; a página deles na internet se resume a mostrar a agenda de shows da banda. Se quiser conhecer melhor o grupo e o som desses suecos apaixonados o melhor é o MySpace. A página também é sofrível e até semana passada, não tinha nem as músicas disponíveis, mas a notoriedade e o número de acessos mostra que as músicas sobre amor dos caras anda fazendo sucesso. Também no myspace deles, é possível dar uma passeada pelos amigos da banda, com descobertas interessantíssimas, todos eles bandas desconhecidas, grande parte da Suécia que, assim como o Love is All, merecem ser descobertos.

SOFREDOR E SOFRÍVEL – Formado por nicholaus sparding (guitarra +vocais), fredrik eriksson (saxophone), markus görsch (bateria), johan lindwall (bass guitar) e josephine olausson (vocals) o Love is All assume as deficiências ao som do grupo. É mais do que assumir uma estética lo-fi. As guitarras entoam acordes que parecem ter sido tocados por um equipamento precário. Na verdade, todas as canções parecem ter sido tocados uma única vez. Estas imperfeições são incorporadas ao som do grupo, que ainda conta com um vocal infantilóide de josephine olausson, a vocalista. Nine Times That Same Song, o disco de estréia do grupo, parece na verdade crianças no estúdio. Um disco que soa como um ensaio foi o que chamou a atenção para o grupo. Semelhante a quando você faz algo uma vez e não consegue repetir de tão bom, o Love is All entrega paixão que supera as imperfeições do som e das letras, repletas de clichês amorosos. Essa honestidade em não depurar o som é o diferencial que toda banda relevante hoje possui. Ultimamente, na orgia de bandas que se esforçam em encontrar o pop perfeito, o acorde que vai ser hit certeiro logo mais, muitas outras bandas andam explorando o lado imperfeito do rock. O Clap Your Hands Say Yeah, uma das bandas mais importantes no rock hoje fez um disco perfeito com o vocal aparentemente desafinado do seu vocalista Alec Ounsworth. O Animal Collective, subverte todos os conceitos da música pop com seu som rimal, como animais trepando e barulhos da natureza. Se o Yeah Yeah Yeahs se comportou e entrou nos moldes, o Love is All, é o pedaço ingênuo e maluco que o rock ainda pode lembrar. Animais e crianças são os seres que ainda conhecem o lado lúdico e divertido de existir. Sem apelar para um sentimentalismo, o grupo falou de amor. Esqueça o Keane com seus lenços ensopados, ou o platonismo gay morriseyano, o Love is All canta com o coração, não quer crescer e como disse Josephine Olausson, vocalista, “nós respondemos à paixão, não à perfeição”.

LOVE IS ALL
Nine Times That Same Song
[What´s Your Rapture?, 2006]

Após o play, somos apresentados ao vocal de Josephine. Ela parece alguém que não cresceu, é algo entre o demente e o bizarro. Ela canta “Talk Talk Talk Talk”, sua banda se esforça em tocar bem, o som parece o de crianças fazendo algo que não devem. Há escárnio e uma loucura deliciosa. O nome do disco informa que o grupo só irá falar de amor, sem que isso canse o ouvinte. É difícil enquadrar o som do Love is All, além de ser difícil compara-los, e as bandas que o som da banda remetem são um tanto obscuras e não ajudam muito, como o Life Without Buildings uma das influências no som do grupo.

O disco possuí um clima particular. Seus acordes facilmente remetem à sonoridade do Love is All, depois de ouvir o disco algumas vezes, é fácil reconhecer o som do grupo. “Felt Tip” tem uma atmosfera triste de um fora, mas alterna a felicidade de jovens ingênuos e apaixonados.

E isto não foi meloso, acreditem. Há uma elegia ao prosaico, às coisas pequenas, bestas, como em “Used Goods”, ao levantar-e-cair, básico em todo relacionamento, na faixa “Make Out Fall Out Make Up”, que lembra “Wake Up” do Arcade Fire. Um misto de alegria sem resignação com ingenuidade. O pop imperfeito do Love is All é a maior descoberta do rock and roll em anos.

NOTA: 8,5

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